21/10/2026

ACIDENTE

 



Algo aconteceu. Todos viveram o momento, mas em cada, uma versão diferente.

Para o motorista do ônibus, a visão afetada pelas luzes. Alguém gritou. Para os passageiros, o tranco da freada. Para o cobrador, o troco que escapou da mão. Para o boy, foi a mochila que se prendeu na porta na hora da arrancada.

“Alguém morreu!” - foi a exclamação da senhora. A outra, assustada com o grito, teve a criança do colo chorando. Para todos, a balburdia, o falatório.

Na rua, pessoas correram para a frente do ônibus. Mãos erguidas, bocas gritando, pessoas gesticulando. Nas calçadas, a curiosidade parou a todos.

Para o policial que se apresentou, poderia ter sido um crime, um assalto ou um atropelamento. Para cada um dos passageiros havia sido um desses casos.

Para o delegado que chegou, tudo foi esclarecido: o motorista recebeu um facho de sol nos olhos e o ônibus bateu na carrocinha de frutas. O vendedor gritou, as pessoas correram para pegar as frutas que se espalharam, os passageiros, com a freada, entraram em histeria e o cobrador reclamou do troco que que havia perdido.

Só o ladrão aproveitou a situação e bateu três carteiras.


Mesmo tendo participado do ocorrido, as versões podem ser bem diferentes.  É o ponto de vista de cada um que forma julgamentos em relação às pessoas e aos fatos, ainda que pouco tenham visto ou sabido.

Piores são aqueles que se valem das circunstâncias e tira proveito dos tolos e incautos.


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09/09/2026

POR QUE ESCREVO?



Pensei como título “Resposta de um Escritor”, para perguntas que as pessoas me fazem. Porém chamar-me de escritor é muita presunção, sou um mero escrevinhador.

Escrevo para manter a minha sanidade. Pela escrita escarafuncho minhas lembranças, vivências e sentimentos. Além do que pude absorver de pessoas, da natureza, de conversas, leituras, músicas, filmes e no simples observar e pensar. Ideias e pensamentos se concatenam fazendo-me sentir vivo, gerando inspiração e criatividade.

Surge, repentinamente, a semente daquilo que vou escrever. Ao contrário de muitos, desenvolvo, inicialmente em minha cabeça, o início de um conto, quando não, toda a sua estrutura.

Sento-me ao computador e começo a passá-lo para o papel.  Muitas vezes, o que foi pensado não se ajusta muito bem, quando escrito. Nesse caso, fica guardado como ideia para o futuro ou simplesmente jogado fora.

Quando estou escrevendo podem ocorrer três fatos:

O primeiro, é quando no meio da história, o personagem, toma as rédeas da sua vida e passa a indicar caminhos distintos que eu havia imaginado inicialmente. Ele decide o que fazer. Há momentos, inclusive, em que preciso esperar que escolha o próximo passo para dar continuidade.

Quando conto isso às pessoas, elas estranham e chegam a rir. Entretanto, conversando com alguns amigos, escrevinhadores como eu, dizem ocorrer o mesmo com eles. Fica aí o testemunho.

O segundo fato, é quando certas histórias saem com uma fluidez e velocidade impressionantes, como se eu estivesse tomado por uma força maior. Os espíritas dizem ser isso possível, pois estaria sendo conduzido por espíritos que estão próximos.

Penso que o fato de haver pensamentos, vivências e sentimentos que estão vivos dentro de mim faz com que venham à tona com a velocidade de um gêiser. Cada um que tire sua conclusão.

O terceiro fato ocorre quando no meio de uma escrita que vinha numa sequência começa a se perder. Como um carro a 100 km/h, repentinamente, perde a velocidade e para. Ocorre uma secura de criatividade. A história empaca. Palavras não se ajustam formando algo que valha a pena. Às vezes saem como pedras arrancadas de uma pedreira; outras vezes a escrita é colocada de lado, para quem sabe, um futuro aproveitamento, ou simplesmente se perde.

Pior, quando a inspiração para o início de um texto, parece ter ido à esquina tomar um café e esqueceu de voltar. Nada ocorre, a falta total do que dizer ou como dizer. Pode-se passar um bom tempo nessa situação. Costumo dizer que nesse caso estou “órfão de personagem”.

Habitualmente me dizem: por que não escreve do que viveu e do teu universo? Ocorre, que falar de lugares e fatos não vividos ou às vezes nem existentes, obrigando a pesquisa e a criação vinda de uma simples ideia, isso é vida plena e livre!

E os leitores? Para nós, escrevinhadores, desejosos de nossos escritos virem à luz, eles são a recompensa através de qualquer manifestação, por pequena que seja, boa ou não. 

Muitas vezes sinto que não houve nenhuma acolhida aos meus textos, outra vezes estimo que alguns leram e poucas vezes tenho a certeza que leram. Há momentos em que nem mesmo entre os mais próximos houve interesse manifestado. Nesse instante, gostaria que minha mãe estivesse viva, pois para as mães tudo do filho é magnífico.

Fala-se que todo escritor tem um estilo. Espero ter um. Navego normalmente pelos contos, onde escrevo sobre assuntos diversos, navegando no masculino, no feminino, no controverso, no novo e no velho. Pouco do futuro e muito do passado.

Com meus textos caminhei pelos pampas, equilibrei-me nas palafitas, andei por cidades reais e imaginárias, participei de segredos, vi amores e ciúmes, presenciei traições, suspeitas, acompanhei o ser humano ser desconsiderado, perseguido e preso. Vi o vigor do jovem e o amadurecimento, quando não, a solidão do velho. A mentira e a verdade muitas vezes envolvidas de hipocrisia.

Acompanhei a mudança dos costumes e a da moral, o chamado desenvolvimento, as mulheres nas suas batalhas com derrotas e vitórias. Minha própria metamorfose. Senti a natureza com suas manifestações fruto do Criador e o desrespeito do homem em sua usura. A fé com suas crenças e descrenças.

Enfim, a magistral, cômica, trágica e grande obra da humanidade: viver.

Do meu micro universo posso estar onde quiser e sentir o que quiser. Colocar meus pensamentos, minhas crenças, minhas esperanças e frustrações, nem que seja nas entrelinhas.  

É por tudo isso que escrevo. 


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19/08/2026

VERGONHA

 


Lucimara, com 15 anos, morava em uma pequena corrutela à beira da BR-101 no estado das Alagoas. Eram três dezenas de casas, todas de taipa, no meio do nada, tendo como ponto principal o posto de gasolina, onde havia restaurante, hospedagem e estacionamento para pernoite de veículos.

No início da noite se enchia de caminhões, muitos motoristas montavam suas redes, acendiam seus fogões, preparavam o chimarrão e abriam seus corotes de cachaça.

Lucimara, uma morena de olhos escuros e vivos, com um sorriso constante de descoberta, baixa estatura, já tendo tomado corpo de mulher vistosa. Tinha mais quatro irmãos, sendo cada um de pais diferentes, desconhecidos e enfurnados na vida.

A mãe trabalhava de raladeira na fábrica de farinha de mandioca. Vivia cansada, acabada, carregando mais idade do que tinha. Genésio, o mais velho, vaqueiro na lida em cidade próxima, aparecia nos finais de semana, para trazer algum e encontrar as suas “quengas”, como dizia.

Eribelto, com 17 anos, e Jeferson com 13 anos, trabalhavam em carvoaria próxima por uns caraminguás.  Ela e Pituca, o menor, ficavam o dia largados, com uma caçarola de feijão e farinha de mandioca no fogão de lenha, esperando a mãe à noite.

A necessidade e a fome campeavam na família e nas brigas da mãe com os meninos, principalmente o mais velho, que lhe deixava muito pouco dinheiro. Dizia precisar juntar para poder casar.

- Coloca essa menina pra trabaiá – dizia.

- Ela cuida da casa – respondia a mãe.

Veio seca forte, pouco trabalho, Eribelto foi demitido. Ciscava serviços pela cidade e sertão: carga e descarga de caminhão, capinar roça, e com sorte no manejo de bodes e cabras, quando algum vaqueiro ficava doente.

A situação era difícil, muitas noites um mingau de farinha de mandioca, feito com água, pois leite não tinha. Às vezes umas gorduras, ossos e pelancas de bode numa sopa rala. Estavam ficando pele e osso. A mãe desesperada, depois de um tempo de carência, disse à filha em um início de noite:

- Lucimara, se lava e ponha aquele vestido mais novo que tu tem.

A puxou pela mão e foram até o posto de gasolina.

Os caminhoneiros, fazendo seus rangos, mateando, talagando suas bebidas e no conversê.

- Pessoal me escuta aqui. Esta é minha filha Lucimara. Ela é virgem. Quem pagá mais vai podê deitá com ela.

Rebuliço, alvoroço, conversas e os lances principiam. Ao final, por R$.700,00, saiu o ganhador.

Na boleia de um caminhão, Lucimara perdeu a inocência e principiou a se fazer mulher, não pelas regras, que vieram há um tempo atrás, mas por um corpo, pesado, peludo, sujo e malcheirosos, com dose extra de bafo de cachaça.

Ao amanhecer, ao retornar à casa, não se reconhecia. Estava em um novo corpo: o vestido cobria a nudez, mas não as marcas que a noite havia deixado na carne e no coração. Lágrimas escorriam-lhe pelo rosto.

Havia mais duas meninas no pedaço, que também começaram cedo, mas já estavam carcomidas e velhas. Como ela era carne fresca tinha cinco, seis homens por noite. Pela falta de experiência a usaram e abusaram no sexo. Tudo fez, tudo experimentou.

Sonhos, só os parcos que surgiam ao acordar, no meio do dia, depois de uma noite de usos por quem pagasse, e que se perdiam ao levantar e abrir a janela para a realidade do novo dia.

Vieram os frutos: dinheiro, e vieram as dores: gonorreia, cancro e chato. Todos tratados com os remédios da mãe, inclusive uma beberagem que tomou quando o chico atrasou. Não sabe se foi a natureza ou o remédio. Não pegou criança.

A vida melhorou. A mãe e a meninada passaram a ter comida em casa. Carne de vez em quando. Algumas roupas para todos. Um rádio. Alpargatas e chinelos novos.

Lucimara era o assunto nas paradas de caminhoneiros e nas conversas que corriam pelos rádios, seguido dos comentários, os mais escabrosos possíveis, pois passou a ser conhecida pelas suas facilidades e habilidades no sexo.

De seis a sete homens por noite, passou a dez ou doze.

Seu corpo não aguentava mais, sentia-se um trapo. Principiou a sonhar o sonho que muitas putas sonham: um homem que a tire da vida.

Depois do sexo, com alguns estendia-se nos carinhos, em busca de um amor verdadeiro, sem resultados: frustrações, choros, desilusões e um cansaço da vida.

Até que encontrou Teobaldo. Tinha 28 anos, morava em Cianorte, no Paraná, com a mãe de idade.  Fora o único que lhe tratara como gente. Escutou suas histórias, tratou-a com carinho e, aconchegando-se em seus braços,  confidenciou-lhe o desejo de uma vida a dois e de uma família. 

Nas várias idas e vindas, quando se encontravam, esquecia-se dos outros clientes e sonhavam sonhos juntos.

Em uma madrugada, às 3h30, Lucimara, com sua pequena trouxa, beijou seu homem, aboletou-se na boleia e envolvida pelo vento que o caminhão cortava, começou a dormir e a sonhar. Ao fundo, uma música embalava o ambiente.

 

PROSTITUIÇÃO INFANTIL, UMA VERGONHA, UM CRIME!


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11/08/2026

FICA

 


Chuva, luzes refletidas no negro do asfalto, vultos que passam, sons de conversas e músicas que mal entendo.

Eu, em busca de algo que não sei. Algo que não está nos tragos, nos risos tolos, nem nos amores comprados. Algo que se perdeu quando você se foi e me rompeu em dois: um sonho, outro realidade.

A realidade é a que encontro nos bares e nos corpos de mulheres que mal sei os nomes.

O sonho se deita comigo. É o que não me deixa dormir ou me acorda de madrugada e sussurra em meu ouvido:

- Idiota! Você a deixou partir por não dizer: Eu te amo. Fica!


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