O título
parece provocativo, pois o sentido de "comer' é o popularmente utilizado para designar uma
relação sexual. Pelo título, já se sabe
qual é a grande resposta que se buscará na história. O leitor saberá de antemão quem comeu Mainha, aliás, nome pelo qual carinhosamente se chama a mãe no Nordeste de nosso país. Mas qual será a reação de alguns personagens ao saberem da resposta?
Nesta
história, teremos a oportunidade de conhecer, um pouco decomo a moral pode
variar em sua interpretação.
Busco
histórias para colocar no papel, pois vejo nisso uma forma de perpetuar
momentos, sentimentos e a arte de viver. A realidade está sempre escondida
por trás de farsas, pastelões e dramas, mas, sempre como uma faca apontada para
o coração dos personagens. Eles se
parecem muito, mudando somente os endereços, as roupas, as dores e as alegrias, mas conservando a insana, maravilhosa, dolorida, triste, empolgante e, às vezes, inexplicável
forma de viver.
Esta
história me custou vários pratos de torresmo, ovos coloridos e goles de
branquinha. Foi-me contada por um dos principais personagens. Perdoem-me, leitores, mas, em alguns momentos, não resisti e permiti que minha mente voasse
por situações que não foram citadas ou detalhadas, mas que instigaram a minha
imaginação de escritor. Carlos Pereira, meu amigo e escritor especialista em romances
históricos, me disse: Quando temos uma inspiração, surja seja ela de onde for, precisamos
deixar a imaginação correr, pois o que preenche a vida de um escritor é
escrever. É o que vou fazer.
Areia Santa, nos anos 1960, era uma cidade de 2.000 habitantes, na costa norte do Ceará, próxima ao Piauí, a quatro horas de ônibus de Fortaleza. O ônibus só chegava ao local uma vez por semana, percorrendo um bom pedaço de estrada de terra, no meio da Caatinga. Era um paraíso, com suas praias desertas, coqueirais, dunas e alguns remansos que se formavam junto ao rio que descia da Serra de Ibiapaba e que, de tempos em tempos, secava em seu caminhar, obrigando durante o ano, os moradores a guardar água.
A cidade se formou a partir de uma vila de pescadores, que teve seu início com pesca de curral e de lagostas por meio de armadilhas, chamadas manzuás. A pesca de curral, era a tradicional, feita através da construção de cercados próximos à praia, para quando a maré baixasse os peixes ficassem presos.
Em determinada época, houve
uma piora nos currais, afetando os vaqueiros do mar, o que os levou a
desenvolver a pesca de linha. Com isso,
havia uma boa quantidade de embarcações, canoas, jangadas, paquetes e botes,
que variavam nas suas estruturas conforme o tipo de pesca. A de alto mar era
chamada de pesca de fora, e de terra, a próxima à praia. Uma se praticava no mar
de fora e a outra no mar de terra, na linguagem dos pescadores.
Graças aos
bons resultados que a pesca trouxe, pouco a pouco, a cidade crescia, inclusive
com a vinda de pescadores de outras cidades como Mandau, Sabiaguaba, Baleia e
outras. Uma embarcação, três vezes
por semana, passava pela cidade e levava os peixes e frutos do mar para
Fortaleza.
Os que não
trabalhavam na pesca o faziam nas terras do Coronel Cupertino, dono de
extensões na região. Possuía cultivos de feijão, milho, mandioca, banana,
babaçu, carnaúba, além dos grandes coqueirais. Era, também, proprietário de grandes
rebanhos de cabras, necessitando de mão de obra para cuidar dos chiqueiros, das ordenhas e do aproveitamento do leite, gerando produtos que transportava para a
capital.
Era uma
cidade pacata, possuindo a Igreja de Bom Jesus, cujo pároco era o Monsenhor
Dárcio, extremamente conservador, protegido do Coronel Cupertino, que resolvera viver os últimos anos de vida na região, visto já ter 82 anos. Na praça
principal, de frente para o mar, onde se realizavam as festas da cidade, estavam a Igreja e as casas das pessoas mais importantes. O traçado da cidade se compunha
da praça, das ruas que dela partem e as paralelas. A maioria dos pescadores, vivia no bairro do
Encantado, localizado próximo ao mar em uma vila própria, à direita do centro
da cidade.
Na praça, um dos pontos principais era o estabelecimento que reunia bar, mercearia, farmácia, material de pesca, ferramentas, agropecuária, ou seja, tudo o que se precisava na cidade em um só lugar. Estabelecimento de propriedade do Deoclécio, que quando não tinha o produto, encomendava-o e o trazia através dos barcos.
Deoclécio, um dos personagens
principais de nossa história, tem 72 anos e estava na cidade, desde que era um
pequeno povoado, tendo começado como pescador e em pouco tempo aberto uma pequena
venda. É extremamente respeitado e querido na cidade, ao ser, praticamente, o
médico e veterinário, indicando medicamentos. É casado com Mariana, com
40 anos menos que ele.
Quando ela
tinha 15 anos, ele se engraçou e, abusando da sua inocência, acabou
engravidando-a. Só não sabia das consequências. Um dia, entra em sua venda
Justino, cabra-da-peste, jagunço do Coronel Cupertino, com um trabuco pendurado
nas costas e uma peixeira na mão.
- Filho de
uma égua, você buliu com minha filha. Ela era moça e você fez mal. Descabaçou a
menina, e ela não vai virar quenga. Ou casa, ou morre.
Tremendo e
com um olhar de medo, pois não sabia que o jagunço era pai de Mariana, teve
que dizer sim. No fundo, ficou contente, pois gostava dela, além de ser uma
menina apetrechada, um pitéu. No futuro, iria desabrochar em uma linda mulher.
Era sopa no mel.
Casaram-se. Aos dezesseis anos, ela foi mãe de Washinton. O garoto era cuspido e escarrado a cara
do pai. O menino, agora com dezesseis anos, tendo completado os estudos iniciais
na cidade, na escola que a comunidade mantinha pagando e dando moradia e
comida para dois professores, fora mandado para a capital, para casa de
uma prima, a fim de continuar os estudos e se formar advogado. Ser um doutor, como dizia o pai.
Quando criança, Washinton chamava a mãe de Mainha. Era tanto Mainha para cá, Mainha para lá, que até Deoclécio, também, começou a chamar Mariana de Mainha. Como a cidade toda circulava pelo seu estabelecimento e ele se referia à mulher por esse nome, começaram a chamá-la assim. Pouca gente, hoje, deve se lembrar do seu verdadeiro nome.
Duas vezes, por semana, à noite e no domingo pela manhã,
Mainha costuma ir à missa, onde participa da Legião do Sagrado Coração de
Jesus. A presidente, Dona Joana, por não ter uma filha, tem por ela um amor de
mãe. É difícil alguém não gostar dela. É uma mulher delicada no falar, com um
olhar brilhante e um sorriso cativante. Atende a qualquer um que lhe solicite ajuda, estando sempre disposta, com isso, é muito querida na comunidade.
O que
ninguém sabe é que tem dentro de si um fogo ardente de desejo. Está com 32
anos, na plenitude como mulher, e tendo o marido com 72 anos. Muito carinhoso e atencioso, mas, negando fogo. Quando se deitava à tarde, depois do marido
almoçar e retornar ao trabalho, no escuro do quarto, sentia uma força percorrer o corpo, levando-a a pensamentos prazerosos, que lhe tomavam o peito, aguçavam o ventre e umedeciam o sexo. Era algo que nunca sentira com o marido. Corria a
mão pelo corpo e tinha reações desconhecidas. Todos os poros reagiam ao seu
toque e se transformando-se em gemidos, até atingir o ápice, prostrando-a na cama.
Ficava longos momentos desfrutando a sensação de bem-estar e relaxamento.
Dona Joana,
presidente do Coração de Jesus, mulher madura e sábia, curtida da vida por uma
separação, uma viuvez e três filhos criados, um dia disse a Antônia, sua amiga íntima
da Legião:
- Antônia,
estou preocupada com Mainha. Mulher bonita, bem formada de corpo, plena de vida
e um marido velho, que deve negar fogo na cama. Isso me preocupa, ainda mais
que está sozinha, o filho foi para a capital. Como o povo costuma dizer, é uma viúva
de marido vivo. A mulher se entristece, fica borocoxô ou acaba corneando o
marido. Homem nenhum gosta de ter um chapéu de touro. Pode dar em morte.
Deoclécio era arriado por ela e tinha um grande ciúme da mulher. Temia o assédio dos homens; por isso, pedia que fosse ao estabelecimento somente quando necessário. Sabia da beleza da mulher, tanto que, quando tomava banho de mar com algumas mulheres de pescadores, como não tinham roupa de banho, entravam de vestido no mar - no momento que saia, ele percebia o olhares de desejos dos homens em Mainha. Seios rijos, mamilos saltando do vestido, a saia grudando na bunda e marcando as formas bem proporcionais, tanto na frente quanto atrás. Tinha cabelos pretos até os ombros, olhos da mesma cor e uma pele jambo, que sob o sol tornava-se dourada.
Sempre que podia, criava um empecilho para que a mulher não fosse para
o mar. Mainha ria e brincava como uma criança inocente. Ela não lhe dava
nenhuma razão para suspeita. Estava sempre animada e amorosa com ele. Cuidava
de tudo o que envolvia sua pessoa com muito carinho. Vivia procurando-o na
cama, mas aí estava o perigo: ele não estava dando pro couro.
Surgiu em
Areia Santa uma pessoa nova no pedaço. Normalmente, qualquer um chamaria a
atenção, mas no caso em questão, chamou ainda mais. Era um homem pintoso, em
torno dos quarenta anos, com barba bem aparada e bem vestido. Era alto, 1,74
m, mais ou menos, magro, com um olhar firme e um leve sorriso, e muito
atraente. Logo souberam que seu nome era Renato e que estava a serviço do Coronel
Cupertino, tanto que morava em uma das casas de sua propriedade. Podemos
imaginar o festival de comentários que correu o povoado, fora o frenesi entre
as mulheres solteiras e algumas casadas. Ele mal parava na cidade, diariamente dirigia-se as fazendas do Coronel.
O corre,
corre de informações e boatos, logo revelou que era advogado, morava na capital,
era casado, tinha mulher, um casal de filhos e cuidava dos diversos negócios do
Coronel. Permaneceria alguns dias na cidade, tendo de viajar para outros
locais, onde o Coronel possuía negócios. Quando estava na cidade almoçava na casa da
Marola, em um acerto que devem ter entabulado, e não era visto pelas ruas à
noite. No bar do Deoclécio, parou certa vez, tomou um café com leite e
comeu uma broa de milho, trocando alguns dedos de prosa. A impressão que deixou
foi boa.
A casa onde Renato se hospedava ficava no terreno nos fundos da casa de Mainha, com frente para a outra rua e, como a dela e poucas outras da cidade, possuía um andar superior. Alguns dias após a sua chegada, estava Mainha no quarto superior trocando-se e passando em frente à janela de calcinha e sutiã, quando reparou, que ele estava parado diante da janela, observando-a. Rapidamente, correu para um dos cantos, escondendo-se.
Ela sabia quem era pelos comentários que escutara, entre as mulheres na igreja e por tê-lo visto à distância. Ficou envergonhada, pensando na cena. À noite, na cama, quando Deoclécio pegou no sono, vencido pelo cansaço de um dia de trabalho, que normalmente extenso, ela começou a divagar. A ideia de se imaginar observada em roupas íntimas lhe aqueceu o corpo, gerando pensamentos úmidos. Teve dificuldade para pegar no sono.
No dia seguinte, no mesmo horário do anterior, um pouquinho depois do almoço, quando Deoclécio voltara para o trabalho, olhou pela janela e não viu ninguém na casa ao lado. Resolveu passar creme no corpo e preferiu o quarto do fundo por causa da luminosidade que entrava pela janela. Lentamente foi cuidando de si. Repentinamente, notou, pelo canto do olho, que ele a observava.
Teve um estremecimento. Sua primeira reação foi correr e sair da vista, mas parou, continuou lentamente a passar o creme e a usufruir do prazer de ser vista em roupas íntimas. Teve uma sensação de plenitude. Sabia que tinha um corpo perfeito, pois notava os olhares que se voltavam para ela ao passar pela rua e percebia o quanto o marido ficava agitado quando saía do mar com a roupa molhada junto ao corpo. E, o principal de tudo, o espelho lhe dizia a verdade. Era uma mulher na maturidade da vida.
Quando terminou, retirou-se, vestiu-se e sentiu-se extremamente estranha e excitada. Depois, veio-lhe um grande sentimento de
culpa. Como podia ser tão desavergonhada? Como podia fazer aquilo, manchando a
honra do seu marido? Ela era uma mulher casada e bem casada, mãe de um filho
já crescido. Foi uma noite de sono difícil, na fronteira entre a vergonha e o prazer.
Como escritor, permitam que eu interrompa: não querendo interromper, mas, já interrompendo. Quero relembrar, que ela era uma linda mulher, abusada aos quinze anos, mãe aos dezesseis, e tivera que se casar com um homem quarenta anos mais velho, que sempre a tratou bem, proporcionando-lhe uma boa condição de vida, mas que, já por algum tempo, não se apresentava plenamente na cama.
Lembro que estamos em uma região impregnada de machismo, onde a mulher existia para servir ao homem. Na cama, após uma rápida relação, eles se voltavam buscando o sono e deixando as mulheres perdidas, a meio caminho de um prazer mais intenso, fazendo-as se sentirem meras receptoras dos seus gozos. Os desejos se perdiam no ar.
- Vai
continuar a história ou vai ficar na prosopopeia? – grita alguém.
Calma, já
continuo. Ocorre que tudo isso me foi contado por um homem, que pôde
relatar o que sentia na época. Entretanto, com Mainha, a personagem
principal da história, não conversei. Portanto, é meu meu dever de
escritor relatar o que ela possivelmente, vivia, valendo-me dos meus parcos
conhecimentos sobre as sutilezas e complexidades de ser mulher. Dizem que os
autores definem os destinos de seus personagens. Neste caso, o destino já
estava traçado, pois estou narrando algo já acontecido, mas a personagem
agarrou-me pelos sentimentos, e intercederei por ela, tentando mostrar o
que lhe acontecia na alma. Continuando.
Passaram-se
algumas semanas sem que Renato estivesse na cidade. Fora para o sul do estado,
tratando de negócios do Coronel. Mainha não precisou perguntar por ele: os
comentários brotavam como água em tempo de chuva. Aquele período
acalmou sua dor de consciência, enquanto no corpo, desejos tenebrosos se
avolumavam, levando-a a buscar prazeres solitários. Sentia como se estivesse
vivendo entre o céu e o inferno. Havia momentos de paz, nos quais afastava maus
pensamentos e se agarrava aos conceitos morais de ser uma mulher casada; em
outros, ardia no fogo do desejo. Não bastava lavar o rosto ou tomar banhos de
água fria.
Após algumas
semanas, ele retornou à cidade. Por vários
dias, não havia ninguém na casa à tarde, mas, em um deles, lá estava, no quarto,
sentado a uma mesa escrevendo de frente para a janela, de onde, de vez em quando levantava os olhos. Em determinado momento, seus olhares se cruzaram. Foi como
se uma faísca tivesse se interposto entre os dois. A faísca percorreu todo
o corpo de Mainha; o coração acelerou, a respiração se tornou ofegante e um
calor se espalhou. Tratou de se retirar rapidamente da janela. Desceu, foi à cozinha beber água, abriu mais a janela e sentou para se acalmar.
Bateram à
porta. Estremeceu. O normal era baterem palmas. Os pensamentos correram para
vários lados. Não sabia bem o que pensar. O coração disparou. Agoniada foi abrir. Era ele. Lindo, sorridente
e com brilho nos olhos.
- Boa tarde,
posso entrar?
Após um
ligeiro vacilo:
- Pode, senta. Quer algo pra beber?
- Aceito. Um
copo de água.
Foi buscar,
teve dificuldade para andar, pois sabia que ele a observava. Reparou que estava com uma simples
roupa de estar em casa, bem leve por causa do calor, com os seios à mostra em um decote
generoso.
- Vou
colocar um roupão. Não estou arrumada.
- Não. Você
está linda assim.
- Não me olhe assim. O Senhor deveria ter tido,
outro dia, a decência de não ficar me olhando pela janela.
- O belo, sendo mostrado, deve ser admirado.
Ela estava bem
próxima, após entregar-lhe o copo de água. Os olhares trocavam mensagens ardentes.
Ele se levantou e, delicadamente beijou seus lábios. Não resistindo, ela entregou-se ao beijo: boca com boca, línguas e gemidos. Corpo contra corpo, os desejos transpiravam pelos poros. As mãos dele corriam pelo tecido e pelo
decote, libertando os seios para serem usufruídos pelos lábios; desciam, levantavam a saia, entrando pela calcinha e gerando mais desejo.
Pegou-o pela mão e correu para o quarto. Roupas foram sendo tiradas no anseio de se verem e se tocarem. Botões saltaram pelo ambiente. O som forte da fivela do cinto no chão, sapatos, meias; sutiã que se rompe, calcinha alargada no elástico e tirada no movimentar das pernas. O contraste dos cabelos negros e do corpo dourado de Mainha, com o branco, quase ruivo de Renato, forma um quadro de sensualidade e de beleza.
A amplitude de seu membro, o
toque, a penetração sôfrega, inicialmente, e aos poucos, gradual, compassando
os desejos de ambos, enquanto as línguas se entrelaçavam e os lábios apenas espremiam
gemidos e desejos. O ápice teve que ser abafado com a mão, para que não se espalhasse pela casa. Sentiu-se plena, desejada,
satisfeita e, de uma forma inusitada, relaxada, como se todos os músculos do
corpo estivessem em estado de torpor.
Para Mainha, o acontecido caiu com todo o peso que a consciência podia gerar. Chorou, rezou, lamentou ter-se deixado levar pelo desejo, suplantando o peso moral do ocorrido. Noites e dias de angustia. Para ela era a briga entre o bem e o mal. Sumiu por um tempo da igreja, pois, não conseguia encarar suas amigas e não pretendia expor em confissão, ao padre, o que tinha vivido.
Entretanto, os apelos do corpo venceram a batalha. Os dois,
quando ele estava na cidade, passaram a se encontrar uma ou duas vezes por
semana. Ele vinha à tarde, chegando à casa pelos fundos, passando
pela cerca, de forma que não fosse visto.
No dia a dia, Mainha passou a sentir-se renascida, apesar do peso constante do pecado não relatado no confessionário. Tratava de amenizá-lo com uma participação maior nas missas e nas atividades do Coração de Jesus. Estava sempre disposta a tudo e ajudar os que
necessitassem de sua ajuda. Atendia tantas pessoas que começou a ser chamada de "Mainha dos pobres".
Dona Joana,
presidente da Legião, comentou com a amiga Antônia:
- Reparou
como Mainha anda com uma expressão de satisfação, alegre e bastante animada com
as nossas atividades? Tem um novo ar no rosto, parece mais jovem, parece ter
renascido. Espero que não esteja fazendo bobagem.
Suas suspeitas se aguçaram quando, voltando com Antônia da casa de uma das famílias assistidas, pela rua de Mainha, viu o advogado Renato sendo recebido e colocado para dentro.
Após uma vista pela rua, para ver se alguém os vira, o olhar de
Mainha se encontrou com o de Dona Joana. No dela, um olhar de apavoramento; no
de Dona Joana, de espanto. Renato, excepcionalmente, viera pela frente, pois o
Coronel Cupertino ficara na casa, onde resolvera tirar uma soneca, para depois
seguir viagem para a fazenda. Não queria ser pego atravessando a cerca.
Mainha, alegando indisposição, pediu a Renato que voltasse outro dia. O medo tomou conta da sua mente. Viu seu nome sendo colocado junto à Legião e ao padre; tudo vazaria pela cidade e a honra de seu marido iria para a lama. Como reagiria Deoclécio? Como poderia andar de cabeça erguida pelos lugares?
Quando o marido chegou do
trabalho, colocou a janta e, alegando mal-estar, foi deitar. Teve uma noite mal
dormida, dominada pelo terror do que poderia acontecer. O inferno
apresentava-se à sua frente.
No dia
seguinte, pela manhã, recebeu um recado de Dona Joana, para ir à sua casa. Teve
uma gastura, foi ao banheiro, quase botando os bofes para fora. Precisou deitar-se um pouco, após tomar algumas gotas de maracujina. Finalmente, não tendo mais
como adiar, levantou-se, tomou um banho, vestiu-se e. jururu, foi para lá.
- Bom dia.
- Bom dia,
entre – disse-lhe Dona Joana – Senta. Quer um café?
Aceitou e
tomou mal comendo um pedaço de bolo que recebeu e escondendo o tremor das mãos que seguravam o pratinho.
- Mainha,
tu sabe que vi o Dr. Renato entrando na tua casa. Que diabéisso que tu tá
fazendo? Não sei qual é a relação dos dois, mas, pela minha experiência e vendo tua
alegria ultimamente, tão animada, imagino o que está acontecendo. Fique tranquila, não estou aqui para reprovar,
mas para alertar. Tu sabes que tenho por ti uma estima de mãe para filha. Admiro a força como levaste a vida, apesar da pouca idade. Não sei até onde o
Deoclécio pode ser uma pessoa violenta. Ele pode ficar abilolado. Tu sabe que homem
nenhum nesta cidade quer ter sua honra manchada. Já tivemos casos de morte.
- Eu sei.
- Mulher,
por aqui, vale tanto quanto uma cabra. Teu marido é velho e tu é nova,
precisando satisfazer o fogo das entranhas. Caso alguma coisa de ruim aconteça,
a culpa será tua. Dirão que teu marido estava limpando a honra. Temo pelo que
pode acontecer, minha filha. O povo é muito enxerido. Parece, que ainda não notaram o que está acontecendo, senão os fuxicos estariam correndo e tu estaria
na boca do povo. Pare enquanto é tempo.
- Dona
Joana, a senhora sabe a estima que te tenho. A quero como mãe e confidente.
Nisso tudo, fico triste e preocupada pelo Deoclécio, que é um homem bom, um
excelente marido. Não sei se consigo parar. Eu renasci. Com o Renato, não é só
a carne. Quando nos deitamos, o desejo, a delicadeza comigo, os carinhos e a vontade
de me fazer feliz, me levam a me sentir mais mulher, em todo sentido. Prefiro a
morte a viver o inferno que vivia dentro de mim.
Dona Joana,
entendendo tudo que se passava dentro de Mainha, mas, receosa do que poderia
acontecer, olhou-a com um ar de tristeza, rogou que tomasse muito cuidado e a
abençoou.
Deoclécio
notava as mudanças em sua mulher. Começou a esquentar a cabeça achando que a mulher estava tendo ou tivera um caso.
- Será que
Mainha está coisando com alguém, me corneando?
Aperreado,
não conseguia prestar atenção no trabalho.
- Quem comeu
Mainha?
Não saia da
sua cabeça essa possibilidade. Na venda, ficava assuntando as conversas das
pessoas enquanto bebericavam e conversavam, tentando ouvir algo. Pegou o
revólver que tinha guardado, em um canto escondido do estabelecimento, limpou-o,
engraxou-o e colocou balas. Temia ter que usá-lo. Andava mal-humorado. A
clientela reclamava que ele estava mudado.
Em casa, era
recebido por Mainha, com muito carinho, cheia de afagos e beijos. Na cama, ela
procurava seus braços, o calor do seu corpo e corria suas mãos por ele. Sempre
fora assim, mas agora, tudo parecia querer esconder algo. Mainha notava a
mudança nele e temia o que isso poderia representar. Por sua vez, Deoclécio,
decidiu que deveria descobrir o que estaria acontecendo.
Deu algumas
saídas, sob algumas desculpas, deixando, por momentos, o estabelecimento nas mãos de um dos empregados e, escondido, observou a casa em horários diferentes.
Chegou a conclusão de que, se algo estivesse ocorrendo, seria à tarde, quando voltava
do almoço.
Numa das
tardes, antes de retornar para o trabalho, depois do almoço, tratou de correr a
cortina da janela da sala, por onde poderia ver, de fora, se havia alguém no
andar de baixo. Deixou a porta de entrada destrancada e mexeu nas fechaduras
dos quartos, de forma que não pudessem ser trancadas. Com a lingueta sem funcionar, as portas ficariam simplesmente encostadas.
Retornou
mais tarde, olhou pela janela e não havia ninguém no andar de baixo. Trocou o
revólver do bolso do paletó para a cintura. Abriu a porta que estava
destrancada, sem fazer barulho, e pé ante pé, entrou. Subiu silenciosamente a
escada. No andar de cima, ouviu ruídos, risos e palavras que vinham do seu
quarto. Foi se aproximando sorrateiramente e com um leve empurrão na porta, abriu uma fresta. Lá estavam Mainha e Renato nus na cama.
Os dois, enroscados em seus desejos. não tinham ideia do que ocorria fora do quarto. Mainha, entregue ao desejo que trazia dentro de si, sentia-se plenamente mulher. Para Renato, aqueles momentos serviam para refazer-lhe o ânimo e abafar a lembrança e o desejo da esposa, além de gostar de Mainha. O trabalho o fazia ficar até dois meses longe de casa. Era muita pressão por parte do Coronel Cupertino e o constante deslocamento por suas diversas propriedade.
Mainha
acreditou ouvir um ruído. Desconfiada da mudança de comportamento de Deoclécio
e preocupada com as palavras de Dona Joana, ficou com a respiração suspensa e os
ouvidos aguçados. Renato lhe pergunta se ocorrera algo, ao sentir a sua mudança.
Sem responder, o enlaçou-o em seus braços, calou-lhe a boca com beijos e o
sentiu dentro de si. Ficaram em um suave balanço, com ela mantendo os sentidos alertas. Se tivesse que morrer, que fosse naquele momento.
A tarde
avançou anunciando a hora de se separarem. Renato saiu pelos fundos, após um
longo beijo. Mainha sabia que algo acontecera, mas não sabia o que. Na cozinha não
havia ninguém e tudo estava igual. Acalmou-se. Quando foi à sala, seu coração
disparou.
Bem tarde da
noite, Deoclécio retornou para casa. Veio pelo caminho ruminando o que havia
acontecido. Tinha receio de encarar o que iria encontrar. Tudo estava apagado,
diferente do normal. Um silêncio tumular cobria o ambiente. O coração
disparava. Com a chave na mão, permaneceu indeciso sobre entrar. A razão dizia que deveria fazê-lo, mas os sentimentos diziam que não. Foi um momento difícil, com a pulsação
a toda, a cabeça doendo, os dedos apertando fortemente a chave e o peito
oprimido como por um abraço mortal.
Abriu a
porta e acendeu a luz. Lá estava ela!
Na poltrona,
com o rosto crispado de preocupação e tendo à sua frente, sobre a mesinha de centro, o
revólver de Deoclécio, lá estava Mainha. Com a voz tentando exprimir calma, mas
falhando diante da ansiedade, perguntou:
- Deoclécio,
o que este revólver está fazendo aqui? Sempre ficou no armazém?
Ele, com uma
voz que não demonstrava a sua força habitual, respondeu:
- Faz tempo
que ele estava guardado e resolvi limpa-lo e engraxa-lo e acabei esquecendo aí.
Ela se
levantou, foi até ele, e olhando em seus olhos, tendo os seus cheios de lágrimas que principiavam a escorrer, abraçou-o. Deoclécio a aninhou nos braços, sentiu
o cheiro do seu cabelo, a maciez e o perfume do seu corpo e pensou:
Como posso
matar esta mulher? Ela vale mais que minha própria vida.
Não saberia viver sem seus carinhos, suas palavras de apoio e
estímulo. Como levantar cada manhã e não ter-la ao meu lado? Eu morreria um
pedaço a cada dia. Pensei em acabar só com ele. Mas a imagem, que vi pela fresta
da porta - dela deitada de frente para ele, com a cabeça sustentada pelo braço e
conversando - mostrou uma mulher alegre, com um olhar de satisfação e carinho.
Se eu o matar, haverá sempre, entre nós, uma nuvem negra. Perderia a mulher que
amo do mesmo jeito.
Mainha, que
costumava, às vezes, preparar algo para o café da tarde e levar para o marido
no estabelecimento, passou a fazer isso com mais frequência, agradando não só ele,
mas todos os que por lá estavam. Eram cuscuz, bolinhos de chuva, bolo de fubá,
curau, pamonha e outras iguarias que deixavam todos com água na boca. Juntos
tomavam café e trocavam conversas. À noite, esperava-o em casa com a comida do
seu agrado, cheia de carinhos e beijos.
- Me desculpem por interromper novamente. Como escritor, tenho que me defender. Tem gente me
criticando pelo final, em uma época em que o machismo era exacerbado,
principalmente no interior do Nordeste. Quero lembrar que narrei o que me foi
contado e assim terminou o relato. O confidente desses fatos foi o Renato, que, após três anos de uma relação maravilhosa, teve que se mudar para o
Sul do país. Sem dúvida, tive muita simpatia pela personagem. Graças à licença, que me é dada como
escritor, posso supor a intimidade dos fatos, o torvelinho dos sentimentos que
envolveram os personagens. Caso alguém não goste, paciência. Eu, do meu lado darei
mais uma pitada final.
O amor e o
carinho entre eles aumentaram; a busca por ela na cama, nem que fosse só por
carinhos, se intensificou. Ela entendia, o quanto ele, queria fazê-la feliz.
Para maior estímulo, fazia comidas afrodisíacas, principalmente caldos de frutos do mar, que produziam melhores resultados. A vida entre eles, adquiriu novas cores.
Um dia, ele a
colocou no colo e, olhando em seus olhos, com muito carinho, disse:
- Um filho que um dia você possa ter, eu irei querer com muito amor.
Ela sabia o
quanto ele sempre quis ter mais um filho, mas, mais que isso, ela entendeu o que ele quis dizer e com lágrimas nos olhos, deu-lhe um beijo.
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