12/07/2026

O MILAGRE

 

 O Milagre - publicado inicialmente em 29.03.2011


Esta história não é de conhecimento de ninguém, portanto, como estou no final dos meus dias, resolvi deixar o seu registro:
O mês é maio de 1960, chego de ônibus, após duas horas e meia de sacolejo em estrada de terra de São João Del Rey a Sant’Anna do Vale em Minas Gerais.
 Estou aqui, pois é a cidade em que nasci e onde mora minha Tia Doquinha, que me criou como seu filho, junto com Tio Nôno, quando da morte de minha mãe, por desgosto, três anos após a morte de meu pai.
Tio Nonô tinha uma marcenaria, enquanto Tia Doquinha era professora.  Foram maravilhosos como país. Tenho uma grande adoração por eles.
Nesta cidade irei cometer o crime que idealizei.
Quando desço do ônibus, minhas pernas tremem e passa por mim uma sensação de medo pelo que irei fazer e penso:
- Terei coragem de pôr em andamento meu plano? Como reagirá a cidade?
Sant’Anna do Vale é uma cidade de pouco mais de três mil habitantes, tendo surgido como vila no século XVIII e  crescido durante a expansão  da mineração no estado, em virtude da Mina Salto, produtora de estanho, que teve o seu fim em 1948, quando do grande desmoronamento, em que houve inúmeras mortes, inclusive a de meu pai.
É uma aprazível cidade nas encostas do Campo das Vertentes,  perto da Serra do Lenheiro, cercada de montanhas e que teve o seu início às margens do Rio das Mortes, mas o seu crescimento encosta acima em virtude das esporádicas enchentes do rio.
Desço na parada situada próxima do rio, debaixo de uma árvore frondosa, pois não há estação e tenho que subir a Ladeira de Sant’Anna que vai do rio até a praça da matriz e onde se situa o principal comércio da cidade. A rua, onde mora titia, é uma travessa da Ladeira, na parte alta.
São 11,30h. O sol é escaldante. Pelo horário do almoço, não há quase ninguém nas ruas.
Passo em frente da marcenaria do Tonho, que pertenceu ao titio, do Bar do Alfredo, local de bebedeiras, carteado e bilhar e da mercearia do Sr. Augusto. Também na ladeira estão o Liceu Eduardiano, onde quem tinha um pouco mais de condição estudava, caso contrário tinha que ir ao colégio público, a barbearia, que estava fechada, assim como a botica.
Ouço o barulho da minha respiração e dos meus sapatos no calçamento secular, feito na sua parte mais antiga, próxima ao rio, de pedra moleque e o restante de pedra bruta irregular.  Ao longe o mugir das vacas nas montanhas, ladrido de cães e mais nada.  Há um silêncio especial, embalado pelo vago som do vento. Novamente meus pensamentos são assolados pelo temor:
- Como reagirá a cidade e a minha família com o que irá acontecer?
Chego à casa de Tia Doquinha.  Bato à porta.  Ela abre, está me esperando, graças à carta enviada informando da minha visita.
Está vestida, como sempre. Uma saia simples escura, uma camisa branca bordada, um avental e o cabelo preso em coque.
Corre e me abraça. Aninha sua cabeça em meu ombro.  Sei que o faz para não mostrar as lágrimas que devem estar começando a correr dos seus olhos. Também tenho vontade de chorar.
- “Nossinhora”, como “ocê ta” magro. Mesmo assim, continua bonito. Vem entra, leva tuas coisas pro quarto, lava as mãos e vem almoçar.
O quarto, a sala, a cozinha, tudo continua igual. Móveis antigos, porém, bem conservados. Todos os ambientes limpos, arejados e com flores pelos móveis. Fotos nas paredes, o velho quadro de flores pintado por ela. Sobre a cristaleira, que é o seu xodó, inúmeras fotos da família.
- Tia trouxe um presente para a senhora e para a tia Francisca. Vidros de perfumes.
- Não carecia meu filho.
Ao sentar-me à mesa me diz:
- Fiz a comida de tua preferência, arroz, tutu, ora-pro-nobis e carne moída.  “Óiquichero”.  Tem também salada de alface, tomate e cebola e um suco de limão pego no pé.
Enquanto como, conta-me as novidades da cidade e são muitas. Casamentos, batizados, doenças, mortes, festas, o diz que diz de todos os dias.  Todas ditas com a sua costumeira jovialidade e alegria.  Em tudo, para tia Doquinha,há sempre um ponto positivo a ser observado.
Ela costuma ser a conselheira da cidade. Todos com problemas de amor, de dor, de vida a procuram. Para eles, uma palavra, um estímulo. Tia Doquinha é tida como uma pessoa sábia. Seu conhecimento de professora não é vasto, mas, seu conhecimento de vida é amplo.
Do mais pobre e inculto ao mais rico e sábio todos a visitam, para tomarem um chá, comer dos seus biscoitos e sorver as suas palavras.
- Tia, este “trem tava bom demais da conta”.
- Pra sobremesa a tua preferida: Goiabada cascão com queijo branco.
Nesse momento, entra tia Francisca, irmã de titia. Depois de minha mãe, era a mais nova.  Solteirona, que junto com Tia Doquinha, cuidavam de mim. Mora há duas casas de sua irmã.
- Junqueira, meu “fio”. Nossa, como “ocê tá magrim”. Tá com olheiras. Vem cá, me dá um beijo e um abraço. Nossa que alegria. Não pude vir antes, pois tava cuidando de um trem lá na Igreja.  Veja o que “truxe”.
Coloca na mesa um bolo de fubá coberto de chocolate, que é o meu preferido, ainda quente.
Tudo isso dito sem parar e ao contrário de Tia Doquinha em alto e bom tom e gesticulando muito. As pessoas dizem:  Doquinha é uma brisa e Francisca é um vendaval.
- Quando as “mininas” chegarem pro café da tarde e pra te vê, vamos ter este bolo. Doquinha coloca “denduforno”.
O café da tarde é uma costumeira atividade que ocorre em casa de titia, onde suas amigas veem para bordar, fazer biquinho de crochê, falar da vida dos outros e um cafezinho, com alguém sempre trazendo algo para comer.
- Francisca oia o presente que Junqueira te trouxe.
- Um “vidiperfurm” ! Obrigada meu filho.
Depois do almoço, arrumo minhas coisas no quarto e saio para dar uma volta, sem antes ter que prometer que estarei de volta para o café. Terei que aproveitar esse passeio para verificar como se encontra o acesso que terei de usar para conseguir o meu intento.
Pela rua encontro velhos amigos. Visito o bar, onde tomo algumas cervejas. Passo pela botica, pela venda. Passeio em torno da Igreja.
Em todos os lugares encontro antigos conhecidos e relembramos fatos. Risadas em quantidade pelas histórias vividas.
Vou até a beira do rio, onde se encontra a Fonte dos Amores.  Um velho bebedouro e tanque em desuso, feito em pedra sabão, onde antigamente se colhia a água para beber.  Em frente, no rio, ficava o ponto onde as mulheres lavavam a roupa.
A fonte se chama dos Amores, pois, dizem, que o homem e a mulher que beberem água nela, juntos, se casam.
Andei um trecho do rio, onde nadávamos e visitei o ponto onde as mulheres se banhavam e que sorrateiramente tratávamos de observar, pois, apesar de estarem de roupa, pela transparência dela molhada, podíamos perceber suas formas, quando não, claramente os seus seios. Observei os saguis nas árvores, os tico-ticos de máscara, as tesourinhas, a vegetação exuberante e o rio formando remansos entre as pedras sabão.
As quatro voltei para casa. Tomei café com as amigas de titias. Respondi inúmeras perguntas. Saciei as curiosidades. Titia aproveitou e me perguntou:
- Quanto tempo cê fica?
- Três a quatro dias. Tenho trabalho em Belo Horizonte, não posso permanecer mais.
Às cinco e meia, todas saíram para se prepar para a missa das dezoito horas. Faço o mesmo. Vou com tia Francisca e tia Doquinha à Igreja.  Contam-me sobre o padre Amaro, que está há pouco mais de um ano na paróquia.
A velha igreja continua igual por dentro: carcomida, pintura apagada, um altar principal, dois pequenos altares laterais de madeira pintada e, ao centro, um grande candelabro, também de madeira.  No principal, a imagem de Sant’Anna.
Foi esculpida por Aleijadinho e oferecida pela cidade de Ouro Preto em pagamento a uma grande partida de estanho. É maravilhosa. Já a encontrei em alguns catálogos de peças do artista.  Nos altares laterais, São Roque e São José em imagens sem nenhum valor artístico.
Durante a missa, relembro meu tempo de coroinha.  Comia hóstia e bebia vinho escondido.  Das risadas durante a missa com os peidos do Padre Durval. De observar as meninas nas primeiras filas. Dos coques que o padre nos dava na cabeça, quando nos pegava em alguma brincadeira. De subir no campanário e descobrir os sótãos e acessos escondidos, feitos há muitos anos, e que muitas vezes nem o próprio padre conhecia.
Nesse momento, penso:
- Terei coragem?
Voltamos para casa. tia Francisca jantou conosco. A sobra do almoço do dia, como sempre tia Doquinha fazia, com algumas modificações: abobrinha, pedaços de omelete, quiabo ou o que caísse bem com a comida da manhã, para que parecesse uma refeição diferente. Sempre tínhamos a impressão de estarmos comendo algo distinto do almoço, pelos incrementos que fazia.
Depois da janta, as tias vão para calçada com suas cadeiras.  O mesmo é feito pelos vizinhos. Passarão horas conversando.
Alegando cansaço, vou para a cama.
Deitado, relembro o dia em que fui embora. 
Tio Nonô me deu um dinheiro suficiente para os primeiros seis meses em Belo Horizonte, além do endereço de uma pensão, que havia sido recomendada por um amigo seu e que já tinha três meses antecipadamente pagos.
Estava inscrito no curso de técnico em Contabilidade e possuía um emprego garantido como auxiliar de contabilidade em uma empresa  também indicada por seu amigo.
Quando cheguei, tudo transcorreu como previsto. Comecei o trabalho.  O curso começaria depois de um mês.
Era maravilhoso estar livre.  Passei a  vida toda vivendo com minhas tias beatas que controlavam meu tempo, meus pensamentos, meus atos.  Eu era o sobrinho especial - carinhoso, obediente, aplicado e religioso.
No escritório de contabilidade, logo fiz amizade com dois indivíduos mais velhos que me levaram a conhecer a noite em Belo Horizonte.
Passado o mês, quando iniciaria o curso de contabilidade, eu estava enfronhado na boêmia, bebendo, jogando e com mulheres. Não iniciei o curso.
Em três meses, estava desempregado, pois chegava pela manhã sonolento.  O dinheiro que havia trazido para seis meses acabou.
Com a minha boa lábia e aparência comecei a explorar mulheres na prostituição.  Tinha duas.
Quando Tio Nonô e Tia Doquinha escreviam, eu respondia, mentindo que estava bem nos estudos e no trabalho. 
Depois de um ano, tio Nonô morreu.  Quando a notícia chegou já havia se passado um mês.
Aleguei a Tia Doquinha que estava em aula e só poderia aparecer nas férias.  Não apareci nas férias, só retornei agora.  Ela deve ter ficado muito triste, mas não fez nenhuma referência ao fato.
Um mês depois da morte do tio recebi a notícia de que tia Doquinha  vendera a marcenaria, pois não tinha como tocar o negócio.
Eu seguia no jogo e na cafetinagem.   As coisas até que iam bem, quando me coloquei a jogar mais pesado, sem perceber que estava sendo levado a isso por um grupo.
No começo, só ganhava, e muito. Até que prepararam a arapuca e caí.  Fiquei devendo um bom valor.  Cobraram, não tinha como pagar. Levei uma bela surra.
Continuaram me cobrando a dívida de jogo enquanto eu me escondia.  Até que pegaram as duas meninas que trabalhavam na zona e me geravam alguma renda.  Com medo fui procurá-los e disseram:
- Ou você paga, em até quinze dias, ou você morre.  Escolhe.
Agora estou aqui na cama pensando no que tenho de fazer.  O relógio bate dez horas.  Titias e os amigos se recolhem como de costume.
É hora de executar o que planejei. 
Quando o relógio bate onze horas, me levanto e saio sorrateiramente do quarto e da casa.  Vou para o quintal no fundo, sem fazer barulho para não acordar as galinhas.
Pulo o muro e alcanço a rua de trás da casa, que não tem calçamento  nem iluminação. Este lado da cidade não é muito frequentado à noite, pois, a duas quadras fica o cemitério.
Alguns não vão por ali por medo. Outros para não serem falados, pois, é comum os namorados se dirigirem aos muros do cemitério para namorarem, para os apertos, quando não, chegarem aos "finalmentes"
.
As meninas da cidade têm medo de ficarem mal faladas. Dizem que fulana ou beltrana tinha sido encostada. Ou seja, tinha se encostado nos muros do cemitério para seus momentos de amor. Portanto, evitam andar por estes lados.
Aproveito os ermos da Rua do Xavier, paralela à Ladeira de Sant’Anna para depois virar à esquerda, na Rua do Sargento, atrás da Igreja, cortando a Ladeira, no ponto mais deserto.
Aproximo-me da Igreja pelos fundos.  Vou até um local aonde há várias pedras grandes juntas formando um todo com a parede. Nesse ponto se esconde uma entrada que leva à parte superior da Igreja. Esse acesso não é conhecido por quase ninguém e não é utilizado.  O conheci nos meus tempos de coroinha e usava como esconderijo.  Quando do meu passeio, durante o dia, observei que permanecia intacto, sem uso.
Com cuidado me esgueiro entre as pedras, forço a pequena porta, que não tem chave e está travada pelo tempo, pela terra que se acumulou em sua base e adentro. Há uma escada, usada nos tempos antigos para acessar o forro e fazer manutenção e limpeza, que obriga, pela sua altura, que se suba curvada.
Ocorre que passa por trás do nicho onde fica a estátua de Sant’Anna, tendo uma pequena peça de madeira que pode ser removida e possibilita pôr a mão na imagem.
Este é o meu objetivo. Eu tinha traçado este plano, pois, havia verificado em algumas revistas especializadas que a imagem de Sant’Anna tinha um valor alto, por ter sido esculpida por Aleijadinho.
Tratei de retirá-la sem deixar vestígios. Já trazia comigo um saco apropriado para colocá-la.  Do mesmo modo que me dirigi ao local sorrateiramente, retornei. Ouço quando o sino toca as doze horas. O som das badaladas repercute fundo dentro de mim, e um grande temor se alastra pelo meu corpo e meus pensamentos. É arrependimento, mas não posso mais parar.  Já o fiz. Além do mais, se não conseguir o dinheiro, logo serei morto.
O tempo começa a mudar. Uma grande ventania se forma, trazendo nuvens carregadas.
Pulo de volta o muro do quintal e coloco a Santa em um vão do muro tapado por tijolos soltos, que eu usava quando moleque para esconder os catecismos (livretos pornográficos) e outras coisas que eram do meu interesse, e não queria que titia encontrasse.
Mal entro em casa, começa uma chuva forte, com trovões e relâmpagos. Trato de ir silenciosamente para o meu quarto. Adormeço logo, vencido pelo cansaço e pela tensão do que havia feito.
Acordo no dia seguinte com tia Francisca entrando em meu quarto e gritando:
- A Santa desapareceu!
- Como tia? A Santa não pode desaparecer.
- A Santa desapareceu. Não há sinal de alguém tenha entrado na Igreja durante a noite. Tudo tava fechado por dentro. “Nossinhora”, a Santa desapareceu.  Levanta, vamos com Doquinha até a Igreja.
Pela rua vamos encontrado pessoas que se dirigem para lá. Exclamam, gritam, choram.
Há uma multidão na Igreja e do lado de fora.
Dentro, Padre Amaro puxa uma reza, acompanhado pelas mulheres. Muitas pertencentes ao Sagrado Coração; outras as Filhas de Maria.  Os Vicentinos estão presentes e a associação dos Homens de Fé, que tem como missão carregar o andor do Senhor morto na semana santa, assim como os Congregados Marianos, dos quais fiz parte quando jovem.
Os Coronéis Bento, Augusto e Damião, os maiores fazendeiros da região acabam logo chegando.  Todas as pessoas importantes da cidade se dirigem para a Igreja.
Formaram-se grupos para investigar o recinto, para procurarem em volta da cidade, algum vestígio que pudesse levar à Santa, apesar das beatas dizerem que ela havia desaparecido e não sidoroubada.
- “Sô” ela desapareceu. É castigo “promó” dos pecados da cidade. “Vamo paga” nossas penas.
Logo começam os comentários dos castigos da Santa.
Surge alguém dizendo que Nhô Bento estava simplesmente andando em seu sítio e ouviu-se um estalo em sua perna.  O osso tinha se quebrado, sem mais nem menos.  Era um castigo, pois, todos sabiam que Nhô Bento tinha uma mulher e filhos fora do casamento.
- “Perai”, a tempestade de ontem à noite, deve ter sido a briga de Deus com o Diabo.  Devem ter sido os anjos protegendo Sant’Anna.  Agora não é época de tempestades.
Alguém logo apareceu gritando que o Coronel Damião quando voltava para o alambique,  caiu do cavalo, que deu um pinote, assustado não se sabe com o que (alguns falaram que era o demo) e quebrou o ombro. Coronel Damião tinha fama de ser um homem ruim.  Devia ser castigo.
As notícias de desgraças e castigos se multiplicam.
Logo chega alguém a galope, que apeia espavorido e traz uma notícia assustadora:
- Na fazenda do Coronel Assunção nasceu um bezerro com três pernas.
Começo a ficar assustado, apavorado.
Albertinho, meu amigo de infância, se propõe a pegar dois cavalos do seu pai, caso eu quisesse ir com ele ver de perto, se era verdade. Aceito, pois, estou com medo se aquilo é castigo pela ausência da Santa ou simples boatos.
Ao chegar ao local observo, admirado, que realmente, o bezerro havia nascido com três pernas. Duas traseiras e uma dianteira.
Todos comentam que era castigo da Santa para a cidade. Que começariam a ocorrer desgraças como previra, há algum tempo antes, Mãe Joana, vidente do local, respeitada por muita gente.
Volto abalado. Minhas pernas tremem, meu coração está disparado. Albertinho resolve ir ao bar tomar uma “pingumel” e contar o que tinha visto. Eu resolvo ir para casa, não tenho nervos com o que tinha visto, fora que, esta próxima a hora do almoço.
Encontro Tia Doquinha mexendo na horta, no fundo de casa. Canta baixinho uma música religiosa. Tem a expressão abatida, entristecida.  Quando me vê, para com o que faz e vem em minha direção.
- Junqueira, tem comida pronta.  Não tive vontade de cozinhar hoje. Aproveitei o arroz e feijão de ontem, mais uma couvezinha refogada e ovo frito. Tudo bem?
- Sim tia. Tudo bem contigo?
- Sim e com ocê?
Diz isso e me olhando nos olhos. Parece que esta lendo meus pensamentos. Seu olhar me queima, é como se soubesse o que eu tinha feito.
- Tudo, por quê?
- Por nada. É que hoje estou triste com o desaparecimento da Santa. Quando ocê vai embora, mesmo?
- Amanhã tia. Tem o ônibus que vai para São João Del Rey.
- Que pena, tão rápido.
Dito isso, coloca a mesa. Vai para o fogão arrastando seus chinelos e começa a fritar alguns ovos.
É duro a comida descer goela abaixo. Parece que eu tenho a garganta fechada, apertada. O almoço é silencioso, pesado.
- Filho, vou deixar a louça “dendapia” e depois eu lavo.  Vou deitar, não tou bem.
Eu resolvo cuidar do assunto. Lavo rapidamente os pratos, talheres e copos e corro para o quintal.  Olho o local em que havia escondido a Santa. Parece estar em ordem, apesar, de não ter certeza se havia deixado os tijolos do jeito que estão.  Sento na sala e fico pensado sobre os acontecimentos.
Tia Francisca aparece, sempre com seu jeito arrebatado.
- “Uaí”, onde tá Doquinha?
Antes que responda me diz:
-Tá sendo montada vigílias na igreja, “promodi” hora em hora, um grupo rezar. Dia e noite, até a Santa “aparece”. Os “homi” ficam de noite e madrugada e as “muié” de dia. Vai lá Junqueira, escolhe um horário. Vou prosear com Doquinha.
Desaparece, se dirigindo para o quarto, do mesmo jeito que apareceu. Como um furacão.
Saio e vou até a Igreja, que continua com muita gente. A maioria rezando, se não, especulando sobre o ocorrido.
Não tenho coragem de me escrever. Saio andando sem destino até que paro no Bar do Alfredo e peço uma cerveja e fico ouvindo as conversas, apreensivo.
- Sabe o Professor Demósteles, que deu aula  na cidade, até se aposentar, e que mora no sítio aqui próximo? Uma cobra o mordeu quando tava vindo pra cidade pra saber das notícias. Não morreu, porque, tinha mais gente com ele, que o levaram correndo pra  farmácia tomar uma injeção. Castigo da Santa. O Professor é comunista.
- Cruz credo! As galinhas da Dna. Gertudre,  não botaram ovo, hoje.
- “Onti” a noite, um grupo de tropeiros chegando lá pros lado do rio, próximo do putero da Lola e da Flores, na hora da tempestade, encontraram uma figura no meio da encruzilhada.  Parecia o demo carregando uma coisa debaixo do braço. Podia ser a Santa. Tiveram que tirar um crucifixo e rezar uma ave-maria “promodi” desembaraçar a estrada.
Os fatos se multiplicam. Muitos vêem da imaginação e do diz que diz do povo. Esse é o espírito  reinante na cidade.
De repente aparece o moleque Malaquias, vizinho de titias. Vem correndo.
- Seu Junqueira, corre que tua tia Francisca tá te chamando.
Meu coração quase sai pela boca. Será que descobriram o que eu fiz?
Quando chego, apressadamente, o Sr. Juvêncio, da Botica, que é chamado nos momentos de necessidade médica, estava saindo de casa.
- Junqueira, Doquinha caiu numa prostração. Num fala, num come, num abre os “oios”. Meu Deus. É desgosto pela Santa. – Disse tia Francisca – O Sr. Juvêncio fez uns “inzaimes” nela e não encontrou nada.
Meio tonto, entro em seu quarto e pegando a sua mão começo a lhe chamar.
Não responde, não se mexe. Parece uma morta. Começo a chorar.
Tia Francisca me faz ir para o quarto, onde chorando me deito. A minha cabeça esta a toda, não para: maldição sobre a cidade, as imagens do bezerro de três patas, os tropeiros se encontrando com o demo, a queda do Coronel Damião do cavalo, a tempestade, a tia prostada. Minha cabeça não para.
Ouço as amigas de titias chegando para o café da tarde. Os comentários cheios de Nossa Senhora, Meu Deus.
- “Sô”, Doquinha é uma pessoa boa. “Promodi” que aconteceu isso com ela?
- A Santa quer mostrar que os bons vão pagar pelos maus.
Vão para o quarto e rezam o terço. 
Depois de um tempo que se foram vou até o quarto da tia. Encontro Tia Francisca com uma colher, como se estivesse dando de comer a irmã.
- Tia ela comeu?
- Não meu filho. Sou eu que “cabei” de tomar sopa. Ela não se mexe.
Angustiado resolvo ir até o Bordel da Lola e da Flores, onde além de mulheres se pode encontrar alguma bebida diferente que cerveja e pinga. A casa fica perto do rio, no meio do mato, para que as boas famílias não a vejam.
A casa esta deserta. Tenho que chamar por alguém. Aparece a Flores.
- Tu por aqui, mi hijo, há quanto tiempo ?
É argentina e está bem acabada. Tem o rosto rebocado de maquiagem. Os seios são opulentos e saem pelo decote.
- Não tem ninguém ? - Pergunto
- “Hijo, las mininas” estão rezando para a Santa.  Todos “quieremos que vuelva” para o bem da cidade e do nosso movimento. “Voi” a te chamar uma.
- Não, não precisa. Quero uma bebida. Quero um uísque.
- Jorge trás uma dose de uísque para o “minino”.
- Não quero uma dose, quero uma garrafa.
Jorge, o atendente do balcão, leão de chácara e quem sabe, amante das duas, trouxe a garrafa.  É um legítimo Cavalo Branco falsificado.
Para aplacar os pensamentos vou bebendo dose por dose. Chegam um ou dois clientes e com eles a chuva.
Ouço o vento, o trovoar e a água caindo aos cântaros.
A bebida vai descendo e eu cada vez mais tonto. Pago com dificuldade e resolvo ir, apesar de tentarem me segurar por causa do tempo.
Vou cambaleando pela estrada. Estou sujo, molhado e misturo nos olhos minhas lágrimas com a água da chuva. Venta e troveja. Os relâmpagos caem longe e perto.
No local em que os tropeiros se encontraram com o demo, um raio cai sobre uma árvore, que começa a queimar.
No meio do fogo vejo uma figura que ri. Seu riso se mistura com o vento. Ri. Mal poso enxergar,pela água escorrendo em meu rosto, mas ouço o seu riso.
Caio de joelhos, chorando e imploro:
- Sant’Anna me ajude. Sant’Anna me perdoe.
Não agüentando e com medo vou ao chão, emborcando o rosto em uma poça de água.
O fogo começa a diminuir.
Retorno correndo, cambaleando para casa. O susto e a chuva afastam de mim um pouco da bebedeira.
Entro em casa e corro para o quarto de titia. Ajoelhado ao lado da cama e todo molhado pego em sua mão e chorando imploro:
- Me perdoa, me perdoa.
Passo um bom tempo desta forma, entorpecido pela bebida e pelo choro. Em determinado momento tenho a sensação que Tia Doquinha passa a mão na minha cabeça e de ouvir ao fundo:
- Meu filho você sabe o que tem que fazer.
Depois de um bom tempo nesse topor me levanto. A cama e o local onde eu estava ficam molhados. A tia continua imóvel.  Decidido, pego no esconderijo a Santa, salto o muro e vou em direção a Igreja. Chove torrencialmente. O sino bate duas horas da manhã.
Chego ao acesso escondido atrás da igreja. Ninguém o havia encontrado. Está intacto. Cuidadosamente entro e subo. Ouço a reza das pessoas. Coloco a Santa em seu nicho.
Pelo caminho, no retorno, começo a me sentir melhor, mais leve.  O tempo começa a mudar. A chuva para, as nuvens se abre e surge uma maravilhosa lua.
Entro silenciosamente em casa. Vou ao banheiro despir a roupa que está em encharcada, sigo para o quarto e durmo.
Tenho a sensação que mal tinha adormecido, quando Tia Francisca entra no quarto gritando:
- Junqueira, acorda meu filho. Acorda, o sino tá tocando sem parar. São seis horas, vai vê o que aconteceu.
Ao sair na rua, já imaginando o que estará acontecendo, ouço as pessoas gritarem:
- A Santa voltou. Milagre, a Santa voltou.
Na Igreja muita gente presente e muita chegando. O falatório é grande.
- A Dona Gertrudes, no final da reza das cinco horas, abriu as cortinas das janelas e a porta que estava entreaberta.  Os primeiros raios de sol entraram e bateram na Santa. Nesse instante todos a viram em seu lugar. Milagre.
- A Santa deve tê vindo na hora da chuva, pois, tava “moiada”.
- A chuva parou. A briga dos anjos “cum” o diabo acabou. Num tem mais trovoada.
Cada vez mais pessoas vão chegando. O sino não para de tocar.
Corro para casa para contar a Tia Francisca e a encontro conversando com Tia Doquinha que está recostada na cama.
- Junqueira, ouvi que a Santa voltou. Veja, Doquinha também voltou pra "nóis".
Abraço a tia e começo a chorar. Ela só me acaricia e não diz nada. Logo se levanta.
 Houve festa o dia inteiro. Os coronéis mataram alguns animais e se fez um grande churrasco para todos. Aparecerem inúmeros violeiros. Vieram pessoas das vilas próximas. A pinga e a cerveja correram soltas.
Muita gente vai à casa de titia ver o milagre da sua recuperação.
A partir daquele dia, todo o 22 de maio passou a ser feriado. O dia da Volta.
Dois dias após, depois de ter certeza que a tia está restabelecida, resolvo voltar para Belo Horizonte. A Tia Doquinha pressentindo que eu não tenho dinheiro, me dá algum.
- Caso seu Tio Nôno tivesse vivo ia quere fazer isso.  Filho vai, mas manda notícias.
Beijos, abraços. Queijos e goiabadas na mala. Choros da Tia Francisca e lá me vou.
- Filho vai que ta “quaisnahora”.

Estes foram os fatos, de uma forma fria e crua, que ocorreram naquele mês de maio, com toda a minha culpa claramente retratada.
Agora quero contar o que ocorreu com a minha vida e as dúvidas que assaltaram minha mente desde então:
Ao descer na rodoviária em Belo Horizonte, na minha volta de Sant’Anna do Vale, tratei de pegar o primeiro ônibus para São Paulo, pois, se ficasse por lá poderia ser morto.
Em São Paulo fui para uma pensão barata, perto da rodoviária. Uma região suja, cheia de prostitutas.
Procurei um emprego e por sorte consegui em um escritório de contabilidade, no centro, perto da pensão.  Tratei de me esforçar. O dono gostava de mim e me passou para auxiliar de contabilidade.
Com o tempo, perguntou se eu gostaria de estudar à noite. Concordei. Ele me pagou os estudos. Acabei me formando.  Trabalhei com ele mais seis anos, como contador e depois voltei para Belo Horizonte onde montei o meu próprio escritório de contabilidade. Acabei me casando e tendo duas filhas.
Dois anos após estar trabalhando em São Paulo, tirei quinze dias de férias. Viajei a Belo Horizonte, procurei os pilantras a quem devia e os paguei. Disse às meninas que estavam presas junto a eles que poderiam fazer o que quisessem da vida, mas, preferiram continuar na prostituição.
Fui para Sant’Anna do Vale visitar titias. Foi uma alegria. Um festival de abraços, comidas, comentários, visitas.
Como era 22 de maio, feriado, Dia da Volta, fomos a missa e a festa que se desenrolou na cidade. Dancei com tia Doquinha, Francisca e várias moças da cidade, as quais, as duas faziam questão de me apresentar.
Em determinado momento, de braço dado com as tias, Tia Doquinha me disse:
- A Santa fez milagre, não foi meu filho ?
Olhou para mim, para tia Francisca, sorriu e piscou um olho.
No ônibus, no caminho de volta, intrigado com aquela piscada, comecei a pensar:
- Não terá Tia Doquinha encontrado a Santa quando cuidava da horta?  Os tijolos, não ocasião, me pareceram mexidos.
- Será que na sua sabedoria, sabendo que se eu ficasse mais um tempo, poderia mudar de idéia, com o que tinha feito e para isso simulou uma doença? Não estaria tia Francisca dando sopa a ela quando entrei no quarto?
- Não teria eu, na minha bebedeira, confundido uma árvore em chama com a imagem do demo e ter imaginado ouvir risos quando nada mais era que o barulho do vento?
- Não terá sido coincidência o raio cair no meu caminho, a chuva iniciar e terminar tão logo peguei e devolvi a santa ?
- Não terá, realmente, a tia me afagado a cabeça, quando chorava, bêbado, em sua cama e me dito que eu sabia o que deveria fazer?
- Será que os fatos e coincidências ocorreram como pensei ou foram realmente em função da Santa?
Anualmente passei a visitar as tias, tratando de coincidir minha ida com a festa da Santa.  As duas viveram muito tempo e morreram em paz e felizes.
Acabei me aposentando e com a idade, vindo a morar em Sant’Anna do Vale, onde tenho uma pequena chácara. Mantenho a casa de titia na cidade.
No final desta estória, novamente, tenho que ressaltar a dúvida que sempre me acompanhou:
- Existiram os milagres ou foram coincidências e imaginação ?
Esta é uma resposta que nunca terei, porem, lembro o ditado popular que diz: “Deus escreve certo por linhas tortas”, ou como dizia tia Francisca:
“Dondi Deus decidi pô a mão o homi não muda não.”

01/07/2026

ONDE ESTÁ VOCÊ?



Onde está você,

Teu sorriso, teu olhar ?

Onde está o riso

Que não mais se vê?


Onde está você, 

Com o teu querer ?

Onde está o cantar,

Que alegrava o dia ?


Onde está o brilho

Que era de você,

Carregado de alegria, 

Num doce viver?


Onde está a melodia

Declamada em prosa,

Que dos lábios escorria,

Cheia de querer ?


Onde está o sonho

Dividido em atos,

Em que tudo existia,

Chamado você ?


Onde está o enlevo

Que a pele macia,

Na ponta dos dedos,

Me revolvia ?


Hoje, restam anseios

E um só silêncio,

No meio da vida.

Onde está você?

12/06/2026

SÓ MAIS UMA VEZ

 



Eu queria, só mais uma vez, roubar o primeiro beijo, ter-te em meus braços e viver o amor juntos.

Só mais uma vez, mergulhar em teu olhar e inebriar-me com o teu sorriso.

Ouvir a tua voz embalando palavras de carinho e estímulo, e poder dividir nossos planos para o futuro.

Eu queria, mais uma vez, viver a emoção de te dizer meu sim, e juntos construir um lar.

Só mais uma vez, sentir a surpresa da primeira gravidez, o meu medo e a tua tranquilidade.

Novamente, a alegria da nossa filha em casa após momentos de receio no seu nascimento.

O prazer de contemplar o instante só seu e dela no mamar, e de sentir-me profundamente pai quando a peguei no colo.

Sentir, mais uma vez, o júbilo pela chegada de mais filhos, os nossos cuidados e amor por eles.

Eu queria, só mais uma vez, a satisfação de todos juntos com nossas festas, conversas, dores, temores, alegrias e muito amor.

Só mais uma vez, ter uma das nossas brigas por tolices e, depois, a reconciliação.

Só mais uma vez, cuidar contigo dos pequenos que a vida nos encaminhava e pelos quais tinhas o mesmo desvelo que dedicavas aos teus.

Eu queria, mais uma vez, ouvir o teu canto, as tuas orações, que me serviam de consolo e apoio e me fortaleciam para caminhar a teu lado como teu companheiro.

Mais uma vez, viver as dores, os medos, os desencantos, as doenças e as perdas que enfrentamos, tendo sempre os filhos conosco, enquanto cresciam e construíam suas próprias vidas.

Na verdade, eu não queria apenas reviver alguns momentos; eu queria, mais uma vez, viver a vida contigo.



16/03/2026

ABUSO, MARCAS QUE O ESPELHO NÃO VÊ

 ABUSO, MARCAS QUE O ESPELHO NÃO VÊ



Baseado em um caso real

 

Na época dos fatos que narraremos, Marinalva morava no Bairro do Morro Grande, periferia de São Paulo, localizado depois do bairro da Freguesia do Ó - região antigamente conhecida pela existência da Pedreira do Morro Grande.

No início da sua moradia por lá, era só mato, mas, com o crescimento da cidade, sofreu uma forte urbanização. No momento há a perspectiva de uma linha de metrô partindo do bairro, o que tem impulsionado enormemente o seu desenvolvimento urbano.

No princípio, a casa se situava em uma área onde a maioria das moradias era composta apenas por paredes e uma laje por cima, sem nenhum reboco. A sua começou dessa forma. Foi em um terreno dado por seu pai.

A casa começou a ser construída com a pouca economia que ela e o Vlado, seu marido, possuíam.  Ela trabalhava de diarista e ele de porteiro em prédios e de vez em quando na construção civil. Aos poucos, muito mais com a contribuição dela do que dele, a casa foi terminada e mobiliada, realizando o primeiro grande sonho dos dois.

Para Marinalva nunca faltou trabalho, uma patroa a indicava para outra, inclusive, trabalhou para famílias nas quais ia duas ou três vezes por semana o que amenizava, o trabalho diário.

Outro grande desejo dos dois, muitas vezes murmurado e deliciosamente trabalhado entre os lençóis, era ter um filho.  Hoje, Gerson, com 14 anos.  Esperado, amado e comemorado entre todos da família. Dos netos o mais carinhoso e querido pelos avós.

Como os pais saem cedo para o trabalho, ele vai para escola pela manhã e na hora do almoço retorna para a casa de sua tia Marilene, irmã de sua mãe, que mora duas ruas acima da sua, ao lado da casa dos avós. À tarde trabalha em um supermercado de empacotador.

Entretanto, a vida vai dando suas voltas e nela muitas vezes nos perdemos. Nos últimos quatro anos, por causa da bebida, Vlado foi mudando de emprego, devido a atrasos e faltas ou por chegar alcoolizado. Por mais que mãe e filho pedissem para que ele parasse ou diminuísse o consumo, isto não ocorria.

Como ela supria a casa, ele foi negligenciando financeiramente. Quando não estava trabalhando, passava o tempo, em um bar próximo de sua casa, jogando dominó e bebendo.

Em um dos dias, ao retornar para casa, Marinalva, encontrou o marido e mais três indivíduos esparramados pela sala. Aparentemente jogavam dominó, mas, com certeza bebiam, pois havia copos e garrafas pelo chão. Os panos que com cuidado colocava sobre o sofá e as poltronas, para melhor preservá-los, pelo chão e pisados. Seus bibelôs na estante caídos, demonstrando falta de cuidado e correndo o risco de serem quebrados.

No primeiro momento suas pernas fraquejaram, depois, tomou força e gritando colocou-os para fora, agarrando-os pelas camisas e empurrando-os para fora. Alguns estavam cambaleantes, como seu marido, que se mostrava zonzo pela bebida e que empurrou porta afora, quase caindo pela escada na frente da casa.

- Fora cambada de bêbados. Eu trabalho a semana toda e no sábado e domingo cuido da casa para ficar em ordem para a semana e vocês sujam tudo. Fora, cambada de desocupados. Não voltem mais. Fora!

Sentou-se na poltrona e começou a chorar. Sentiu-se frustrada pela falta de respeito do marido em relação à casa, a moradia duramente construída e mantida, ele deveria ser o principal protetor.  Foi assim que seu filho a encontrou quando chegou em casa, tomando conhecimento do ocorrido.

Vlado chegou tarde e se meteu na cama.

Na manhã seguinte levantou-se junto com ela.

- Esta casa também é minha e trago quem eu quiser – esbravejou.

- Não traz, não. Quem cuida de tudo para ela ficar em ordem sou eu. Nem dinheiro você coloca na casa há um bom tempo. Quando tem só gasta com bebida.

Puxando-a pelo braço e apertando seu pescoço, com os olhos inchados pela ressaca e com um bafo insuportável disse:

- Eu sou o homem da casa. Sou eu que mando. Agora vai trabalhar e veja se toma mais cuidado com o que faz e ao que fala diante dos meus amigos.

Marinalva foi embora sentindo as mãos de Vlado em seu pescoço. Olhou no espelhinho de bolso e viu que não havia ficado com marca.  Nunca o vira com aquele olhar; nunca haviam se confrontado daquela forma. Por dentro ficara a pior marca: uma sensação desagradável de perda de confiança e de insegurança.

O filho levantou-se para ir à escola, olhou o pai com olhos de fúria e saiu batendo a porta, sem nem tomar o café que o pai ofereceu.

Nos dois, três dias seguintes a procurou manifestando arrependimento.

- Você sabe que não sou assim, perdi a cabeça, não te machucaria, me perdoa, eu te amo.

Todo meloso, informou que tinha encontrado um novo emprego de porteiro e que começaria na segunda-feira. Ela recitou a ladainha da bebida que estava acabando com ele e com todos os empregos que arrumava. Promessas mil foram feitas por ele sobre a bebida, novamente.

Nesse emprego tinha horários variados, havia semana que pegava às 5 h da manhã e largava às 14 h. Nesses dias, dirigia-se para o bar, para o dominó e as bebidas. Nada adiantaram as palavras da esposa e do filho, alertando que tudo estava começando a acontecer novamente.

O emprego dele já se aproximava do final do segundo mês, quando ao chegar à casa, à noite, Marinalva o encontrou com três parceiros e duas mulheres que estavam sentadas no colo de dois deles.

Ela perdeu o controle e começou a gritar para que se retirassem.

Seu marido, totalmente alcoolizado deu-lhe dois tapas, derrubando-a no chão. Levantou-a pela blusa, que se rasga mostrando um seio para fora do sutiã, que se rompeu.

-Você cala a boca, sua filha da puta. Não vai me desrespeitar na frente dos meus amigos. Já disse, esta casa também é minha.

As mulheres bêbadas e rindo, disseram:

- Mostra quem é homem da casa.

Enraivecido e tocado em seus brios pelos comentários, arrastou-a para o quarto, onde a joga sobre a cama.

- Sabe que você está gostosa. Esse teu peitinho me deixou com tesão.

Jogou-se sobre ela, que pressente que poderá ser estuprada pelo marido e reage como pode. Arranhando-o, chutando e gritando. Ele como estava muito bêbado, com os empurrões caiu da cama e levantou-se cambaleante.

- Fica aí sua vaca. Depois que eles forem embora, a gente conversa.

Ela tratou de se trancar no quarto, chorando. O sentimento que sentira dias atrás se alastrou pelo corpo, sentiu-se um nada. Não via respeito e nem amor em seu marido. Lentamente, com o passar dos anos a relação de entendimento e afeto fora diminuindo. Às vezes predispunha-se a atendê-lo nas suas investidas sexuais, mas não havia mais sentimento de amor e de carinho. Sentia-se um mero objeto para seu prazer. E o fazia para manter a estabilidade da família.

Só abriu a porta quando o filho chegou.

- Mãe, você não pode continuar com essa vida. Dá um duro para manter nossa casa e é tratada com desprezo por quem devia te cuidar. Você não depende em nada dele. Procure uma saída, converse com o pastor Josué, ele pode aconselhar o que é melhor a ser feito.

Ao conversar com o pastor, foi aconselhada a ter paciência, que o papel da mulher é obedecer ao marido e ajudá-lo a seguir um bom caminho, estava na mulher o equilíbrio da família.

 Ele e a esposa foram fazer uma visita à casa de Marinalva com a presença do marido e conversarem. Vlado, seguindo um roteiro já conhecido de arrependimento, propôs se remediar, passar a participar dos Alcoólatras Anônimos e jurou nunca mais agredir a esposa, pois, a amava, e como dissera o Pastor ela era o bastião sagrado da família e precisava ser respeitada.

Durou três dias, quando ao voltar à tarde, o encontrou alcoolizado na sala e ao perguntar por que não estava trabalhando, respondeu ter sido mandado embora, por intriga de um faxineiro que queria sua função de porteiro.  Situação e desculpas comuns às inúmeras vezes em que perdera o emprego.

Novamente a agarrou pelo pescoço - prometeu matá-la se falasse com mais alguém sobre seu relacionamento - como fizera com o Pastor. Começou a beijá-la percorrendo o pescoço e baixando sua blusa até os seios. Suas palavras eram de ódio, sua ação de violência e seus olhos refletiam ira.

Esbravejando que ele era o homem da casa, imprensando-a contra a parede e, praticamente cuspindo em sua cara vociferou que ela era sua mulher e deveria obedecê-lo, inclusive sexualmente, como queria naquele momento.

Marinalva reagiu, gritando, empurrando-o, tentando afrouxar a pressão no pescoço, e dar uma joelhada para se livrar. Ele, ensandecido empurrava-a para a cama e com uma das mãos levantava-lhe a saia, tratando de arrancar a calcinha. Derrubou-a na cama.

Ela, em pânico, sentia ter cada vez menos forças para se defender. Seus gritos, que eram agudos, se tornaram sussurros por causa da pressão sofrida na traqueia. A única coisa que via eram seus olhos, dilatados, avermelhados, animalescos. Estava se dando por vencida. Levou um murro na boca apagando-a por momentos. Ele abre suas pernas. Acordou com uma dor no ventre, era ele penetrando-a com violência e a machucando. Impotência, insegurança e medo foram o que sentiu enquanto a dor aumentava.

Nesse instante, seu filho chegou, pegou uma cadeira e bateu no pai, que caiu no chão, dando tempo de levantá-la da cama, subir-lhe a blusa cobrindo os seios e empurrá-la para a sala. Fechou a porta e com os pedaços da cadeira quebrada passou a bater no pai, até que teve um ataque de choro e caiu prostrado no chão.

Um forte sentimento de culpa apossou-se dele, pois era seu pai, mas não podia permitir a forma como tratava a mãe. Levantou o pai, levou-o até a porta da frente e o empurrou escada abaixo, onde ele ficou vociferando, segurando-se na mureta, mal ficando em pé. Contrário aos desejos da mãe, chamou a polícia, que tardou a chegar, seguindo todos para a delegacia, debaixo dos olhares e comentários dos vizinhos.

Era o início do surgimento da Lei Maria da Penha, e a delegacia ainda estava mal preparada para um atendimento apropriado, Foi aberto um boletim de ocorrência, ela foi encaminhada para exame de corpo de delito e o agressor permaneceu preso por alguns dias. Para ela foi uma noite longa de cansaço, dor e vergonha, tendo que se expor para exames.

Marinalva não teve condições de trabalhar no dia seguinte e seu filho não quis ir à escola nem ao trabalho. Ela, pelas feridas físicas e emocionais, e o filho com receio do retorno do pai.

Dois dias depois foi trabalhar em uma casa onde a patroa, Margô, a tinha em grande consideração e sempre a aconselhava. Ao saber o que houve, conversou com sua amiga advogada, Carla, que se propôs assumir o caso “pro bono”, ou seja, gratuitamente. Margô propôs-se a pagar qualquer despesa que houvesse.

Marinalva ficou em dúvida. As palavras polícia, advogada, audiência trouxeram grande receio. Ele era seu marido e era a sua família em jogo.  Margô a incentiva a utilizar os serviços de sua amiga, mas ela se mostrava relutante. Margô lhe dize:

- Marinalva, tudo começa com agressões muitas vezes seguidas de arrependimento. Só que as agressões vão aumentando, ficando cada vez mais violentas. Não te respeita, age como se fosse o teu dono e não teu marido. Vai aumentando, até que, acaba em morte. Temos muitos casos, em nosso país, de violência doméstica que acabam em feminicídio, ou seja, mulher morta pelo companheiro, e se desenvolvem como está ocorrendo contigo. Cuidado, não deixe que aconteça contigo.

Marinalva mergulhou em noites de insônia. O que fazer? Era o pai do seu filho. Recordava as lembranças boas que viveram, as dificuldades do início de vida que enfrentaram a dois, as conquistas. Agora se pergunta: onde está o amor que os uniu? Não tem coragem de dar esse passo.

Cada noite que volta do serviço, seu coração se acelera à medida que chega a seu ponto de ônibus. O sentimento de medo toma seu corpo, começando na boca do estômago, indo para o coração, sobe pela garganta deixando a boca seca. A cada passo, na rua, ouve o bater do coração, compassando com o caminhar. O ouvido se apura para perceber se alguém se aproxima.

Tenta andar junto de pessoas, mas há momentos que não é possível. Cada entrada de rua deserta, cada subida de ruela erma se pergunta:

- Estará me esperando?

Numa das vezes, ao virar uma esquina, uma sombra.

 Era ele!

Sentiu as pernas pesadas, os braços caídos, não tinha força para correr e não tinha voz para gritar. Teve que se esforçar em continuar caminhando. Ao final era um vizinho que vinha em sentido contrário.

Precisou sentar em uma mureta, pois, o cansaço era enorme e seu corpo só queria se largar em qualquer lugar.

Chegou em casa quase sem forças e ao se aproximar, observa as janelas, a porta, o portão na busca de algum sinal da presença do marido. Tensão. O que a faz entrar é a preocupação com o filho. Novos sentimentos de angústia, esperando que ele esteja bem, em casa.

- Terá invadido a casa, estará meu filho bem, não terá encontrado o pai e tido uma desavença? O que vou encontrar?

Ao entrar, a porta da casa parece ter quilos de peso, o mínimo ruído que faz lhe parece um grito de chamada de atenção. Lentamente entra e se dirige em direção à sala onde nota alguma movimentação.

 Graça a Deus era seu filho e estava bem. O abraça como se não o visse há anos. Ele sente o medo no abraço da mãe, que também está dentro dele.

Ela vai para o quarto deitar um pouco, antes de acabar a janta que o filho começou. Está exausta. O cansaço do percurso até em casa é maior que o cansaço do trabalho do dia.

Sua patroa, cada vez que a encontra lembra da importância de tomar medidas judiciais. E lhe alerta:

- Quando tudo estiver mais calmo e achar que está tudo bem, ele vai aparecer. Pode se preparar para isso. Homem, como seu marido, não presta e, portanto, vai voltar com as mesmas atitudes. Serão novas agressões. Digo as minhas filhas: a mulher tem que se dar o respeito. Sem dúvida, homem nenhum pode desrespeitar uma mulher, seja aonde for e como for. Entretanto, se a mulher tem postura, inibe algumas investidas.

Marinalva continua agoniada, mas, não tem coragem de tomar novas medidas.

Vai se passando o tempo, sem ele aparecer. Cada dia tem a sua tensão que pouco a pouco vai diminuindo, acreditando que não mais virá, por já ter passado por prisão, além dos boletins de ocorrência que ela fizera.

Certo dia, no retorno para casa, uma conhecida, no ônibus, disse que o viram pelo bairro. Sentiu-se mal, tiveram que lhe dar espaço para sentar, pois, ficou branca e quase caiu.

- Desculpe, com o calor a minha pressão caiu.

 Fez o percurso até em casa tomada de terror. No dia seguinte vai até a casa de sua irmã Marilene e conta o que ouviu.

- Mana, você tem que fazer o que tua patroa falou. Fora isso, eu tive uma indicação que pode te ajudar. É a Dona Juréia.

- Dona Juréia que eu saiba é benzedeira.

- Ela é benzedeira, mas também é uma senhora de idade, bastante respeitada na comunidade, e te dará conselhos do que fazer. Muita gente me recomendou que você falasse com ela.

Foi, não tinha nada a perder. A Dona Juréia a atendeu com muito carinho e atenção. Já tinha ouvido falar da sua situação. E acompanhada de um cafezinho feito na hora, e um pedaço de bolo, ouviu as recomendações do que fazer. Ao ir embora ouviu suas últimas palavras:

- Faça o que eu disse, mas, não deixe de atender o que tua patroa te orientou, é importante. Procure a justiça e a única forma de distanciá-lo e dar segurança a você e ao teu filho.

Foi embora com as orientações recebida, ainda resistente. Mas, infelizmente, tomada de medo, sentindo-se insegura.

Em um sábado, ao retornar do trabalho vê uma luz acesa em casa. Fica assustada. O filho naquele dia iria para a casa da irmã, pois, tinha folga e sairia com os primos. Torcia para ter esquecido acesa ao sair, pois, haviam trocado as fechaduras da casa e até grade colocaram em algumas janelas.

Ao entrar, lá estava ele. Sentado no sofá, tomando cerveja e pinga e assistindo televisão.

Medo, insegurança, terror tomaram seu corpo. Fez força para manter a voz e dizer:

- O que está fazendo aqui? Como entrou?

Depois veio a saber que arrebentou o basculante da janela do banheiro e entrou.

- Vim passar o fim de semana na minha casa. Ver minha mulher. Faz uma comidinha e a gente almoçar juntos.

Apavorada e desejando que não se altere, vai para a cozinha fazer algo. Demora com almoço na esperança em que ele passe o tempo bebendo, pois viu na geladeira várias garrafas de cerveja e sobre a mesa algumas de pinga. Coloca alguns salgadinhos em um pote e leva até a sala.

- Assim que eu gosto de ver.

Acaricia suas nádegas, alguns pequenos apertões e tapas.

- Minha mulherzinha gostosa!

Depois de esquentar um feijão, fazer um arroz e fritar dois ovos, o chama para a mesa. Vem cambaleante e quase cai da cadeira. A abraça pela cintura

- Este é meu amorzinho.

- Come, e depois propõe que ele deita um pouco em sua cama para descansar.

- Nossa cama, que bom. Depois você vem junto?

- Se você ficar bonzinho eu até vou.

Com dificuldade consegue leva-lo até a cama.

Quando já está dormido, ou seja, mais desmaiado que dormido, pega sua bolsa e sai. Vai seguir as orientações da Dona Jureia. Sobe o morro e embrenha-se na favela. É parada três ruas acima por dois marmanjos de armas na mão.

- Tia o que tá fazendo aqui?

- Eu quero falar com o Pezão, foi a Dona Juréia quem mandou procurá-lo – respondeu com a voz trêmula.

Pezão é o chefe do tráfico na região, comanda tudo o que acontece na comunidade e em volta.

O nome da Dona Juréia desperta a atenção dos rapazes que se comunicam com alguém por rádio, celular ou o que quer que fosse.

- Vamos.

Sobem algumas ruelas, parando em uma delas. Vem uma pessoa e lhe coloca um capuz. Seu coração se acelera, parece que irá sair pela boca. Caminha insegura, apoiada e apoiando-se nos dois rapazes. Tropeça, mal consegue pisar, vai sendo levada.

Após várias quebradas, nota que entrou em uma casa onde lhe retiram o capuz. Na sua frente, sentado em uma cadeira, está um rapaz de pouco mais que trinta anos com rosto jovem, mas duro.

- A Dona Juréia mandou a senhora falar comigo, pra quê?

Titubeando nas palavras, tremendo, relata o que acontece no seu relacionamento com o marido, as medidas que tomou e o medo que vive. Ressaltou, que no momento ele está deitado em sua cama bêbado, após ter arrebentado a janela do banheiro.

- Eu conheço teu marido dos botecos. Já ouvi várias histórias dele. É metido a malandro e valentão com quem é mais fraco. Não presta. Vou te ajudar.

Chama um pessoal e passa instruções.

- Eles irão contigo até tua casa.

Novamente um percurso com capuz. Quando o tiraram, observou que era quatro pessoas lhe acompanhando. Nenhum dos rapazes iniciais.

Ao chegar em casa, ordenaram que aguardasse fora. Depois de alguma gritaria, saíram trazendo seu marido arrastado. Ele gritando que estava em sua casa. Ao chegar na rua e ao vê-la, entende o que estava acontecendo.

Ela tensa pela gritaria, pelas pessoas a sua volta e a forma agressiva como Vlado estava sendo retirado. Suas pernas mal sustentavam seu corpo. A sorte é que alguns vizinhos saíram, principalmente mulheres, e se puseram ao seu lado, pois, entendiam o que ocorria.

Na falta da presença da JUSTIÇA lhe protegendo a (in)JUSTIÇA do povão atuou. O MEDO combatendo o MEDO.

O colocaram em um carro e saíram.

Veio a saber que deram uma surra no marido e ameaçaram-no a não aparecer pelo pedaço.

Seu filho que ainda considerava o pai e tinha a esperança que saísse da bebida, o procurava periodicamente, para se verem, trouxe essa informação.  Soube pelo filho que o marido estava com medo de aparecer no bairro e estava tomando mais cuidado com a bebida, pois, não tinha a esposa para se escorar financeiramente.

Ao contar para Margô, sua patroa, o ocorrido esta lhe alertou que isso poderia parar os incômodos por parte dele, por um tempo, mas que o ideal era utilizar de medidas legais para o afastar e protege-la legalmente. Se não fosse por ela que fosse pelo filho.

Marinalva passou um tempo indecisa, acreditava que o ocorrido resolveria a questão, o marido não mais lhe incomodaria. Seu filho, apesar de ter pena do pai e de tratar de ter contato com ele, concordava com sua patroa. Deveria buscar a lei. Ela lembrou das palavras da Dona Juréia, a benzedeira:

“Faça o que eu disse, mas, não deixe de fazer o que tua patroa te orientou, é importante.”

Porém manteve-se com a mesma opinião, não iria acabar de vez com sua família buscando a lei. Tinha esperança que ele aprendesse a última lição.

Alguns meses passaram, até que em um dia, uma vizinha veio correndo dizer que seu marido o encontrara em boteco próximo do bairro.  Dizia que iria voltar para casa, que era sua. Tinha amigos que o protegeria se necessário.

Ao conversar com sua irmã do medo que estava sentindo e do receio que algo acontecesse ao seu filho e após muita insistência dela, resolveu procurar a Dra. Carla.

Ela entrou imediatamente com a denúncia de agressão, estupro, invasão e solicitou o afastamento do agressor da casa e a proibição de aproximação da mulher. Solicitou separação e o pagamento de pensão para o filho.

- Dra., ele não ganha nem para si, quanto mais para o filho.

- Tudo bem, só que hoje em dia, da forma como a lei vem evoluindo, a falta de pagamento de pensão leva a pessoa a prisão. Poderemos vir a utilizar esta possibilidade como pressão, se necessário, no futuro.

Tratou de obter o endereço em que trabalhava para que recebesse todas as notificações, de forma que se preocupasse e se acautelasse de se aproximar.

A Juíza foi clara para Marinalva:

-  Se a senhora não desse um basta ao seu marido, as agressões iriam aumentar, e o final poderia ser a sua a morte. Temos um número grande de feminicídios acontecendo. A mulher tem que se proteger dos relacionamentos abusivos, que podem não ser agressivos, mas morais, sexuais e financeiros. Muitos homens acreditam que a mulher é posse dele. Por machismo, por ciúme, seja pelo que for, abusam de suas mulheres. O feminicídio é algo que ocorre nos país inteiro, não escolhe classe social.

O casamento tem que ser uma parceria com muito respeito. Caso tenha alguma conhecida, casada ou não, que passa por essas situações, com ela, filha, enteada diga que denuncie pelo 180 que tomaremos providência e a ajudaremos, hoje a lei está promulgada, precisamos trabalhar para que seja melhor aplicada. Que as mulheres nessa situação tenham uma melhor acolhida pela lei e pela sociedade.

As mulheres precisam se unir e se proteger.

Com alguns pequenos contratempos jurídicos, resolvidos pela sua advogada, com o tempo, Marinalva veio a ter uma nova vida. Recomeço que a levou a novas alegrias e resultados. O filho no futuro veio a se casar. Ela com o trabalho, comprou um pequeno apartamento perto do filho, que se mudara para Itaquera, e lhe proporcionou dois netos. Trabalha, namora, passeia e curte a família.


mldal