Lucimara,
com 15 anos, morava em uma pequena corrutela à beira da BR-101 no estado das
Alagoas. Eram três dezenas de casas, todas de taipa, no meio do nada, tendo como ponto
principal o posto de gasolina, onde havia restaurante, hospedagem e
estacionamento para pernoite de veículos.
No início da
noite se enchia de caminhões, muitos motoristas montavam suas redes, acendiam
seus fogões, preparavam o chimarrão e abriam seus corotes de cachaça.
Lucimara,
uma morena de olhos escuros e vivos, com um sorriso constante de descoberta,
baixa estatura, já tendo tomado corpo de mulher vistosa. Tinha mais quatro
irmãos, sendo cada um de pais diferentes, desconhecidos e enfurnados na vida.
A mãe
trabalhava de raladeira na fábrica de farinha de mandioca. Vivia cansada,
acabada, carregando mais idade do que tinha. Genésio, o mais velho, vaqueiro na
lida em cidade próxima, aparecia nos finais de semana, para trazer algum e encontrar
as suas “quengas”, como dizia.
Eribelto,
com 17 anos, e Jeferson com 13 anos, trabalhavam em carvoaria próxima por uns
caraminguás. Ela e Pituca, o menor, ficavam
o dia largados, com uma caçarola de feijão e farinha de
mandioca no fogão de lenha, esperando a mãe à noite.
A
necessidade e a fome campeavam na família e nas brigas da mãe com os meninos,
principalmente o mais velho, que lhe deixava muito pouco dinheiro. Dizia
precisar juntar para poder casar.
- Coloca
essa menina pra trabaiá – dizia.
- Ela cuida
da casa – respondia a mãe.
Veio seca
forte, pouco trabalho, Eribelto foi demitido. Ciscava serviços pela cidade e
sertão: carga e descarga de caminhão, capinar roça, e com sorte no manejo de
bodes e cabras, quando algum vaqueiro ficava doente.
A situação era
difícil, muitas noites um mingau de farinha de mandioca, feito com água, pois
leite não tinha. Às vezes umas gorduras, ossos e pelancas de bode numa sopa
rala. Estavam ficando pele e osso. A mãe desesperada, depois de um tempo de
carência, disse à filha em um início de noite:
- Lucimara,
se lava e ponha aquele vestido mais novo que tu tem.
A puxou pela
mão e foram até o posto de gasolina.
Os
caminhoneiros, fazendo seus rangos, mateando, talagando suas bebidas e no
conversê.
- Pessoal me
escuta aqui. Esta é minha filha Lucimara. Ela é virgem. Quem pagá mais vai podê
deitá com ela.
Rebuliço,
alvoroço, conversas e os lances principiam. Ao final, por R$.700,00, saiu o
ganhador.
Na boleia de
um caminhão, Lucimara perdeu a inocência e principiou a se fazer mulher, não
pelas regras, que vieram há um tempo atrás, mas por um corpo, pesado, peludo,
sujo e malcheirosos, com dose extra de bafo de cachaça.
Ao
amanhecer, ao retornar à casa, não se reconhecia. Estava em um novo corpo: o
vestido cobria a nudez, mas não as marcas que a noite havia deixado na carne e
no coração. Lágrimas escorriam-lhe pelo rosto.
Havia mais
duas meninas no pedaço, que também começaram cedo, mas já estavam carcomidas e
velhas. Como ela era carne fresca tinha cinco, seis homens por noite. Pela
falta de experiência a usaram e abusaram no sexo. Tudo fez, tudo experimentou.
Sonhos, só
os parcos que surgiam ao acordar, no meio do dia, depois de uma noite de usos
por quem pagasse, e que se perdiam ao levantar e abrir a janela para a
realidade do novo dia.
Vieram os
frutos: dinheiro, e vieram as dores: gonorreia, cancro e chato. Todos tratados
com os remédios da mãe, inclusive uma beberagem que tomou quando o chico
atrasou. Não sabe se foi a natureza ou o remédio. Não pegou criança.
A vida
melhorou. A mãe e a meninada passaram a ter comida em casa. Carne de vez em
quando. Algumas roupas para todos. Um rádio. Alpargatas e chinelos novos.
Lucimara era
o assunto nas paradas de caminhoneiros e nas conversas que corriam pelos rádios,
seguido dos comentários, os mais escabrosos possíveis, pois passou a ser
conhecida pelas suas facilidades e habilidades no sexo.
De seis a
sete homens por noite, passou a dez ou doze.
Seu corpo
não aguentava mais, sentia-se um trapo. Principiou a sonhar o sonho que muitas
putas sonham: um homem que a tire da vida.
Depois do
sexo, com alguns estendia-se nos carinhos, em busca de um amor verdadeiro, sem
resultados: frustrações, choros, desilusões e um cansaço da vida.
Até que
encontrou Teobaldo. Tinha 28 anos, morava em Cianorte, no Paraná, com a mãe de
idade. Fora o único que lhe tratara como
gente. Escutou suas histórias, tratou-a com carinho e, aconchegando-se em seus
braços, confidenciou-lhe o desejo de uma vida a dois e de uma família. Nas várias idas e
vindas, quando se encontravam, esquecia-se dos outros clientes e sonhavam
sonhos juntos.
Em uma
madrugada, às 3h30, Lucimara, com sua pequena trouxa, beijou seu homem, aboletou-se
na boleia e envolvida pelo vento que o caminhão cortava, começou a dormir e a
sonhar. Ao fundo, uma música embalava o ambiente.
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