19/08/2026

VERGONHA

 


Lucimara, com 15 anos, morava em uma pequena corrutela à beira da BR-101 no estado das Alagoas. Eram três dezenas de casas, todas de taipa, no meio do nada, tendo como ponto principal o posto de gasolina, onde havia restaurante, hospedagem e estacionamento para pernoite de veículos.

No início da noite se enchia de caminhões, muitos motoristas montavam suas redes, acendiam seus fogões, preparavam o chimarrão e abriam seus corotes de cachaça.

Lucimara, uma morena de olhos escuros e vivos, com um sorriso constante de descoberta, baixa estatura, já tendo tomado corpo de mulher vistosa. Tinha mais quatro irmãos, sendo cada um de pais diferentes, desconhecidos e enfurnados na vida.

A mãe trabalhava de raladeira na fábrica de farinha de mandioca. Vivia cansada, acabada, carregando mais idade do que tinha. Genésio, o mais velho, vaqueiro na lida em cidade próxima, aparecia nos finais de semana, para trazer algum e encontrar as suas “quengas”, como dizia.

Eribelto, com 17 anos, e Jeferson com 13 anos, trabalhavam em carvoaria próxima por uns caraminguás.  Ela e Pituca, o menor, ficavam o dia largados, com uma caçarola de feijão e farinha de mandioca no fogão de lenha, esperando a mãe à noite.

A necessidade e a fome campeavam na família e nas brigas da mãe com os meninos, principalmente o mais velho, que lhe deixava muito pouco dinheiro. Dizia precisar juntar para poder casar.

- Coloca essa menina pra trabaiá – dizia.

- Ela cuida da casa – respondia a mãe.

Veio seca forte, pouco trabalho, Eribelto foi demitido. Ciscava serviços pela cidade e sertão: carga e descarga de caminhão, capinar roça, e com sorte no manejo de bodes e cabras, quando algum vaqueiro ficava doente.

A situação era difícil, muitas noites um mingau de farinha de mandioca, feito com água, pois leite não tinha. Às vezes umas gorduras, ossos e pelancas de bode numa sopa rala. Estavam ficando pele e osso. A mãe desesperada, depois de um tempo de carência, disse à filha em um início de noite:

- Lucimara, se lava e ponha aquele vestido mais novo que tu tem.

A puxou pela mão e foram até o posto de gasolina.

Os caminhoneiros, fazendo seus rangos, mateando, talagando suas bebidas e no conversê.

- Pessoal me escuta aqui. Esta é minha filha Lucimara. Ela é virgem. Quem pagá mais vai podê deitá com ela.

Rebuliço, alvoroço, conversas e os lances principiam. Ao final, por R$.700,00, saiu o ganhador.

Na boleia de um caminhão, Lucimara perdeu a inocência e principiou a se fazer mulher, não pelas regras, que vieram há um tempo atrás, mas por um corpo, pesado, peludo, sujo e malcheirosos, com dose extra de bafo de cachaça.

Ao amanhecer, ao retornar à casa, não se reconhecia. Estava em um novo corpo: o vestido cobria a nudez, mas não as marcas que a noite havia deixado na carne e no coração. Lágrimas escorriam-lhe pelo rosto.

Havia mais duas meninas no pedaço, que também começaram cedo, mas já estavam carcomidas e velhas. Como ela era carne fresca tinha cinco, seis homens por noite. Pela falta de experiência a usaram e abusaram no sexo. Tudo fez, tudo experimentou.

Sonhos, só os parcos que surgiam ao acordar, no meio do dia, depois de uma noite de usos por quem pagasse, e que se perdiam ao levantar e abrir a janela para a realidade do novo dia.

Vieram os frutos: dinheiro, e vieram as dores: gonorreia, cancro e chato. Todos tratados com os remédios da mãe, inclusive uma beberagem que tomou quando o chico atrasou. Não sabe se foi a natureza ou o remédio. Não pegou criança.

A vida melhorou. A mãe e a meninada passaram a ter comida em casa. Carne de vez em quando. Algumas roupas para todos. Um rádio. Alpargatas e chinelos novos.

Lucimara era o assunto nas paradas de caminhoneiros e nas conversas que corriam pelos rádios, seguido dos comentários, os mais escabrosos possíveis, pois passou a ser conhecida pelas suas facilidades e habilidades no sexo.

De seis a sete homens por noite, passou a dez ou doze.

Seu corpo não aguentava mais, sentia-se um trapo. Principiou a sonhar o sonho que muitas putas sonham: um homem que a tire da vida.

Depois do sexo, com alguns estendia-se nos carinhos, em busca de um amor verdadeiro, sem resultados: frustrações, choros, desilusões e um cansaço da vida.

Até que encontrou Teobaldo. Tinha 28 anos, morava em Cianorte, no Paraná, com a mãe de idade.  Fora o único que lhe tratara como gente. Escutou suas histórias, tratou-a com carinho e, aconchegando-se em seus braços,  confidenciou-lhe o desejo de uma vida a dois e de uma família. Nas várias idas e vindas, quando se encontravam, esquecia-se dos outros clientes e sonhavam sonhos juntos.

Em uma madrugada, às 3h30, Lucimara, com sua pequena trouxa, beijou seu homem, aboletou-se na boleia e envolvida pelo vento que o caminhão cortava, começou a dormir e a sonhar. Ao fundo, uma música embalava o ambiente.

 

PROSTITUIÇÃO INFANTIL, UMA VERGONHA, UM CRIME!


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