Baseado em
um caso real
Na época dos
fatos que narraremos, Marinalva morava no Bairro do Morro Grande, periferia de
São Paulo, localizado depois do bairro da Freguesia do Ó - região antigamente conhecida
pela existência da Pedreira do Morro Grande.
No início da
sua moradia por lá, era só mato, mas, com o crescimento da cidade, sofreu uma
forte urbanização. No momento há a perspectiva de uma linha de metrô partindo
do bairro, o que tem impulsionado enormemente o seu desenvolvimento urbano.
No
princípio, a casa se situava em uma área onde a maioria das moradias era
composta apenas por paredes e uma laje por cima, sem nenhum reboco. A sua
começou dessa forma. Foi em um terreno dado por seu pai.
A casa
começou a ser construída com a pouca economia que ela e o Vlado, seu marido,
possuíam. Ela trabalhava de diarista e
ele de porteiro em prédios e de vez em quando na construção civil. Aos poucos,
muito mais com a contribuição dela do que dele, a casa foi terminada e
mobiliada, realizando o primeiro grande sonho dos dois.
Para
Marinalva nunca faltou trabalho, uma patroa a indicava para outra, inclusive,
muitas trabalhou para famílias nas quais ia duas ou três vezes por semana o que
amenizava, em muito, o trabalho.
Outro grande
desejo dos dois, muitas vezes murmurado e deliciosamente trabalhado entre os
lençóis, era ter um filho. Hoje, Gerson,
com 14 anos. Esperado, amado e
comemorado entre todos da família. Dos netos o mais carinhoso e querido pelos
avós.
Como os pais
saem cedo para o trabalho, ele vai para escola pela manhã e na hora do almoço
retorna para a casa de sua tia Marilene, irmã de sua mãe, que mora duas ruas
acima da sua, ao lado da casa dos avós. À tarde trabalha em um supermercado de
empacotador.
Entretanto,
a vida vai dando suas voltas e nela muitas vezes nos perdemos. Nos últimos
quatro anos, por causa da bebida, Vlado foi mudando de emprego, devido a atrasos
e faltas ou por chegar alcoolizado. Por mais que mãe e filho pedissem para que
ele parasse ou diminuísse o consumo, isto não ocorria.
Como ela
supria a casa, ele foi negligenciando financeiramente. Quando não estava
trabalhando, passava o tempo, em um bar próximo de sua casa, jogando dominó e
bebendo.
Em um dos
dias, ao retornar para casa, Marinalva, encontrou o marido e mais três
indivíduos esparramados pela sala. Aparentemente jogavam dominó, mas, com
certeza bebiam, pois havia copos e garrafas pelo chão. Os panos que com cuidado
colocava sobre o sofá e as poltronas, para melhor preservá-los, pelo chão e
pisados. Seus bibelôs na estante caídos, demonstrando falta de cuidado e
correndo o risco de serem quebrados.
No primeiro
momento suas pernas fraquejaram, depois, tomou força e gritando colocou-os para
fora, agarrando-os pelas camisas e empurrando-os para fora. Alguns estavam cambaleantes,
como seu marido, que se mostrava zonzo pela bebida e que empurrou porta afora,
quase caindo pela escada na frente da casa.
-
Fora cambada de bêbados. Eu trabalho a semana toda e no sábado e domingo cuido
da casa para ficar em ordem para a semana e vocês sujam tudo. Fora, cambada de
desocupados. Não voltem mais. Fora!
Sentou-se
na poltrona e começou a chorar. Sentiu-se frustrada pela falta de respeito do
marido em relação à casa, a moradia duramente construída e mantida, ele deveria
ser o principal protetor. Foi assim que
seu filho a encontrou quando chegou em casa, tomando conhecimento do ocorrido.
Vlado
chegou tarde e se meteu na cama.
Na
manhã seguinte levantou-se junto com ela.
-
Esta casa também é minha e trago quem eu quiser – esbravejou.
-
Não traz, não. Quem cuida de tudo para ela ficar em ordem sou eu. Nem dinheiro
você coloca na casa há um bom tempo. Quando tem só gasta com bebida.
Puxando-a
pelo braço e apertando seu pescoço, com os olhos inchados pela ressaca e com um
bafo insuportável disse:
-
Eu sou o homem da casa. Sou eu que mando. Agora vai trabalhar e veja se toma
mais cuidado com o que faz e ao que fala diante dos meus amigos.
Marinalva
foi embora sentindo as mãos de Vlado em seu pescoço. Olhou no espelhinho de
bolso e viu que não havia ficado com marca. Nunca o vira com aquele olhar; nunca haviam se
confrontado daquela forma. Por dentro ficara a pior marca: uma sensação desagradável
de perda de confiança e de insegurança.
O
filho levantou-se para ir à escola, olhou o pai com olhos de fúria e saiu
batendo a porta, sem nem tomar o café que o pai ofereceu.
Nos
dois, três dias seguintes a procurou manifestando arrependimento.
-
Você sabe que esse não sou assim, perdi a cabeça, não te machucaria, me perdoa,
eu te amo.
Todo
meloso, informou que tinha encontrado um novo emprego de porteiro e que
começaria na segunda-feira. Ela recitou a ladainha da bebida que estava
acabando com ele e com todos os empregos que arrumava. Promessas mil foram
feitas por ele sobre a bebida, novamente.
Nesse
emprego tinha horários variados, havia semana que pegava às 5 h da manhã e
largava às 14 h. Nesses dias, dirigia-se para o bar, para o dominó e as bebidas.
Nada adiantaram as palavras da esposa e do filho, alertando que tudo estava
começando a acontecer novamente.
O
emprego dele já se aproximava do final do segundo mês, quando ao chegar à casa,
à noite, Marinalva o encontrou com três parceiros e duas mulheres que estavam
sentadas no colo de dois deles.
Ela
perdeu o controle e começou a gritar para que se retirassem.
Seu
marido, totalmente alcoolizado deu-lhe dois tapas, derrubando-a no chão. Levantou-a
pela blusa, que se rasga mostrando um seio para fora do sutiã, que se rompeu.
-Você
cala a boca, sua filha da puta. Não vai me desrespeitar na frente dos meus
amigos. Já disse, esta casa também é minha.
As
mulheres bêbadas e rindo, disseram:
-
Mostra quem é homem da casa.
Enraivecido
e tocado em seus brios pelos comentários, arrastou-a para o quarto, onde a joga
sobre a cama.
-
Sabe que você está gostosa. Esse teu peitinho me deixou com tesão.
Jogou-se
sobre ela, que pressente que poderá ser estuprada pelo marido e reage como
pode. Arranhando-o, chutando e gritando. Ele como estava muito bêbado, com os
empurrões caiu da cama e levantou-se cambaleante.
-
Fica aí sua vaca. Depois que eles forem embora, a gente conversa.
Ela
tratou de se trancar no quarto, chorando. O sentimento que sentira dias atrás
se alastrou pelo corpo, sentiu-se um nada. Não via respeito e nem amor em seu
marido. Lentamente, com o passar dos anos a relação de entendimento e afeto
fora diminuindo. Às vezes predispunha-se a atendê-lo nas suas investidas
sexuais, mas não havia mais sentimento de amor e de carinho. Sentia-se um mero
objeto para seu prazer. E o fazia para manter a estabilidade da família.
Só
abriu a porta quando o filho chegou.
-
Mãe, você não pode continuar com essa vida. Dá um duro para manter nossa casa e
é tratada com desprezo por quem devia te cuidar. Você não depende em nada dele.
Procure uma saída, converse com o pastor Josué, ele pode aconselhar o que é
melhor a ser feito.
Ao
conversar com o pastor, foi aconselhada a ter paciência, que o papel da mulher
é obedecer ao marido e ajudá-lo a seguir um bom caminho, estava na mulher o
equilíbrio da família.
Ele e a esposa foram fazer uma visita à casa
de Marinalva com a presença do marido e conversarem. Vlado, seguindo um roteiro
já conhecido de arrependimento, propôs se remediar, passar a participar dos
Alcoólatras Anônimos e jurou nunca mais agredir a esposa, pois, a amava, e como
dissera o Pastor ela era o bastião sagrado da família e precisava ser respeitada.
Durou
três dias, quando ao voltar à tarde, o encontrou alcoolizado na sala e ao
perguntar por que não estava trabalhando, respondeu ter sido mandado embora,
por intriga de um faxineiro que queria sua função de porteiro. Situação e desculpas comuns às inúmeras vezes
em que perdera o emprego.
Novamente
a agarrou pelo pescoço - prometeu matá-la se falasse com mais alguém sobre seu
relacionamento - como fizera com o Pastor. Começou a beijá-la percorrendo o
pescoço e baixando sua blusa até os seios. Suas palavras eram de ódio, sua ação
de violência e seus olhos refletiam ira.
Esbravejando
que ele era o homem da casa, imprensando-a contra a parede e, praticamente
cuspindo em sua cara vociferou que ela era sua mulher e deveria obedecê-lo,
inclusive sexualmente, como queria naquele momento.
Marinalva
reagiu, gritando, empurrando-o, tentando afrouxar a pressão no pescoço, e dar
uma joelhada para se livrar. Ele, ensandecido empurrava-a para a cama e com uma
das mãos levantava-lhe a saia, tratando de arrancar a calcinha. Derrubou-a na
cama.
Ela,
em pânico, sentia ter cada vez menos forças para se defender. Seus gritos, que
eram agudos, se tornaram sussurros por causa da pressão sofrida na traqueia. A
única coisa que via eram seus olhos, dilatados, avermelhados, animalescos.
Estava se dando por vencida. Levou um murro na boca apagando-a por momentos.
Ele abre suas pernas. Acordou com uma dor no ventre, era ele penetrando-a com violência
e a machucando. Impotência, insegurança e medo foram o que sentiu enquanto a
dor aumentava.
Nesse
instante, seu filho chegou, pegou uma cadeira e bateu no pai, que caiu no chão,
dando tempo de levantá-la da cama, subir-lhe a blusa cobrindo os seios e
empurrá-la para a sala. Fechou a porta e com os pedaços da cadeira quebrada
passou a bater no pai, até que teve um ataque de choro e caiu prostrado no
chão.
Um
forte sentimento de culpa apossou-se dele, pois era seu pai, mas não podia
permitir a forma como tratava a mãe. Levantou o pai, levou-o até a porta da frente
e o empurrou escada abaixo, onde ele ficou vociferando, segurando-se na mureta,
mal ficando em pé. Contrário aos desejos da mãe, chamou a polícia, que tardou a
chegar, seguindo todos para a delegacia, debaixo dos olhares e comentários dos
vizinhos.
Era
o início do surgimento da Lei Maria da Penha, e a delegacia ainda estava mal preparada
para um atendimento apropriado, Foi aberto um boletim de ocorrência, ela foi encaminhada
para exame de corpo de delito e o agressor permaneceu preso por alguns dias. Para
ela foi uma noite longa de cansaço, dor e vergonha, tendo que se expor para
exames.
Marinalva
não teve condições de trabalhar no dia seguinte e seu filho não quis ir à
escola nem ao trabalho. Ela, pelas feridas físicas e emocionais, e o filho com
receio do retorno do pai.
Dois
dias depois foi trabalhar em uma casa onde a patroa, Margô, a tinha em grande
consideração e sempre a aconselhava. Ao saber o que houve, conversou com sua
amiga advogada, Carla, que se propôs assumir o caso “pro bono”, ou seja, gratuitamente.
Margô propôs-se a pagar qualquer despesa que houvesse.
Marinalva
ficou em dúvida. As palavras polícia, advogada, audiência trouxeram grande
receio. Ele era seu marido e era a sua família em jogo. Margô a incentiva a utilizar os serviços de
sua amiga, mas ela se mostrava relutante. Margô lhe dize:
-
Marinalva, tudo começa com agressões muitas vezes seguidas de arrependimento.
Só que as agressões vão aumentando, ficando cada vez mais violentas. Não te
respeita, age como se fosse o teu dono e não teu marido. Vai aumentando, até
que, acaba em morte. Temos muitos casos, em nosso país, de violência doméstica
que acabam em feminicídio, ou seja, mulher morta pelo companheiro, e se
desenvolvem como está ocorrendo contigo. Cuidado, não deixe que aconteça
contigo.
Marinalva
mergulhou em noites de insônia. O que fazer? Era o pai do seu filho. Recordava as
lembranças boas que viveram, as dificuldades do início de vida que enfrentaram
a dois, as conquistas. Agora se pergunta: onde está o amor que os uniu? Não tem
coragem de dar esse passo.
Cada
noite que volta do serviço, seu coração se acelera à medida que chega a seu
ponto de ônibus. O sentimento de medo toma seu corpo, começando na boca do estômago,
indo para o coração, sobe pela garganta deixando a boca seca. A cada passo, na
rua, ouve o bater do coração, compassando com o caminhar. O ouvido se apura
para perceber se alguém se aproxima.
Tenta
andar junto de pessoas, mas há momentos que não é possível. Cada entrada de rua
deserta, cada subida de ruela erma se pergunta:
-
Estará me esperando?
Numa
das vezes, ao virar uma esquina, uma sombra.
Era ele!
Sentiu
as pernas pesadas, os braços caídos, não tinha força para correr e não tinha
voz para gritar. Teve que se esforçar em continuar caminhando. Ao final era um
vizinho que vinha em sentido contrário.
Precisou
sentar em uma mureta, pois, o cansaço era enorme e seu corpo só queria se
largar em qualquer lugar.
Chegou
em casa quase sem forças e ao se aproximar, observa as janelas, a porta, o
portão na busca de algum sinal da presença do marido. Tensão. O que a faz
entrar é a preocupação com o filho. Novos sentimentos de angústia, esperando
que ele esteja bem, em casa.
-
Terá invadido a casa, estará meu filho bem, não terá encontrado o pai e tido
uma desavença? O que vou encontrar?
Ao
entrar, a porta da casa parece ter quilos de peso, o mínimo ruído que faz lhe
parece um grito de chamada de atenção. Lentamente entra e se dirige em direção
à sala onde nota alguma movimentação.
Graça a Deus era seu filho e estava bem. O
abraça como se não o visse há anos. Ele sente o medo no abraço da mãe, que
também está dentro dele.
Ela
vai para o quarto deitar um pouco, antes de acabar a janta que o filho começou.
Está exausta. O cansaço do percurso até em casa é maior que o cansaço do
trabalho do dia.
Sua
patroa, cada vez que a encontra lembra da importância de tomar medidas
judiciais. E lhe alerta:
-
Quando tudo estiver mais calmo e achar que está tudo bem, ele vai aparecer.
Pode se preparar para isso. Homem, como seu marido, não presta e, portanto, vai
voltar com as mesmas atitudes. Serão novas agressões. Digo as minhas filhas: a
mulher tem que se dar o respeito. Sem dúvida, homem nenhum pode desrespeitar
uma mulher, seja aonde for e como for. Entretanto, se a mulher tem postura,
inibe algumas investidas.
Marinalva
continua agoniada, mas, não tem coragem de tomar novas medidas.
Vai
se passando o tempo, sem ele aparecer. Cada dia tem a sua tensão que pouco a
pouco vai diminuindo, acreditando que não mais virá, por já ter passado por
prisão, além dos boletins de ocorrência que ela fizera.
Certo
dia, no retorno para casa, uma conhecida, no ônibus, disse que o viram pelo
bairro. Sentiu-se mal, tiveram que lhe dar espaço para sentar, pois, ficou
branca e quase caiu.
-
Desculpe, com o calor a minha pressão caiu.
Fez o percurso até em casa tomada de terror.
No dia seguinte vai até a casa de sua irmã Marilene e conta o que ouviu.
-
Mana, você tem que fazer o que tua patroa falou. Fora isso, eu tive uma
indicação que pode te ajudar. É a Dona Juréia.
-
Dona Juréia que eu saiba é benzedeira.
-
Ela é benzedeira, mas também é uma senhora de idade, bastante respeitada na
comunidade, e te dará conselhos do que fazer. Muita gente me recomendou que
você falasse com ela.
Foi,
não tinha nada a perder. A Dona Juréia a atendeu com muito carinho e atenção.
Já tinha ouvido falar da sua situação. E acompanhada de um cafezinho feito na
hora, e um pedaço de bolo, ouviu as recomendações do que fazer. Ao ir embora
ouviu suas últimas palavras:
-
Faça o que eu disse, mas, não deixe de atender o que tua patroa te orientou, é
importante. Procure a justiça e a única forma de distanciá-lo e dar segurança a
você e ao teu filho.
Foi
embora com as orientações recebida, ainda resistente. Mas, infelizmente, tomada
de medo, sentindo-se insegura.
Em
um sábado, ao retornar do trabalho vê uma luz acesa em casa. Fica assustada. O
filho naquele dia iria para a casa da irmã, pois, tinha folga e sairia com os
primos. Torcia para ter esquecido acesa ao sair, pois, haviam trocado as
fechaduras da casa e até grade colocaram em algumas janelas.
Ao
entrar, lá estava ele. Sentado no sofá, tomando cerveja e pinga e assistindo
televisão.
Medo,
insegurança, terror tomaram seu corpo. Fez força para manter a voz e dizer:
-
O que está fazendo aqui? Como entrou?
Depois
veio a saber que arrebentou o basculante da janela do banheiro e entrou.
-
Vim passar o fim de semana na minha casa. Ver minha mulher. Faz uma comidinha e
a gente almoçar juntos.
Apavorada
e desejando que não se altere, vai para a cozinha fazer algo. Demora com almoço
na esperança em que ele passe o tempo bebendo, pois viu na geladeira várias
garrafas de cerveja e sobre a mesa algumas de pinga. Coloca alguns salgadinhos
em um pote e leva até a sala.
-
Assim que eu gosto de ver.
Acaricia
suas nádegas, alguns pequenos apertões e tapas.
-
Minha mulherzinha gostosa!
Depois
de esquentar um feijão, fazer um arroz e fritar dois ovos, o chama para a mesa.
Vem cambaleante e quase cai da cadeira. A abraça pela cintura
-
Este é meu amorzinho.
-
Come, e depois propõe que ele deita um pouco em sua cama para descansar.
-
Nossa cama, que bom. Depois você vem junto?
-
Se você ficar bonzinho eu até vou.
Com
dificuldade consegue leva-lo até a cama.
Quando
já está dormido, ou seja, mais desmaiado que dormido, pega sua bolsa e sai. Vai
seguir as orientações da Dona Jureia. Sobe o morro e embrenha-se na favela. É
parada três ruas acima por dois marmanjos de armas na mão.
-
Tia o que tá fazendo aqui?
-
Eu quero falar com o Pezão, foi a Dona Juréia quem mandou procurá-lo –
respondeu com a voz trêmula.
Pezão
é o chefe do tráfico na região, comanda tudo o que acontece na comunidade e em
volta.
O
nome da Dona Juréia desperta a atenção dos rapazes que se comunicam com alguém
por rádio, celular ou o que quer que fosse.
-
Vamos.
Sobem
algumas ruelas, parando em uma delas. Vem uma pessoa e lhe coloca um capuz. Seu
coração se acelera, parece que irá sair pela boca. Caminha insegura, apoiada e
apoiando-se nos dois rapazes. Tropeça, mal consegue pisar, vai sendo levada.
Após
várias quebradas, nota que entrou em uma casa onde lhe retiram o capuz. Na sua
frente, sentado em uma cadeira, está um rapaz de pouco mais que trinta anos com
rosto jovem, mas duro.
-
A Dona Juréia mandou a senhora falar comigo, pra quê?
Titubeando
nas palavras, tremendo, relata o que acontece no seu relacionamento com o
marido, as medidas que tomou e o medo que vive. Ressaltou, que no momento ele está
deitado em sua cama bêbado, após ter arrebentado a janela do banheiro.
-
Eu conheço teu marido dos botecos. Já ouvi várias histórias dele. É metido a
malandro e valentão com quem é mais fraco. Não presta. Vou te ajudar.
Chama
um pessoal e passa instruções.
-
Eles irão contigo até tua casa.
Novamente
um percurso com capuz. Quando o tiraram, observou que era quatro pessoas lhe
acompanhando. Nenhum dos rapazes iniciais.
Ao
chegar em casa, ordenaram que aguardasse fora. Depois de alguma gritaria,
saíram trazendo seu marido arrastado. Ele gritando que estava em sua casa. Ao
chegar na rua e ao vê-la, entende o que estava acontecendo.
Ela
tensa pela gritaria, pelas pessoas a sua volta e a forma agressiva como Vlado
estava sendo retirado. Suas pernas mal sustentavam seu corpo. A sorte é que alguns
vizinhos saíram, principalmente mulheres, e se puseram ao seu lado, pois, entendiam
o que ocorria.
Na
falta da presença da JUSTIÇA lhe protegendo a (in)JUSTIÇA do povão atuou. O MEDO
combatendo o MEDO.
O
colocaram em um carro e saíram.
Veio
a saber que deram uma surra no marido e ameaçaram-no a não aparecer pelo
pedaço.
Seu
filho que ainda considerava o pai e tinha a esperança que saísse da bebida, o
procurava periodicamente, para se verem, trouxe essa informação. Soube pelo filho que o marido estava com medo
de aparecer no bairro e estava tomando mais cuidado com a bebida, pois, não
tinha a esposa para se escorar financeiramente.
Ao
contar para Margô, sua patroa, o ocorrido esta lhe alertou que isso poderia
parar os incômodos por parte dele, por um tempo, mas que o ideal era utilizar de
medidas legais para o afastar e protege-la legalmente. Se não fosse por ela que
fosse pelo filho.
Marinalva
passou um tempo indecisa, acreditava que o ocorrido resolveria a questão, o
marido não mais lhe incomodaria. Seu filho, apesar de ter pena do pai e de
tratar de ter contato com ele, concordava com sua patroa. Deveria buscar a lei.
Ela lembrou das palavras da Dona Juréia, a benzedeira:
“Faça
o que eu disse, mas, não deixe de fazer o que tua patroa te orientou, é
importante.”
Porém
manteve-se com a mesma opinião, não iria acabar de vez com sua família buscando
a lei. Tinha esperança que ele aprendesse a última lição.
Alguns
meses passaram, até que em um dia, uma vizinha veio correndo dizer que seu
marido o encontrara em boteco próximo do bairro. Dizia que iria voltar para casa, que era sua.
Tinha amigos que o protegeria se necessário.
Ao
conversar com sua irmã do medo que estava sentindo e do receio que algo
acontecesse ao seu filho e após muita insistência dela, resolveu procurar a
Dra. Carla.
Ela
entrou imediatamente com a denúncia de agressão, estupro, invasão e solicitou o
afastamento do agressor da casa e a proibição de aproximação da mulher. Solicitou
separação e o pagamento de pensão para o filho.
-
Dra., ele não ganha nem para si, quanto mais para o filho.
-
Tudo bem, só que hoje em dia, da forma como a lei vem evoluindo, a falta de
pagamento de pensão leva a pessoa a prisão. Poderemos vir a utilizar esta
possibilidade como pressão, se necessário, no futuro.
Tratou
de obter o endereço em que trabalhava para que recebesse todas as notificações,
de forma que se preocupasse e se acautelasse de se aproximar.
A
Juíza foi clara para Marinalva:
- Se a senhora não desse um basta ao seu marido,
as agressões iriam aumentar, e o final poderia ser a sua a morte. Temos um
número grande de feminicídios acontecendo. A mulher tem que se proteger dos
relacionamentos abusivos, que podem não ser agressivos, mas morais, sexuais e financeiros.
Muitos homens acreditam que a mulher é posse dele. Por machismo, por ciúme,
seja pelo que for, abusam de suas mulheres. O feminicídio é algo que ocorre nos
país inteiro, não escolhe classe social.
O
casamento tem que ser uma parceria com muito respeito. Caso tenha alguma
conhecida, casada ou não, que passa por essas situações, com ela, filha,
enteada diga que denuncie pelo 180 que tomaremos providência e a ajudaremos,
hoje a lei está promulgada, precisamos trabalhar para que seja melhor aplicada.
Que as mulheres nessa situação tenham uma melhor acolhida pela lei e pela
sociedade.
As
mulheres precisam se unir e se proteger.
Com
alguns pequenos contratempos jurídicos, resolvidos pela sua advogada, com o
tempo, Marinalva veio a ter uma nova vida. Recomeço que a levou a novas
alegrias e resultados. O filho no futuro veio a se casar. Ela com o trabalho,
comprou um pequeno apartamento perto do filho, que se mudara para Itaquera, e
lhe proporcionou dois netos. Trabalha, namora, passeia e curte a família.
mldal
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