3/16/26

ABUSO MARCAS QUE O ESPELHO NÃO VÊ

 



Baseado em um caso real

 

Na época dos fatos que narraremos, Marinalva morava no Bairro do Morro Grande, periferia de São Paulo, localizado depois do bairro da Freguesia do Ó - região antigamente conhecida pela existência da Pedreira do Morro Grande.

No início da sua moradia por lá, era só mato, mas, com o crescimento da cidade, sofreu uma forte urbanização. No momento há a perspectiva de uma linha de metrô partindo do bairro, o que tem impulsionado enormemente o seu desenvolvimento urbano.

No princípio, a casa se situava em uma área onde a maioria das moradias era composta apenas por paredes e uma laje por cima, sem nenhum reboco. A sua começou dessa forma. Foi em um terreno dado por seu pai.

A casa começou a ser construída com a pouca economia que ela e o Vlado, seu marido, possuíam.  Ela trabalhava de diarista e ele de porteiro em prédios e de vez em quando na construção civil. Aos poucos, muito mais com a contribuição dela do que dele, a casa foi terminada e mobiliada, realizando o primeiro grande sonho dos dois.

Para Marinalva nunca faltou trabalho, uma patroa a indicava para outra, inclusive, muitas trabalhou para famílias nas quais ia duas ou três vezes por semana o que amenizava, em muito, o trabalho.

Outro grande desejo dos dois, muitas vezes murmurado e deliciosamente trabalhado entre os lençóis, era ter um filho.  Hoje, Gerson, com 14 anos.  Esperado, amado e comemorado entre todos da família. Dos netos o mais carinhoso e querido pelos avós.

Como os pais saem cedo para o trabalho, ele vai para escola pela manhã e na hora do almoço retorna para a casa de sua tia Marilene, irmã de sua mãe, que mora duas ruas acima da sua, ao lado da casa dos avós. À tarde trabalha em um supermercado de empacotador.

Entretanto, a vida vai dando suas voltas e nela muitas vezes nos perdemos. Nos últimos quatro anos, por causa da bebida, Vlado foi mudando de emprego, devido a atrasos e faltas ou por chegar alcoolizado. Por mais que mãe e filho pedissem para que ele parasse ou diminuísse o consumo, isto não ocorria.

Como ela supria a casa, ele foi negligenciando financeiramente. Quando não estava trabalhando, passava o tempo, em um bar próximo de sua casa, jogando dominó e bebendo.

Em um dos dias, ao retornar para casa, Marinalva, encontrou o marido e mais três indivíduos esparramados pela sala. Aparentemente jogavam dominó, mas, com certeza bebiam, pois havia copos e garrafas pelo chão. Os panos que com cuidado colocava sobre o sofá e as poltronas, para melhor preservá-los, pelo chão e pisados. Seus bibelôs na estante caídos, demonstrando falta de cuidado e correndo o risco de serem quebrados.

No primeiro momento suas pernas fraquejaram, depois, tomou força e gritando colocou-os para fora, agarrando-os pelas camisas e empurrando-os para fora. Alguns estavam cambaleantes, como seu marido, que se mostrava zonzo pela bebida e que empurrou porta afora, quase caindo pela escada na frente da casa.

- Fora cambada de bêbados. Eu trabalho a semana toda e no sábado e domingo cuido da casa para ficar em ordem para a semana e vocês sujam tudo. Fora, cambada de desocupados. Não voltem mais. Fora!

Sentou-se na poltrona e começou a chorar. Sentiu-se frustrada pela falta de respeito do marido em relação à casa, a moradia duramente construída e mantida, ele deveria ser o principal protetor.  Foi assim que seu filho a encontrou quando chegou em casa, tomando conhecimento do ocorrido.

Vlado chegou tarde e se meteu na cama.

Na manhã seguinte levantou-se junto com ela.

- Esta casa também é minha e trago quem eu quiser – esbravejou.

- Não traz, não. Quem cuida de tudo para ela ficar em ordem sou eu. Nem dinheiro você coloca na casa há um bom tempo. Quando tem só gasta com bebida.

Puxando-a pelo braço e apertando seu pescoço, com os olhos inchados pela ressaca e com um bafo insuportável disse:

- Eu sou o homem da casa. Sou eu que mando. Agora vai trabalhar e veja se toma mais cuidado com o que faz e ao que fala diante dos meus amigos.

Marinalva foi embora sentindo as mãos de Vlado em seu pescoço. Olhou no espelhinho de bolso e viu que não havia ficado com marca.  Nunca o vira com aquele olhar; nunca haviam se confrontado daquela forma. Por dentro ficara a pior marca: uma sensação desagradável de perda de confiança e de insegurança.

O filho levantou-se para ir à escola, olhou o pai com olhos de fúria e saiu batendo a porta, sem nem tomar o café que o pai ofereceu.

Nos dois, três dias seguintes a procurou manifestando arrependimento.

- Você sabe que esse não sou assim, perdi a cabeça, não te machucaria, me perdoa, eu te amo.

Todo meloso, informou que tinha encontrado um novo emprego de porteiro e que começaria na segunda-feira. Ela recitou a ladainha da bebida que estava acabando com ele e com todos os empregos que arrumava. Promessas mil foram feitas por ele sobre a bebida, novamente.

Nesse emprego tinha horários variados, havia semana que pegava às 5 h da manhã e largava às 14 h. Nesses dias, dirigia-se para o bar, para o dominó e as bebidas. Nada adiantaram as palavras da esposa e do filho, alertando que tudo estava começando a acontecer novamente.

O emprego dele já se aproximava do final do segundo mês, quando ao chegar à casa, à noite, Marinalva o encontrou com três parceiros e duas mulheres que estavam sentadas no colo de dois deles.

Ela perdeu o controle e começou a gritar para que se retirassem.

Seu marido, totalmente alcoolizado deu-lhe dois tapas, derrubando-a no chão. Levantou-a pela blusa, que se rasga mostrando um seio para fora do sutiã, que se rompeu.

-Você cala a boca, sua filha da puta. Não vai me desrespeitar na frente dos meus amigos. Já disse, esta casa também é minha.

As mulheres bêbadas e rindo, disseram:

- Mostra quem é homem da casa.

Enraivecido e tocado em seus brios pelos comentários, arrastou-a para o quarto, onde a joga sobre a cama.

- Sabe que você está gostosa. Esse teu peitinho me deixou com tesão.

Jogou-se sobre ela, que pressente que poderá ser estuprada pelo marido e reage como pode. Arranhando-o, chutando e gritando. Ele como estava muito bêbado, com os empurrões caiu da cama e levantou-se cambaleante.

- Fica aí sua vaca. Depois que eles forem embora, a gente conversa.

Ela tratou de se trancar no quarto, chorando. O sentimento que sentira dias atrás se alastrou pelo corpo, sentiu-se um nada. Não via respeito e nem amor em seu marido. Lentamente, com o passar dos anos a relação de entendimento e afeto fora diminuindo. Às vezes predispunha-se a atendê-lo nas suas investidas sexuais, mas não havia mais sentimento de amor e de carinho. Sentia-se um mero objeto para seu prazer. E o fazia para manter a estabilidade da família.

Só abriu a porta quando o filho chegou.

- Mãe, você não pode continuar com essa vida. Dá um duro para manter nossa casa e é tratada com desprezo por quem devia te cuidar. Você não depende em nada dele. Procure uma saída, converse com o pastor Josué, ele pode aconselhar o que é melhor a ser feito.

Ao conversar com o pastor, foi aconselhada a ter paciência, que o papel da mulher é obedecer ao marido e ajudá-lo a seguir um bom caminho, estava na mulher o equilíbrio da família.

 Ele e a esposa foram fazer uma visita à casa de Marinalva com a presença do marido e conversarem. Vlado, seguindo um roteiro já conhecido de arrependimento, propôs se remediar, passar a participar dos Alcoólatras Anônimos e jurou nunca mais agredir a esposa, pois, a amava, e como dissera o Pastor ela era o bastião sagrado da família e precisava ser respeitada.

Durou três dias, quando ao voltar à tarde, o encontrou alcoolizado na sala e ao perguntar por que não estava trabalhando, respondeu ter sido mandado embora, por intriga de um faxineiro que queria sua função de porteiro.  Situação e desculpas comuns às inúmeras vezes em que perdera o emprego.

Novamente a agarrou pelo pescoço - prometeu matá-la se falasse com mais alguém sobre seu relacionamento - como fizera com o Pastor. Começou a beijá-la percorrendo o pescoço e baixando sua blusa até os seios. Suas palavras eram de ódio, sua ação de violência e seus olhos refletiam ira.

Esbravejando que ele era o homem da casa, imprensando-a contra a parede e, praticamente cuspindo em sua cara vociferou que ela era sua mulher e deveria obedecê-lo, inclusive sexualmente, como queria naquele momento.

Marinalva reagiu, gritando, empurrando-o, tentando afrouxar a pressão no pescoço, e dar uma joelhada para se livrar. Ele, ensandecido empurrava-a para a cama e com uma das mãos levantava-lhe a saia, tratando de arrancar a calcinha. Derrubou-a na cama.

Ela, em pânico, sentia ter cada vez menos forças para se defender. Seus gritos, que eram agudos, se tornaram sussurros por causa da pressão sofrida na traqueia. A única coisa que via eram seus olhos, dilatados, avermelhados, animalescos. Estava se dando por vencida. Levou um murro na boca apagando-a por momentos. Ele abre suas pernas. Acordou com uma dor no ventre, era ele penetrando-a com violência e a machucando. Impotência, insegurança e medo foram o que sentiu enquanto a dor aumentava.

Nesse instante, seu filho chegou, pegou uma cadeira e bateu no pai, que caiu no chão, dando tempo de levantá-la da cama, subir-lhe a blusa cobrindo os seios e empurrá-la para a sala. Fechou a porta e com os pedaços da cadeira quebrada passou a bater no pai, até que teve um ataque de choro e caiu prostrado no chão.

Um forte sentimento de culpa apossou-se dele, pois era seu pai, mas não podia permitir a forma como tratava a mãe. Levantou o pai, levou-o até a porta da frente e o empurrou escada abaixo, onde ele ficou vociferando, segurando-se na mureta, mal ficando em pé. Contrário aos desejos da mãe, chamou a polícia, que tardou a chegar, seguindo todos para a delegacia, debaixo dos olhares e comentários dos vizinhos.

Era o início do surgimento da Lei Maria da Penha, e a delegacia ainda estava mal preparada para um atendimento apropriado, Foi aberto um boletim de ocorrência, ela foi encaminhada para exame de corpo de delito e o agressor permaneceu preso por alguns dias. Para ela foi uma noite longa de cansaço, dor e vergonha, tendo que se expor para exames.

Marinalva não teve condições de trabalhar no dia seguinte e seu filho não quis ir à escola nem ao trabalho. Ela, pelas feridas físicas e emocionais, e o filho com receio do retorno do pai.

Dois dias depois foi trabalhar em uma casa onde a patroa, Margô, a tinha em grande consideração e sempre a aconselhava. Ao saber o que houve, conversou com sua amiga advogada, Carla, que se propôs assumir o caso “pro bono”, ou seja, gratuitamente. Margô propôs-se a pagar qualquer despesa que houvesse.

Marinalva ficou em dúvida. As palavras polícia, advogada, audiência trouxeram grande receio. Ele era seu marido e era a sua família em jogo.  Margô a incentiva a utilizar os serviços de sua amiga, mas ela se mostrava relutante. Margô lhe dize:

- Marinalva, tudo começa com agressões muitas vezes seguidas de arrependimento. Só que as agressões vão aumentando, ficando cada vez mais violentas. Não te respeita, age como se fosse o teu dono e não teu marido. Vai aumentando, até que, acaba em morte. Temos muitos casos, em nosso país, de violência doméstica que acabam em feminicídio, ou seja, mulher morta pelo companheiro, e se desenvolvem como está ocorrendo contigo. Cuidado, não deixe que aconteça contigo.

Marinalva mergulhou em noites de insônia. O que fazer? Era o pai do seu filho. Recordava as lembranças boas que viveram, as dificuldades do início de vida que enfrentaram a dois, as conquistas. Agora se pergunta: onde está o amor que os uniu? Não tem coragem de dar esse passo.

Cada noite que volta do serviço, seu coração se acelera à medida que chega a seu ponto de ônibus. O sentimento de medo toma seu corpo, começando na boca do estômago, indo para o coração, sobe pela garganta deixando a boca seca. A cada passo, na rua, ouve o bater do coração, compassando com o caminhar. O ouvido se apura para perceber se alguém se aproxima.

Tenta andar junto de pessoas, mas há momentos que não é possível. Cada entrada de rua deserta, cada subida de ruela erma se pergunta:

- Estará me esperando?

Numa das vezes, ao virar uma esquina, uma sombra.

 Era ele!

Sentiu as pernas pesadas, os braços caídos, não tinha força para correr e não tinha voz para gritar. Teve que se esforçar em continuar caminhando. Ao final era um vizinho que vinha em sentido contrário.

Precisou sentar em uma mureta, pois, o cansaço era enorme e seu corpo só queria se largar em qualquer lugar.

Chegou em casa quase sem forças e ao se aproximar, observa as janelas, a porta, o portão na busca de algum sinal da presença do marido. Tensão. O que a faz entrar é a preocupação com o filho. Novos sentimentos de angústia, esperando que ele esteja bem, em casa.

- Terá invadido a casa, estará meu filho bem, não terá encontrado o pai e tido uma desavença? O que vou encontrar?

Ao entrar, a porta da casa parece ter quilos de peso, o mínimo ruído que faz lhe parece um grito de chamada de atenção. Lentamente entra e se dirige em direção à sala onde nota alguma movimentação.

 Graça a Deus era seu filho e estava bem. O abraça como se não o visse há anos. Ele sente o medo no abraço da mãe, que também está dentro dele.

Ela vai para o quarto deitar um pouco, antes de acabar a janta que o filho começou. Está exausta. O cansaço do percurso até em casa é maior que o cansaço do trabalho do dia.

Sua patroa, cada vez que a encontra lembra da importância de tomar medidas judiciais. E lhe alerta:

- Quando tudo estiver mais calmo e achar que está tudo bem, ele vai aparecer. Pode se preparar para isso. Homem, como seu marido, não presta e, portanto, vai voltar com as mesmas atitudes. Serão novas agressões. Digo as minhas filhas: a mulher tem que se dar o respeito. Sem dúvida, homem nenhum pode desrespeitar uma mulher, seja aonde for e como for. Entretanto, se a mulher tem postura, inibe algumas investidas.

Marinalva continua agoniada, mas, não tem coragem de tomar novas medidas.

Vai se passando o tempo, sem ele aparecer. Cada dia tem a sua tensão que pouco a pouco vai diminuindo, acreditando que não mais virá, por já ter passado por prisão, além dos boletins de ocorrência que ela fizera.

Certo dia, no retorno para casa, uma conhecida, no ônibus, disse que o viram pelo bairro. Sentiu-se mal, tiveram que lhe dar espaço para sentar, pois, ficou branca e quase caiu.

- Desculpe, com o calor a minha pressão caiu.

 Fez o percurso até em casa tomada de terror. No dia seguinte vai até a casa de sua irmã Marilene e conta o que ouviu.

- Mana, você tem que fazer o que tua patroa falou. Fora isso, eu tive uma indicação que pode te ajudar. É a Dona Juréia.

- Dona Juréia que eu saiba é benzedeira.

- Ela é benzedeira, mas também é uma senhora de idade, bastante respeitada na comunidade, e te dará conselhos do que fazer. Muita gente me recomendou que você falasse com ela.

Foi, não tinha nada a perder. A Dona Juréia a atendeu com muito carinho e atenção. Já tinha ouvido falar da sua situação. E acompanhada de um cafezinho feito na hora, e um pedaço de bolo, ouviu as recomendações do que fazer. Ao ir embora ouviu suas últimas palavras:

- Faça o que eu disse, mas, não deixe de atender o que tua patroa te orientou, é importante. Procure a justiça e a única forma de distanciá-lo e dar segurança a você e ao teu filho.

Foi embora com as orientações recebida, ainda resistente. Mas, infelizmente, tomada de medo, sentindo-se insegura.

Em um sábado, ao retornar do trabalho vê uma luz acesa em casa. Fica assustada. O filho naquele dia iria para a casa da irmã, pois, tinha folga e sairia com os primos. Torcia para ter esquecido acesa ao sair, pois, haviam trocado as fechaduras da casa e até grade colocaram em algumas janelas.

Ao entrar, lá estava ele. Sentado no sofá, tomando cerveja e pinga e assistindo televisão.

Medo, insegurança, terror tomaram seu corpo. Fez força para manter a voz e dizer:

- O que está fazendo aqui? Como entrou?

Depois veio a saber que arrebentou o basculante da janela do banheiro e entrou.

- Vim passar o fim de semana na minha casa. Ver minha mulher. Faz uma comidinha e a gente almoçar juntos.

Apavorada e desejando que não se altere, vai para a cozinha fazer algo. Demora com almoço na esperança em que ele passe o tempo bebendo, pois viu na geladeira várias garrafas de cerveja e sobre a mesa algumas de pinga. Coloca alguns salgadinhos em um pote e leva até a sala.

- Assim que eu gosto de ver.

Acaricia suas nádegas, alguns pequenos apertões e tapas.

- Minha mulherzinha gostosa!

Depois de esquentar um feijão, fazer um arroz e fritar dois ovos, o chama para a mesa. Vem cambaleante e quase cai da cadeira. A abraça pela cintura

- Este é meu amorzinho.

- Come, e depois propõe que ele deita um pouco em sua cama para descansar.

- Nossa cama, que bom. Depois você vem junto?

- Se você ficar bonzinho eu até vou.

Com dificuldade consegue leva-lo até a cama.

Quando já está dormido, ou seja, mais desmaiado que dormido, pega sua bolsa e sai. Vai seguir as orientações da Dona Jureia. Sobe o morro e embrenha-se na favela. É parada três ruas acima por dois marmanjos de armas na mão.

- Tia o que tá fazendo aqui?

- Eu quero falar com o Pezão, foi a Dona Juréia quem mandou procurá-lo – respondeu com a voz trêmula.

Pezão é o chefe do tráfico na região, comanda tudo o que acontece na comunidade e em volta.

O nome da Dona Juréia desperta a atenção dos rapazes que se comunicam com alguém por rádio, celular ou o que quer que fosse.

- Vamos.

Sobem algumas ruelas, parando em uma delas. Vem uma pessoa e lhe coloca um capuz. Seu coração se acelera, parece que irá sair pela boca. Caminha insegura, apoiada e apoiando-se nos dois rapazes. Tropeça, mal consegue pisar, vai sendo levada.

Após várias quebradas, nota que entrou em uma casa onde lhe retiram o capuz. Na sua frente, sentado em uma cadeira, está um rapaz de pouco mais que trinta anos com rosto jovem, mas duro.

- A Dona Juréia mandou a senhora falar comigo, pra quê?

Titubeando nas palavras, tremendo, relata o que acontece no seu relacionamento com o marido, as medidas que tomou e o medo que vive. Ressaltou, que no momento ele está deitado em sua cama bêbado, após ter arrebentado a janela do banheiro.

- Eu conheço teu marido dos botecos. Já ouvi várias histórias dele. É metido a malandro e valentão com quem é mais fraco. Não presta. Vou te ajudar.

Chama um pessoal e passa instruções.

- Eles irão contigo até tua casa.

Novamente um percurso com capuz. Quando o tiraram, observou que era quatro pessoas lhe acompanhando. Nenhum dos rapazes iniciais.

Ao chegar em casa, ordenaram que aguardasse fora. Depois de alguma gritaria, saíram trazendo seu marido arrastado. Ele gritando que estava em sua casa. Ao chegar na rua e ao vê-la, entende o que estava acontecendo.

Ela tensa pela gritaria, pelas pessoas a sua volta e a forma agressiva como Vlado estava sendo retirado. Suas pernas mal sustentavam seu corpo. A sorte é que alguns vizinhos saíram, principalmente mulheres, e se puseram ao seu lado, pois, entendiam o que ocorria.

Na falta da presença da JUSTIÇA lhe protegendo a (in)JUSTIÇA do povão atuou. O MEDO combatendo o MEDO.

O colocaram em um carro e saíram.

Veio a saber que deram uma surra no marido e ameaçaram-no a não aparecer pelo pedaço.

Seu filho que ainda considerava o pai e tinha a esperança que saísse da bebida, o procurava periodicamente, para se verem, trouxe essa informação.  Soube pelo filho que o marido estava com medo de aparecer no bairro e estava tomando mais cuidado com a bebida, pois, não tinha a esposa para se escorar financeiramente.

Ao contar para Margô, sua patroa, o ocorrido esta lhe alertou que isso poderia parar os incômodos por parte dele, por um tempo, mas que o ideal era utilizar de medidas legais para o afastar e protege-la legalmente. Se não fosse por ela que fosse pelo filho.

Marinalva passou um tempo indecisa, acreditava que o ocorrido resolveria a questão, o marido não mais lhe incomodaria. Seu filho, apesar de ter pena do pai e de tratar de ter contato com ele, concordava com sua patroa. Deveria buscar a lei. Ela lembrou das palavras da Dona Juréia, a benzedeira:

“Faça o que eu disse, mas, não deixe de fazer o que tua patroa te orientou, é importante.”

Porém manteve-se com a mesma opinião, não iria acabar de vez com sua família buscando a lei. Tinha esperança que ele aprendesse a última lição.

Alguns meses passaram, até que em um dia, uma vizinha veio correndo dizer que seu marido o encontrara em boteco próximo do bairro.  Dizia que iria voltar para casa, que era sua. Tinha amigos que o protegeria se necessário.

Ao conversar com sua irmã do medo que estava sentindo e do receio que algo acontecesse ao seu filho e após muita insistência dela, resolveu procurar a Dra. Carla.

Ela entrou imediatamente com a denúncia de agressão, estupro, invasão e solicitou o afastamento do agressor da casa e a proibição de aproximação da mulher. Solicitou separação e o pagamento de pensão para o filho.

- Dra., ele não ganha nem para si, quanto mais para o filho.

- Tudo bem, só que hoje em dia, da forma como a lei vem evoluindo, a falta de pagamento de pensão leva a pessoa a prisão. Poderemos vir a utilizar esta possibilidade como pressão, se necessário, no futuro.

Tratou de obter o endereço em que trabalhava para que recebesse todas as notificações, de forma que se preocupasse e se acautelasse de se aproximar.

A Juíza foi clara para Marinalva:

-  Se a senhora não desse um basta ao seu marido, as agressões iriam aumentar, e o final poderia ser a sua a morte. Temos um número grande de feminicídios acontecendo. A mulher tem que se proteger dos relacionamentos abusivos, que podem não ser agressivos, mas morais, sexuais e financeiros. Muitos homens acreditam que a mulher é posse dele. Por machismo, por ciúme, seja pelo que for, abusam de suas mulheres. O feminicídio é algo que ocorre nos país inteiro, não escolhe classe social.

O casamento tem que ser uma parceria com muito respeito. Caso tenha alguma conhecida, casada ou não, que passa por essas situações, com ela, filha, enteada diga que denuncie pelo 180 que tomaremos providência e a ajudaremos, hoje a lei está promulgada, precisamos trabalhar para que seja melhor aplicada. Que as mulheres nessa situação tenham uma melhor acolhida pela lei e pela sociedade.

As mulheres precisam se unir e se proteger.

Com alguns pequenos contratempos jurídicos, resolvidos pela sua advogada, com o tempo, Marinalva veio a ter uma nova vida. Recomeço que a levou a novas alegrias e resultados. O filho no futuro veio a se casar. Ela com o trabalho, comprou um pequeno apartamento perto do filho, que se mudara para Itaquera, e lhe proporcionou dois netos. Trabalha, namora, passeia e curte a família.


mldal


 

1/19/26

O LOURO

 



PRÓLOGO

Dois casais de amigos, em um passeio juntos, compraram dois papagaios que estavam sendo ofertados, ficando cada um com um. Este conto envolve fatos que ocorreram com os dois papagaios e que relatarei em um só. O dono de um deles é são paulino e em homenagem a ele, por ser um amigo querido, mantenho no conto, o louro cantando o hino do São Paulo, como realmente o fazia, mesmo eu sendo corintiano. O outro proprietário, já fez parte de um conto antigo, em que relato, o ocorrido com ele e a namorada na época, em um passeio com os sogros à praia, chamado: “De Pinto pra Fora”. Espero que vocês se divirtam com o contado a seguir.

 

O OCORRIDO

Fátima se encantou com seu papagaio. Era alegre, verde, com manchas azuis e amarelas próximas ao bico e no peito; a todo momento emitia um currupaco. Não tinha nome, era chamado carinhosamente de louro. Ela colocou a gaiola na cozinha para, enquanto trabalhava, conversar com ele.

- Louro, o nome da mamãe é Fátima. Como é o nome da mamãe? Fátima.

De tanto insistir, quando ela perguntava o nome da mamãe, lá vinha sua voz esganiçada:

-  Mamãe Fátima.

Ela gostava de músicas religiosas e ouvia muito o Padre Marcelo. Havia uma estrofe de uma das músicas que repetia constantemente, mesmo com o rádio desligado:

- Nossa Senhora me dê a mão... da minha vida.....

Não é que o danado do papagaio aprendeu a música e a cantava constantemente. Ela ria e se encantava. Os vizinhos, quando o ouviam, riam e comentavam em voz alta para a vizinha escutar, o quanto o louro era demais.

O marido chegava em casa no final do dia e ela dizia ao louro:

- O bem chegou.

Depois de um tempo quando ele chegava e o papagaio escutava sua voz, já gritava:

- O bem chegou – e grasnava seu currupaco.

Um dia para sua surpresa, ela falou:

- Veja quem chegou!

- O bem chegou, Wilson viaaado.

Eles caíram na risada. Depois vieram a descobrir que tinha sido arte de seu genro, em um fim de semana que dormiu por lá, enquanto viajavam. Agora toda vez que o bem chegava:

- O bem chegou, Wilson viaado.

O louro tinha uma facilidade em captar as palavras e os ruídos. Constantemente chamava o cachorro, imitava o seu latido, cantava pedaços de outras músicas que ouvira, chamava os filhos da Fátima pelos nomes.

Wilson, animado, resolveu ensinar o hino do seu time de futebol:

- Salve o Tricolor Paulista, Amado clube brasileiro, Tu és forte, tu és grande, Dentre os grandes, és o primeiro....

O louro aprendeu o hino, o que encheu o Wilson de orgulho, pois, a cada vinda de amigos, fazia-o cantar.

Basta dizer que o papagaio era a alegria da casa, fora que durante o dia era o seu vozerio a todo momento. Ele permanecia em uma gaiola, saindo de vez em quando. À noite, a gaiola era coberta, de forma a gerar escuridão e ele dormir, senão continuaria o palavrório.

Numa manhã de segunda-feira, em que o dia estava ensolarado, Fátima resolveu limpar a gaiola do louro. Como sempre fazia, soltou-o no pequeno gramado que havia no local, enquanto limpava a gaiola. Repentinamente, lembrou que tinha deixado uma panela no fogo. Entrou rapidamente e apagou.

Ao voltar não encontrou o louro, começou a chamá-lo e nada. Pegou uma escada e por cima do muro do vizinho da direita, chamou a ave e não tendo resposta, chamou pela vizinha e explicou o que havia ocorrido. Porém nada. Fez o mesmo com o vizinho do outro lado e o de trás.

Desesperada falou com a filha ao telefone que ficou de vir prontamente com os filhos procurar o animal. Enquanto isso Fátima saiu batendo de casa em casa perguntando se alguém o havia visto. Chamou nos vizinhos da calçada e depois aos vizinhos da rua de trás. Nem sombra do bichinho.

A filha ao chegar, ela se pôs a chorar e chorosa ligou para o marido explicando o que havia ocorrido. Ele se prontificou de sair mais cedo do trabalho e a ajudar na procura. As filhas e os netos correram as ruas, o armazém, a padaria, a manicure, o açougue as praças relativamente próximas. Muitos conheciam o papagaio pela suas algaravias, mas, não o tinham visto.

Foram três dias de busca e nada. Fátima sentia como se tivesse perdido um filho. Alguém o deve ter pego. Ele não sumiria assim. O silêncio somado a tristeza baixou na casa. Às vezes, sem querer, ela chamava ou falava com o louro, caindo, depois na realidade de que não estava.

Na sexta-feira, a caminho da feira, na rua de trás, ao passar em frente à casa da Zilda ouviu um currupaco qualquer. Tendo certeza que era ele, abriu o portão da frente, sem chamar, e começou a esmurrar o portão do corredor lateral, que era baixinho e de madeira, mas que estava emperrado e não abria. O barulho chamou a atenção da Zilda que saiu no corredor. Com voz meio falha perguntou:

- O que está acontecendo?

Vitória conseguiu abrir o portãozinho, a passou por ela empurrando-a e foi corredor a dentro. Zilda atrás gritando:

- Você não pode ir entrando assim, sem mais nem menos!

No final da casa, no quintal, havia uma edícula. Ouviu o currupaco do louro. Gritou de fora:

- Quem é a mamãe?

- Mamãe Fátima – respondeu o pássaro com sua voz esganiçada.

Com muita raiva, quase literalmente, enfiou o papagaio debaixo do braço e saiu gritando:

- Sua sem vergonha, eu vim falar contigo, pedir a tua ajuda. Você é uma ladra. Zilda você é uma ladra. 

Saiu batendo tudo. Chegando em casa ligou para o marido e a filha contando o ocorrido. Mimou o louro, cantando com ele e estimulando que falasse uma série de frases que conhecia. Cantou várias músicas do Padre Marcelo e o hino do São Paulo. A alegria voltou à casa.

Numa das manhãs, conversando com ele:

- Quem é a mamãe?

- Mamãe Fátima.

- E a Zilda o que é?

- Zilda ladrooonaaa.

Fátima riu com a resposta.

 

EPÍLOGO

Muitos perguntarão quais os fatos ocorreram com cada um dos louros e que ajuntei em um conto só.

Um dos papagaios, realmente era excepcional nas suas interações, cantando músicas, imitando sons, chamando pessoas.

O outro, mostrou-se um animal normal nos seus currupacos, também alegrando os proprietários, mas não na forma e na intensidade do outro. Este animal, foi o que desapareceu.

Como os ocorridos me foram contados há muito tempo, tomei a liberdade de ajustá-los à minha memória.


memaai


12/10/25

REENCONTRO

 


Meu nome é Gislaine, tenho 66 anos. Moro em Caconde, estado de São Paulo, há 7 anos. Nasci e morei anteriormente em Jundiaí, também em São Paulo, quando meu marido, Wilson, vendeu a empresa que possuía e decidiu se aposentar. Aposentar não é a palavra correta, pois ele possuía com Deusdete, nosso cunhado, marido de sua irmã, Rosalinda, uma pequena fazenda em Caconde, para onde resolveu nos mudar e, em conjunto com ele, levar adiante uma pequena plantação de café que pertencia à família e estava mal das pernas. Era seu sonho.

Infelizmente, faleceu, repentinamente, há três anos, por um infarto. Desde que nos mudamos para a região, havia parado de fumar e de ser sedentário, passando a ter uma vida menos estressante que a anterior. Porém, os danos gerados em anos passados cobraram seu preço.

Tenho primos e alguns tios na cidade, por parte da família do meu marido; porém, minha relação maior é com meus cunhados e seus familiares. Rosalinda e eu nos damos como irmãs. Sinto-me parte integrante da família deles.

Tenho um casal de filhos, casados e com filhos em Jundiaí; portanto, há um constante ir e vir deles para Caconde, quando não, raramente, eu vou a Jundiaí. É uma hora e meia de viagem, mas ainda dirijo bem. Entretanto, desde a morte de meu marido, meus filhos me pressionam para voltar para a cidade e ficar perto deles.

Após muita insistência, veio a acontecer. Fiz um acordo com meu cunhado a respeito da fazenda, vendi a casa que possuía e orientada pelos meus filhos, comprei outra em Jundiaí.

A casa é deliciosa, com três quartos, o que me possibilita ter, em um deles, um pequeno ateliê para meus artesanatos. O outro quarto é para quando os netos passam comigo um tempo e, se necessário, dormem, além de receber familiares.  O terreno não é grande, mas tem um pequeno espaço nos fundos, onde há uma jabuticabeira e onde plantei flores e temperos.

A melhor parte é que se localiza no bairro em que passei minha juventude e perto de onde morei, quando casei, além de estar a uma quadra da minha filha e quatro da casa de meu filho.

Consegui, rapidamente, após o meu retorno, por meio de Luciana e de Josefa, amigas de infância, restabelecer o contato com vários antigos conhecidos, que gradualmente foram me apresentando outras pessoas.

Por elas fui apresentada a um grupo de mulheres, que se reúne todas as quartas-feiras na casa de Maria Augusta, também amiga de juventude, para uma sessão de artesanato.

As reuniões ocorrem em uma edícula que possui e se presta maravilhosamente para isso. Cada uma apresenta o trabalho que está realizando, trocamos experiências, tudo ocorrendo no meio de muitas conversas e risos. Para a hora do café, levamos um doce ou salgado e, com tudo isso passamos tardes deliciosas.

Em um fim de semana, Maria Augusta, nos convidou para um churrasco em um sítio que tem as aforas da cidade. Seu marido convidaria alguns amigos e ela convidou a nós do grupo. Recomendou que levássemos maiô, pois, tem uma piscina no local.

Meu Deus, usar um maiô! Não sei há quanto tempo não uso. Busquei entre os que tenho um bem comportado, pois tenho vergonha de minhas estrias. Fiquei preocupada com meus braços flácidos e a gordura que possuo na altura do abdômen. Por sorte fazia academia em Caconde, o que ameniza minha forma física.  Aliás, necessito retornar a essa atividade em Jundiaí. 

O maiô é negro, vestido por baixo de uma bermuda branca, e uma blusa tomara que caia com desenhos de flores verdes e amarelas. Para a piscina levei um pareô de estampas com cores primaveris esmaecidas. Estava adequadamente vestida para uma senhora de 62 anos e com meus 65 kg. Não sabia o que iria encontrar.

Havia cadeiras para se estender em torno da piscina, mesas com ombrelones e cadeiras em volta. O ambiente era agradável e descontraído. Fui encontrando pessoas que conhecia e tendo conversas agradáveis.

Resolvi, em determinado momento, solicitar uma batida, dirigi-me a um balcão, onde se faziam os pedidos, naturalmente cercado de várias pessoas em volta.

- Por favor, uma batida....

- De abacaxi com limão, hortelã, açúcar e com vodca.

Uma voz de homem atrás de mim completou meu pedido de bebida. Quando me voltei, os olhos castanhos e o sorriso em um rosto mais velho eram os de Luz. Fiquei momentaneamente sem palavras.

- É o que você sempre pedia.

Abri um enorme sorriso e, sem perceber, o abracei, dando um pequeno beijo em sua face.

- Quanto tempo, Luz?

- Quase cinquenta anos.

Naquele momento a roda do tempo rodou em minha cabeça. Começamos nosso namorico na escola, quando eu estava com catorze anos. Ele era dois anos mais velho que eu. Ficamos juntos até os meus 18 anos, quando seu pai se mudou de cidade, a trabalho, e o obrigou a ir junto para São Paulo, onde desejava que fizesse faculdade.  Voltou umas duas ou três vezes, mas, com o passar do tempo fomos nos distanciando, até que cada um seguiu seu caminho.

Buscamos uma mesa mais afastada e nos estendemos na conversa, relembrando momentos de nossa juventude, normalmente os mais divertidos e que nos fizeram rir. Falamos de nossas vidas. Vim a saber que está viúvo há cinco anos e que veio morar em Jundiaí, por ter uma filha casada que lhe propiciou uma neta de 5 anos, sua grande alegria e razão de viver.

Passamos um bom tempo conversando.  Às vezes aproximando-se alguma das amigas ou amigos surgia a tradicional pergunta:

- Lembra dele?

E cada um se recordava de fatos vividos juntos, como bailes, festas, saídas em grupo, namoricos às escondidas e das coisas que aprontávamos. Depois de um tempo, as amigas me chamaram para entrar na piscina. Eu enrolei um tempo, pois, tinha vergonha de tirar o pareô na frente dele e mostrar no corpo a marca do tempo.

Ele estava de bermuda, sem camisa. Era um pouco mais alto que os meus 1,62m. Apresenta uma boa forma, com uma pequena barriga e o peito caído, fruto, provavelmente, de ter engordado e emagrecido. É moreno e está queimado do sol, contrastando com o cabelo negro começando a esbranquiçar. Ao notar a insistência das amigas se despediu, para ir conversar com outras pessoas. Aproveitei para entrar rapidamente na água.

Foi uma noite difícil de ser dormida. O seu rosto mais velho, enrugado, mas com a mesma expressão de quando jovem, não me saía da cabeça. Pensei: qual terá sido a sua reação ao me ver mais velha e enrugada?

Pensamentos e imagens repassaram pela minha cabeça. Éramos amigos desde o jardim de infância e vivíamos constantemente juntos. Nossas brincadeiras de rua envolviam meninos e meninas e ele sempre estava junto. Gostávamos de ler e sempre trocávamos livros da biblioteca da escola e conversávamos a respeito. Criamos muitas aventuras imaginárias com base neles.

Eu me lembro, quando menstruei, fiquei uma semana que não queria vê-lo.  Ele veio em casa perguntar a minha mãe se eu estava doente, pois, não aparecia na rua e na escola vivia evitando-o. Passado essa semana, ao me encontrar, fez uma série de perguntas, demonstrando preocupação comigo. Naturalmente as respostas foram evasivas.

Aquela preocupação dele por mim despertou um sentimento que não entendi bem o que era, mas que me fazia querer ficar mais com ele, conversar, ver seus olhos, seu sorriso. Depois, descobri que era o que nós meninas, vivíamos conversando e sonhando: Amor. Por um tempo, foi um sentimento escondido e comentado entre as amigas íntimas.

Houve um baile na casa da Salete. Tiravam-se os móveis da sala, havia uma vitrola e os discos que cada um trazia, na época, a maioria era compactos. Um dos meninos levava uma luz negra, para o ambiente ficar mais íntimo. Vinha toda a patota, alguns com as namoradas ou namorados.

Numa sequência de Ray Conniff, eu e o Luz dançamos juntinhos. Ao término, ele foi buscar “Cuba Libre” para nós. Eu fiquei em um canto esperando. Tinha as mãos e as costas suadas, pois, ao dançar com ele, eu estava tensa, como notei que ele também estava. Quando trouxe a bebida, ao me entregar eu sem querer lhe dei um beijo nos lábios.

- Desculpa, eu só queria agradecer a bebida.

Ele aproveitou a deixa, tirou a bebida de minhas mãos colocou sobre um móvel no canto, voltou-se para mim, segurando meu rosto em suas mãos, e me beijou, suave e levemente umedecido pela bebida. Fui às nuvens; uma corrente elétrica correu por todo meu corpo. Abraçá-lo, sentir seu corpo envolvido por mim, seu olhar e respiração próximos.  Eu não via e nem ouvia nada em volta. Só havia ele, só havia nos dois.

Logo os amigos se aproximaram e começaram a nos gozar. A Salete me levou para o seu quarto e as meninas foram atrás. Parecia um conselho de guerra, cobrindo-me de perguntas, querendo detalhes do nosso namoro. Eu mal respondia, só ria de felicidade.

Estivemos juntos por quatro anos. O começo do namoro foi um pouco estranho, para os dois: de amigo a namorados. Tinha hora que olhávamos um para o outro e ríamos da situação. O bom é que no final terminava em beijo. Era um namoro juvenil, com uma pureza não comum aos dias de hoje. Os beijos se davam às escondidas, em bailinhos em passeios e a sós. Por um bom tempo, não dissemos aos nossos pais que estávamos namorando, pois sabíamos das reprimendas:

- Vocês são muito jovens, é tempo de estudar e se preparar – os comentários iriam por aí afora.

Naturalmente, depois de um tempo, pela minha mudança de comportamento e pelos comentários das amigas, minha mãe veio a desconfiar e cobrou-me a confirmação. Meus pais receberam isso como um namoro juvenil e se sentiam tranquilos, pois conheciam o Luz de garoto e sua família. Seus pais, também, aceitaram bem.

Nos amávamos, éramos feitos um para o outro. Fazíamos juras de amor.  Porém, a vida nos distanciou e aquele namoro, nascido do querer de dois jovens, veio pouco a pouco a morrer. Morreu na existência, mas, ficou para mim, sempre vivo na lembrança. Seu pai, por questão de serviço, teve que se mudar para São Paulo e exigiu que ele fosse junto e fizesse faculdade por lá. Reclamou, ameaçou não ir, mas, ao final teve que concordar.

 Após esse encontro e o festival de recordações, segui a minha rotina, que envolvia: o trabalho de casa, academia, artesanato, visita aos filhos e netos e algumas saídas com amigos. Estava ambientando-me à cidade e gostando.

Em um dos sábados, fomos em grupo tomar cerveja e comer petiscos em um bar e acabei encontrando-o. Nos cumprimentos com sorrisos e, posso dizer, que dos dois lados, com alegria nos olhos. Em um dos momentos, vagou a cadeira ao meu lado, e ele, como esperando a deixa, veio se sentar junto a mim. Bate-papo, risos, lembranças. Ao final, pediu meu telefone, com o pretexto de nos encontrarmos para colocar os assuntos em dia.

Nos dias seguintes, eu parecia uma menininha no aguardo do telefonema de um namoradinho.

- Meu Deus, eu uma velha, cultivando ideias que não têm cabimento.

Mas era gostoso esse sentimento de ansiedade de que ligasse. Parecia rejuvenescer-me. Cada tocar do telefone era um batimento a mais no coração. Quase duas semanas, e nada de seu contato. Briguei comigo mesma pelas ideias idiotas que passaram pela minha cabeça.

Na quinta à tarde, da segunda semana, eis que me liga:

- Oi, liguei para cobrar nosso bate-papo.

Marcamos às 18h para me pegar em casa.

Foi um drama me preparar. Dentro dos meus 65 kg tenho um corpo com uma boa distribuição o que facilita em relação as vestimentas. Coloquei uma roupa, troquei por outra e outra. Finalmente, fiquei pronta.  Por ser um dia de calor, coloquei uma bermuda azul-escuro e uma blusa de botões em um azul mais claro, contrastando com minha pele morena, tudo isso em cima de um tamanquinho amarelo. Tomei um cuidado maior em me maquiar. Os cabelos soltos, como no passado, eram de seu gosto, batendo nos ombros. Ao olhar-me no espelho, só conseguia ver a minha idade.

- Não tenho como esconder o que sou. Seja o que Deus quiser.

Ele estava lindo, também de bermuda branca com uma camisa levemente desabotoada com motivos marinhos em cores claras. Está um pouco mais gordo, imagino que em torno de 70 kg, com os pneuzinhos. Entretanto, de tudo o que mais me atraía: o olhar e o sorriso.

Fomos a um barzinho de sua escolha, onde um cantor animava o ambiente, em uma varanda toda coberta de vegetação. Nossa conversa foi animada: olhos nos olhos, risos, toques de mãos, nos braços, brindes, lembranças e o prazer de observar a movimentação dos seus lábios, donos de um lindo sorriso, com alguns cacoetes de quando namorávamos. A cortesia e o cuidado comigo a todo momento era um encanto.

Encontros como esse e outros mais ocorreram. Neles, as mãos descansavam sobre os braços quando de alguma explicação, quando não se tocando, pretextos para levantar uma mecha dos cabelos, limpar algo que ficou nos lábios, ajeitar a camisa ou a blusa. Nas despedidas, os abraços eram mais demorados, com algumas palavras de adeus sussurradas no ouvido.

Dentro de mim, havia alegria com esse reencontro, mas, de outro lado, um grande receio. Sabia onde aquilo tudo iria parar. Em algum momento não resistiríamos, e nos beijaríamos com toques pelo corpo, pois era o grande desejo que estava nas pontas dos dedos e preso dentro de nós. 

Depois, o grande passo que eu temia: saciar o desejo sexual que aflorava a cada encontro. Como tirar a roupa na frente de um homem depois de anos? Wilson fora o único que me vira nua, em toda a minha vida. Tinha medo de sua reação em relação ao meu corpo. Tinha as marcas de ter tido dois filhos: flacidez que se apresentava na altura do abdômen, pequenas estrias na barriga e alguma celulite no bumbum.  Meus seios, apesar de considerá-los bonitos, perderam um pouco da sua rigidez.  Tinha medo, via-me como uma bruxa e não como a Cinderela em um final de baile.

 Como seria meu comportamento durante a relação? Eu ansiava aninhar-me em seus braços e sentir sua pele, seus lábios. Como tocá-lo e como me deixar tocar? Faríamos à meia-luz ou no escuro? Era um turbilhão de senões, confrontando os desejos que afloravam.

Fora isso tudo, havia o sentimento em relação ao Wilson, a quem amei intensamente em um casamento feliz com o fruto de filhos maravilhosos. Sentia-me como se os estivesse traindo. Tive que me conscientizar que estava vivendo uma novo amor na vida, na qual em nada traía o que sentia e sinto por ele.

Uma das noites em que me deixava na porta de casa, depois de estarmos com amigos, pediu-me:

- Não desce, quero falar contigo.

Uma lança transpassou todo meu corpo, inclusive pela suavidade com que fez o pedido.

- Não aguento mais, tenho que te dizer: eu te amo. Percebo que você sente o mesmo por mim.

Foram palavras ditas, enquanto segurava minhas mãos e olhava em meus olhos. Puxou-me para si e beijou-me. Eu retribuí com todo o amor que tinha dentro do coração. Foi um tempo nos entregando ao querer e rememorando o que era amar.

Novamente, foi uma noite difícil de dormir.

Quando nos apresentamos de mãos dadas aos amigos, os comentários surgiram sem grandes surpresas:

- Demorou, estava na cara o que iria acontecer.

- Que bom, eu torcia por vocês.

- Vocês foram feitos um para o outro.

Era um prazer estarmos juntos: passear a sós ou com os amigos, ter conversas íntimas, ir às festas, dançar, rir e sentir felicidade com o amor à flor da pele. Ansiava por esses instantes.

Chegou o momento que era inevitável e desejado, mas que temia que chegasse.

- Que tal na sexta-feira você vir para a minha casa ou eu ir para a sua e dormirmos juntos?

Apesar de esperar por essa situação, no primeiro momento, engasguei. No desejo de me sentir mais segura, respondi:

- Em minha casa. Farei umas comidinhas para nós.

A apreensão tomou conta de mim. Comecei cuidando de coisas triviais: pedi a faxineira quinzenal que antecipasse a vinda, lavei os lençóis, fronhas e toalhas a serem usados e os perfumei. Separei a roupa que considerava adequada para a data, assim como, a calcinha a vestir. Sabemos que ela vai parar em um canto, mas a sua imagem e simbolismo são importantes. A camisola sexy para o depois e a roupa para o dia seguinte. 

Preparei-me como uma noiva, pelo menos a ansiedade estava igual: fui a cabeleireira, fiz as unhas e passei por uma sessão de depilagem.  Olhei se tinha no meu kit de maquiagem o que gostaria de usar no dia, algo leve, para amenizar minhas rugas e os pequenos pés de galinha.

No dia, fui ao mercado e comprei alguns produtos para serem consumidos à noite, assim como, quatro garrafas de vinho branco que apreciamos.

Preparei o ambiente, com flores, sob a luz de dois abajures. Separei uma coletânea de músicas românticas. Arrumei os patês que preparei, os canapés, pedaços de queijos, torradas e pães. O horário marcado era às 20h.

Tensa, fui tomar banho. Fiquei um tempo debaixo da água quente relaxando. Nesse momento, foi me invadindo uma paz. Pensei:  sou fisicamente o que a vida e os anos imprimiram, tanto no corpo como nos pensamentos. É o que terá de aceitar e gostar, como o Wilson me aceitava e amava. Com certeza, ele também terá marcas da vida e da idade. Teremos que nos aceitar com as imperfeições físicas que temos e como somos. O que está nos unindo é o amor, que surgiu após o nosso reencontro. 

A calma relaxante, que me invadiu debaixo do chuveiro, me fez decidir: deixe de ser uma velha tonta e seja mulher em toda a sua plenitude de amor, sensualidade e desejo.

No horário marcado, tocou a campainha. Trazia um ramalhete de flores e uma garrafa de prosecco.  Chegou com o olhar e o sorriso pelo qual sempre fui encantada. Estava de bermuda, marrom-clara, camisa polo branca e de sapatênis da cor da bermuda. 

Nos abraçamos, nos beijamos e continuamos nos abraçando e nos beijando.

- Senta, preparei uma comidinha e bebida para nós.

- Depois, o que quero saborear agora é outra coisa.

Deixando os receios de lado, peguei-o pela mão e o levei para o meu quarto. A luz era de abajur.

Fomos pouco a pouco nos despindo. Não víamos as marcas da vida em nossos corpos. Ele era simplesmente o corpo que eu queria percorrer com minhas mãos. Deitou e docemente me aninhou ao seu lado. Seu olhar era penetrante. Sorria. Correu seus lábios pela minha face, desceu pelo pescoço e com delicadeza saboreou meus seios. Eu corria a mão pelo seu peito, sentindo sua pele e seus pelos. Retribuí seus beijos, beijando sua boca, seus olhos e o pescoço. 

Ao me encostar nele, senti a plenitude do seu desejo, que toquei suavemente. Ele, pouco a pouco, foi unindo seu corpo ao meu. Foram momentos de delicadeza e outros de sofreguidão. Prazeres há muito tempo esquecidos retornaram e nos uniram, até o momento do gozo e do descanso.  

Era um momento de satisfação, tendo-o ao alcance de minhas mãos, sentindo sua respiração e o suor do corpo. Pouco a pouco, a respiração foi voltando ao normal. Perfume de flores misturado a sexo envolvia o quarto. Uma brisa entrava pela janela e via-se o prateado da lua nas folhas das árvores. Havia uma grande paz dentro de mim.

Levantamos de madrugada e foi uma noite de comidinhas, bebidinhas, sexo, prazer e amor. Não o sexo impetuoso de quando éramos mais jovens, mas o lento e saboroso que a experiência ensina.

De manhã, novos prazeres e um delicioso banho a dois, com suas consequências. Depois, curtimos o dia juntos, passeando, rindo para tudo e para nada e relembrando, com algum rubor de minha parte, momentos da noite anterior. Ao final do dia retornamos, para uma nova noite de amor.

Depois do sexo, sussurramos as imperfeições dos nossos corpos, que a vida nos deu, correndo os dedos, as mãos, quando não os lábios, e rindo dos nossos falsos temores.

A partir daquele momento, decidimos que deveríamos contar aos nossos filhos sobre a nossa vida como casal e iniciar a programar, para um futuro, a decisão de vivermos juntos.

Dois dias depois, Luz contou que, ao expor nossa situação para sua filha e seu genro, fora uma conversa tranquila. Ela há muito tempo lhe dizia que devia buscar uma nova mulher. Viver sozinho não era algo fácil, além do mais a vida a dois, havendo companheirismo, é muito mais saborosa, dizia com sabedoria.

Resolvi contar aos meus filhos, genro e nora. Convidei-os para um jantar em casa no meio da semana. Solicitei que viessem sem as crianças. Quando fiz o convite, a primeira reação foi de preocupação: se eu estava com algum problema, principalmente de saúde. 

- Não, eu quero contar a vocês algo de maravilhoso que está ocorrendo.

Precisei pedir que esperassem o final do jantar, quando iríamos para a sala tomar um café e algum licor. Minha filha e nora ajudaram a retirar os pratos e talheres, questionando-me a cada momento que estávamos a sós na cozinha, sobre o que falaríamos.

- Meus filhos, já se passaram mais de três anos da morte do Homero, com quem fui muito feliz e a quem amei com todo o meu coração. Ocorre que, aqui em Jundiaí, encontrei uma pessoa, que já conhecia do passado e que, desde a minha vida com o pai de vocês, nunca mais o vi. Com ele, tenho me relacionado há uns quatro meses e começamos a namorar. 

Tive que responder a inúmeras perguntas que fizeram sobre o Luz: como o conheci, como foi nosso namoro na adolescência, quando o reencontrei, idade, família, como estava nossa relação e inúmeras outras.

Minha filha, endossada pela minha nora, de imediato aceitou, colocando, somente a necessidade de virem a conhecê-lo, o que concordou meu genro. Meu, filho, entretanto, permaneceu o tempo todo calado.

- Esteves, meu filho, você não disse nada a respeito.

- Mãe, acho um absurdo você, uma mulher com a tua idade andar de namorico. O que irão falar? Cadê o respeito à imagem do papai? Você está com idade de curtir os netos e a família e não andar com outro homem.

Suas palavras foram um impacto. Todos, inclusive sua esposa, Lavínia, manifestaram ser um absurdo a posição dele. Era machista e antiquada. Foram comentários em vários tons, porém, recheados de indignação. Ele se mantendo calado e nada respondendo. Quando comentei:

-  Esteves, não vou ficar discutindo contigo. Tenho idade suficiente para saber o que é certo e errado. Espero que avalie melhor tua posição.  Você está mais preocupado com o que irão dizer do que com a felicidade da tua mãe. Posso dizer que essas convenções, hoje em dia, estão ultrapassadas. Para mim essa tua posição, com os motivos colocados, é triste. Dou como encerrado o assunto. Pense e quem sabe, o melhor, trate de conhecê-lo.

Quando saíram, fui tomada de choro e tristeza pela forma como meu filho me via e pela forma como colocou, fazendo-me parecer vulgar. Não foi assim que o educamos e nem a forma que eu e o Wilson pensávamos e vivíamos.

Ao contar ao Luz, com lágrimas nos olhos, da reunião e o desencanto que tive com meu filho, só ouvi da sua parte palavras de encorajamento.

- Ele, um dia acordará para a realidade a sua volta e, principalmente, verá quanto o amor nos mantém juntos. Acabará nos aceitando. Tenha fé, isso ocorrerá.

Uma semana depois minha filha nos convidou para almoçarmos em sua casa. Luz, pediu que perguntasse se poderia levar sua neta, a Gracinha, o que foi aceito com satisfação por minha filha.

Juliana e seu marido, Orlando, nos receberam com muita alegria, manifestando a satisfação de almoçarmos juntos. Gracinha logo se enturmou com minha neta, Maria Eduarda. Ambas tinham idades próximas e simplesmente passaram o dia de brincadeiras, com várias participações de todos. 

Luz, mostrando-se extremamente apegado à neta e eu, por adorar a minha, meu genro e minha filha, por sempre valorizarem a minha presença como avó, inúmeras vezes nos divertimos com elas. Foi um domingo maravilhoso, com o compromisso de marcarmos um encontro, com a participação da família da filha de Luz. Perdi a conta de quantos beijos de alegria trocamos no fim do dia.

Com meu filho, a toada foi outra. Com a compreensão de Luz, fui à sua casa passar o domingo sozinha. Apesar da sua posição, não posso me distanciar dele e de sua família. Eles têm uma filha casada, que me deu um bisneto, e que mora em Curitiba, nos falando com muita frequência, sendo eu, muitas vezes, a sua confidente, porém, nos vendo pessoalmente só de vez em quando.

Quando soube, por sua mãe, o que ocorrera, discutiu com o pai por telefone, dizendo que já era hora de evoluir e acabar com seus preconceitos antiquados. Preferia antes uma mãe infeliz. Que cuidasse de mim, e se a pessoa que estava comigo não fosse boa, que me protegesse; para tanto, deveria estar próximo e não distante do meu relacionamento. Depois, ligou para mim, acalentando-me com suas palavras.

Eu e o Luz decidimos, independente de meu filho, resolvermos curtir as nossas famílias, no que fosse possível, e planejarmos nosso caminho juntos. Nossa intenção, após alguns meses, era morarmos juntos. Preferi que fosse em minha casa, por insistência de minha filha, pela proximidade e pelo fato de eu estar em minha propriedade. Achei a ideia acertada, além de que gosto muito dela e de sua localização, praticamente ao lado de minha filha e não distante da filha de Luz.

Era uma alegria quando tínhamos a responsabilidade de levar ou buscar uma neta em alguma atividade, passear com elas, tê-las em casa e, principalmente, quando dormiam conosco. É óbvio que fazíamos muitas das suas vontades, pois, como diz o ditado: os pais educam e os avós deseducam. Queríamos marcar suas vidas com o nosso carinho e a lembrança dos avós. Era uma festa, uma grande felicidade, mesmo com a sombra sobre nós da posição do meu filho.

Depois de algum tempo do nosso relacionamento, comecei a me sentir cansada, com dor de cabeça e uma febre alta. Minha filha e Luz vieram rapidamente me socorrer. A situação evoluiu para vômito e náuseas. Os dois me levaram com urgência ao pronto-socorro. Fui diagnosticada com dengue. Recebi medicamentos e soro e fui encaminhada para casa.

A recomendação era muito repouso e hidratação e alguns remédios para a febre caso voltasse a ocorrer. Ao retornarmos do pronto-socorro, minha filha queria que eu fosse para sua casa. Luz não concordou:

- Ela vai para a sua própria casa, e eu dou um jeito de dormir por lá e cuidarei dela o tempo todo, até que melhore. Fique tranquila. Você me ajuda com a comida e caso não possa, por alguma razão, me avisa que eu faço.

Assim, foi me tratando com carinho e dedicação. Ele se preocupava em me ofertar água de coco, sucos naturais que fazia, quando possível, com laranja junto, por causa da vitamina C. Eu necessitava de muita hidratação e repouso.  Minha filha me levava comidas leves e me ajudava nos banhos. Na primeira semana, tive ainda surtos de febre, indisposição e enorme cansaço, o que persistiu por algum tempo após minha recuperação.

Luz, não saiu do meu lado 24 horas. Dormiu no quarto de visitas, mantendo as portas abertas, pois, a qualquer ruído, levantava. Trouxe de sua casa uma televisão e instalou no meu quarto. Conversava constantemente comigo: trocamos intimidades e fatos ocorridos. Nos conhecemos ainda mais.

Obrigava-me a trocar de roupa quando estivesse molhada de suor ou periodicamente, o mesmo com as roupas da cama. As colocava na lavadora e depois soube que até as passava. Mal passadas, mas passava.

No terceiro dia, minha filha contou ao irmão o que estava acontecendo. Ficou furioso por não ter sido avisado logo de início. Veio rapidamente me ver com a esposa. Prontificaram-se a atender tudo o que fosse necessário, inclusive ficar comigo. Sua irmã explicou o grande cuidado que Luz estava tendo comigo, não se separando um minuto sequer, e que ela estava providenciando as refeições. Lavínia se propôs também cozinhar e me trazer comida.  

Soube depois, que meu filho ao ir embora, agradeceu ao Luz pelo que estava fazendo. Ele e a esposa, nos dias seguintes, vieram diariamente me ver. Minha nora com comidas leves que sabia ser do meu gosto. Graças ao bom Deus, esse percalço serviu para que meu filho percebesse a atenção de Luz comigo e se aproximasse, conversando sobre meu estado e passou a conhecê-lo melhor.

Passado um tempo de recuperação, sentindo-me bem melhor, resolvi voltar aos almoços com os filhos. Esteves fez questão de que o primeiro fosse em sua casa e pediu ao Luz que trouxesse sua filha e família. Convidou também sua irmã.

Creio, que não preciso dizer que foi, e continua sendo, uma grande felicidade. Três meses depois de tudo isso, eu e Luz fomos viver juntos. É claro que alguns dos almoços e festas principais passaram a ser em nossa casa. Filhos, nora, genros, netos, quando não amigos e parentes transformaram nossa casa na “casa da vovó Gi”, a preferida principalmente pelas netas.

As outras avós que me perdoem.

 

Emami