10/02/2021

Paixão




Paixão vivi

Posso dizer.
Não muitas.
Mas na única
Que valeu o viver.



Amei
Intenso,
Corpo e alma,
No toque das mãos,
No simples roçar,
No prazer de se ver.
Amei
No esperar
Do amanhã.
Indócil
Como amantes
Costumam ser.
Amei
Entre lençóis
No arrebate do sexo,
No doce intenso
Do gozo morrer.
Te amei
No esperar dos dias,
Nas noites curtas. 
Amei no acordar.
Te amei mais
Do que disse
Te amar


eao



Um Amor

.

Encontrei
Um amor
Doce e gentil.
Só pra mim.

Carrego
No peito,
No sorriso
E me faz rir.

É só meu.
Ninguém vê,
Pois vendo
Posso perder


Se deita comigo
Me olha no espelho
E rindo me diz:
- Oi amor !

Grita baixinho:
- Vem comigo !
Sapeca um beijo
Correndo e feliz.

Vem me buscar
Sorrindo e cantando.
Ninguém nota.
Notando melhor disfarçar

Vamos pro mar,
Carregando
Colares e miçangas
Azuis e brancas.

Rindo riso,
Me embala com o  vento.
Nas areias me deita
E me cala a beijar

Guardo o amor
Num relicário,
Para quando triste
Sair a dançar.

Nino e embalo,
Canto cantigas,
Me viro em vários.
Não deixo partir

Porque se for
Não volta mais.
Tem outros corações
Para invadir


Mheao

 


Mambembe







Fui mambembe.
Andei pelos palcos da vida.
Às vezes palhaço
Outras Valente.
Vivi emoções
A luz dos refletores,
No ocaso dos camarins.
Ri risos que não queria
Lágrimas que não senti.
Vesti fantasias
Que se desfaziam.
Vi o agrado fácil
A amizade rasa.
Tive o ego dos aplaudidos,
A ilusão dos abraços ,
O esplendor dos salões.
Fui Otelo, o Malandro da Ópera,
Quixote com Dulcineia,
O herói do sertão.
Fui o trapalhão dos domingos,
O princípio e o fim
Da canção.
Vivi os aplausos e risos
E o silêncio duro da plateia,
Ao final da função.


eao



04/10/2017

A Velha Senhora



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Bem vestida, maquiada e animada, sentada a um canto batia palmas e cantava as músicas. Seu rosto expressava alegria. Chamava-se Laura.
O grupo de jovens que periodicamente visitava o asilo cantava e tocava.  Um ou outro motivava algum dos idosos para dançar, tocar ou cantar ao microfone.
Surgiam entre eles, invariavelmente, alguns artistas, enferrujados pelo tempo, mas demonstrando que já tiveram seus tempos como cantores, músicos ou bailarinos.
Vitor, um dos rapazes, convidou Dona Laura para dançar. Depois de um pequeno tempo, ela pediu para retornar ao quarto a fim de descansar.
Vitor a acompanhou. Ficou admirado com seu canto no quarto, aonde havia mais três camas. Estava bem arrumado. Cama feita. Criado mudo limpo com porta retratos. Encima da cama uma mala pronta, ao lado uma pequena cadeira, sofá com um sobretudo arrumado.
Colocou a mala no chão ao lado e deitou-se. Depois de acomodada Vitor perguntou:
- A Senhora vai embora?
- Sim, amanhã minha filha virá me buscar. Voltarei para casa, onde ficarei junto dela, do meu genro e meus netos. Tenho dois. Veja as fotos sobre o criado mudo. Não são lindos? Este é o Rodrigo e esta a Anita. Preciso descansar para depois jantar e amanhã pela manhã estar bem disposta.
-Que bom, Dona Laura. Fico feliz. Bom descanso.
Vitor voltou para o grupo que continuava na cantoria, nas danças e no alegrar das pessoas do asilo.
Uma parada para o café com bolachas.
Nesse intervalo, em conversa com o Dr. Almir, um dos administradores do local, se referiu a simpática Dona Laura que estava com suas coisas prontas para retornar para casa.
-Vitor, todos os domingos, ela se prepara para ir embora na segunda feira quando a filha a virá buscar.  É assim desde o começo, há oito meses.
Na segunda, não quer sair para caminhar no pátio nem ir ao refeitório para o almoço aguardando a chegada da filha a qualquer momento.
É uma tristeza geral. Ninguém quer desmanchar o encanto da vinda da filha. Muitos pelos cantos derramam uma pequena lágrima por saberem que ninguém virá.
Ao final do dia, resignada, sem desmanchar o sorriso que carrega nos lábios e nem o brilho dos olhos, desmancha sua mala e diz: minha filha deve ter tido problemas. Ela é muito ocupada. Se não veio é porque não pode, na próxima semana virá.
Coloca tudo novamente no armário e criado mudo. Ajeita sua cama e deita. Temos que insistir que se levante para o jantar.
No dia seguinte, como se nada tivesse ocorrido, fica no aguardo e na preparação para a próxima segunda feira.
No fundo é uma esperança que a mantem viva. Por essa espera ela se cuida, come, se arruma e conversa.
Ela tem fé que a filha a virá buscar, de encontrar os seus e com eles conviver na alegria.
É uma fé afetada por um cérebro corrompido pela idade, mas, uma entrega que a faz feliz e a mantem vivendo melhor. Uma fé que ampara seus sonhos e esperanças.
Muitos, como ela, tem fé em verdades falsa ou dúbias, mas que os mantem firmes para enfrentar a vida por um possível amanhã ou um paraíso após a morte.
Quantas Dona Laura não há pelo mundo?