02/08/2023

PALAFITAS

 


Meu nome é Luiza. Quando começo esta história tenho oito ano. Morava com a mãe e o pai na favela do Bueiro em Recife. Nossa casa era um quarto grande, onde dormia todo mundo e era a cozinha.  Era em palafita, cresci naquele lugar. O Capibaribe era tudo pra nóis. Água, banheiro e divertimento. Tinha um lugar pra mergulhá onde ia os meninos e as meninas. Tudo de calcinha e cueca. Era a maior farra. A mãe quando me via chegando só de calcinha dizia pra eu tomar cuidado, que era pra não deixar ninguém pôr a mão na xoxota. Se alguém fizer, me avisa. Nem teu pai. Eu falei, o pai fala o mesmo que ocê. Se alguém mexer é pra fala pra ele.

A gente, nas palafitas, avistava longe a cidade e os prédio. A molecada brincava que era dono de um ou de outro. Ficava imaginando como devia ser bunito ver lá de cima a cidade e as palafitas longinhas. De tarde eu ia pra escola. Oxê, era bom, tinha comida. Tinha os amigo.

O pai trabalhava no porto e a mãe, umas vezes na semana, ia fazê limpeza. Era uma alegria no domingo, de vez em quando, o pai levava nois tomá sorvete. Eles parecia namorado. Tinha uns sanfoneiros numa praça perto e os dois iam dançá. Era um rala buxo bonito. Eles me puxava e levava pro meio, dançá junto. O pai chamava a mãe de morena linda. Ela era bonitona, não parecia as destrambelhada que tinha por lá. Seu cabelo era muito bonito. Ela falava que o meu era igual o dela. Gostava, quando ela ficava um tempão penteando, ajeitando.

O pai morreu num acidente no trabaio, num sei explicá como.

A mãe ficou desesperada. Eu chorei bastante. Era uma dor no peito que trancava tudo até saí pelos olhos. Era uma falta danada. As brincadeira, o beijo quando chegava, o colo, os passeio de domingo. Ele e a mãe rindo. Tudo vinha na cabeça.

A mãe teve que  trabalhá todo dia. Eu comecei ir pra rua e faze o que os amigos fazia. Pedí esmola. Depois, com algum dinheiro, ia na mercearia do Paraíba e comprava umas bala e doce pra vendê. Eu só via a mãe chorar. Ela que era alegre ficou borocoxô. Cantava e gostava de dançar, agora ficava triste o tempo todo. Num via a mãe ri.

Um tempão depois do pai morrer, a Maria do Lelé convidou a mãe pra ir na praça dançá. Ela não queria. A Lelé insistiu, insistiu. Ela foi. Eu fiquei brincando. Escureceu fui pra casa e a mãe num tava. Fui na casa da Maria do Lelé, mas também não tinha voltado. Eu tava na cama tarde, não sei quanto, ouvi a mãe conversado com homem na porta. Ouvia risadinha.

Era um tal de Alcindo. Começou a parecer toda hora, até que dormiu em casa. A mãe falou que agora ele ia ser meu pai. Não do coração, porque aquele tava guardadinho dentro de mim, mas o que ia vive com nóis. Imagina, ser meu pai! Oxente, nunca! Era um melô pra todo lado. Amorzinho, coração, meu bem. Comigo, chamava pelo nome, falava sério, não brincava e pió não ria. A mãe continuava indo trabalhá todo dia. Perguntei pra mãe por que ela ficava com ele. Com o pai  não precisava trabalhá todo dia, ele levava nóis  passear, fazia carinho em mim. A mãe respondeu, que quando eu crescê vou sabe porque a mulhé precisa de um homem. É, porque agora eu num entendo.

Ele resolveu ir pra São Paulo, melhorá a vida e nos chamá. A mãe dando um duro, eu não indo pra escola e indo pras esquinas vendê alguma coisa. Um dia, o Sebastião do Quero, voltou de São Paulo, pra vê a família, trouxe recado e dinheiro que o Alcindo mandou, pra nois ir pra lá. Rapidinho mãe fez a trouxa e pegamo o ônibus.  Foi uma canseira, levamos três dias. Não tinha mais jeito pra sentá. A bunda tava quadrada. Quando dava vontade de mijá tinha um lugar, no fundo, que a gente ia, era uma inhaca. Às vezes, quando a perna formigava, levantava e andava no ônibus. Quando parava, aproveitava os banheiro pra faze tudo A mãe levou umas mandioca cozinhada, um feijão de corda num pote, pedaço de pão com mortandela e um garrafão de água.  O gostoso era ficar olhando pela janela. Passava cada lugá bonito. Era rio, era montanha, tinha boi, tinha cabra e cidade bunita. Ficava sonhando.  A gente devia tá indo prum lugá mior. 

Chegamo. Era um lugá grande. Muita gente, muito ônibus. Uma barulheira. Fiquei zonza. Olhei pra cara da mãe, ela tava com medo. Deu vontade de chorar. Segurei. A mãe perguntou pro motorista algumas coisas e ele falou pra onde ir. A gente pegou um metrô. Já tinha ouvido falá mas não tinha andado. Quando a gente foi entrá um pessoal atrás foi empurrando. Gritei pra mãe. Agarrou minha mão, a mala e a trouxa pendurada no ombro. Perguntou prum homem de um lugar que tinha luz. Eu não entendi direito. Depois fiquei sabendo que era onde a gente tinha que descê. Lá na Luz, a mãe com papel na mão perguntou pra outro home como chegava no endereço do papel. Tinha que pegá ônibus. A mãe falou que ia a pé. O homem falou que era longe. Nós fuimos. Oxe, caminhamo, caminhamo. Às vezes tinha muita gente na calçada, tinha que andá na rua. Carro quase pegava. Eu com medo. Caminhamo. Aí quando deu de frente prum prédio bonito, que a mãe falou que era uma escola, nois viramos e continuamo andando. Caminhamo. Coitada da mãe. A maleta, a trouxa. No meio do caminho deu a trouxa pra eu carregar.  Cansei, suei. Ainda bem que tinha água no garrafão.

Finalmente chegamo. A mãe colocou tudo no chão. Era uma casa cumprida com um corredorsão. Parecia o da escola. Tinha umas pessoa na porta. Perguntou do Alcindo. Alguém, entrou gritando, chamando o nome dele. Apareceu. Abraçou a mãe beijou, levantou no colo, rodou com ela. Virou pra mim e só perguntou se tava tudo bem e passou a mão no meu cabelo. Pegou a maleta, a mão da mãe e foi entrando. Eu atrás com a trouxa.

Era um quarto grande, tinha um colchão maió e um menó no chão. Duas cadeiras com roupa em cima. Parecia que era um fogãozinho de brinquedo num canto. Perguntou pra mãe se tava com fome. Não sei o que respondeu, pois, dentei no colchão menó e apaguei.

No dia seguinte, acordei com os dois discutindo. A mãe perguntado, por que chamou a gente se as coisas tavam ruim pra ele. Pela primeira vez, eu vi ele dá uns tapa nela. Gritou que estava desempregando agora, mas tinha um trabalho pra começá logo. E se ela e eu queria comê tinha que nos virá. Pegou nóis duas, passou num bar, comprou café com leite e pão com manteiga e arrastou até uma avenida. Este cruzamento é bom, falou, começa a pedi esmola, até que eu arrume algum lugá pra você trabalhá, falou pra mãe. Ficamo por lá até o fim do dia. A mãe chorando agoniada, sentando de vez em quando na calçada, e eu que já havia feito isso no Recife, pedindo nos carro, fui fazendo. Na hora que deu fome, fumos até um bar na esquina e mãe perguntou o preço do prato. O dinheiro não dava, pediu café com leite e pão com manteiga e nois comemo. Aproveitamo pra ir no banheiro. Sujo, fedido.  No final do dia o Alcindo chegou, brigou com a mãe, deu uns tapas e tirou o dinheiro que tava com ela e comigo. Inda falou que era um miséria. A mãe gritou que tava com o estomago colado nas costa, ele respondeu que tinha comida esperando a gente em casa. Chegamo lá, tinha umas coisa, que ele chamou de marmita, com arroz, feijão e uma mistura de legume. Tinha banheiro no fundo da casa. Um pra homem outro pra mulhé. Fizemos as necessidades e tomei banho junto com a mãe, que conseguiu um pedaço de sabão com uma mulhé, que teve pena de nois, e também arrumou uns pedaços de pano e uma toalha velha e furada pra se enxugá.

Deitei na cama e comecei a dormi, depois de um tempo, meio acordada, ouvi a mãe e o Alcindo fungando, com risadinha. Virei de lado e dormi.

No dia seguinte a mesma coisa. Eu via a mãe agoniada. Mãe vamo voltá pra donde viemo. Vamo pra nossa casa. O Alcindo é ruim, bate em ocê e não gosta de eu. A mãe chorando falô que nóis não tem mais casa e nem dinheiro pra volta. Ela prometeu que ia arruma um lugá prá trabalha. As coisas ia miorá.

No outro dia, nóis na esquina de novo. No meio da tarde a mãe falou pra eu ficá por lá, tomando cuidado, que ia na rua de baixo, onde viu uma pensão e ia sabê se tinha trabalho pra ela. Eu na rua ficava abestalhada  olhando os carrão. Cada um grande e bonito. As pessoa dentro, tudo bonita, arrumada, parecia que ia pra festa. Tava frio aquele dia, as pessoa dentro parecia toda quentinha. Tinha até musica dentro. A criançada ia sempre atrás, amarrada. Tinha gente boa que dava dinheiro, bala, até falava com a gente. Tinha noite, na cama, que eu pensava que táva dentro de um carro. Grandão, bonitão. O pai e a mãe na frente e eu atrás, só que não amarrada e a gente escutando um forró. Começou uma chuvinha pequena e fazendo frio. Tava gelado. Sentia os braço arrepiá. Tava com uma blusinha fina.

Parou um carrão, bonitão. Dentro tinha um home sorrindo, falou se eu não táva com frio. Vem cá fala, comigo na janela. Me deu um chocolate. Tava com fome, foi bom. Gostou, que mais? Entra, senta um pouco aqui, tá quentinho. Entrei. Falou que ia dá uma volta pra eu conhecê o carro. Ele parecia um anjo, sorrindo, uns óio bonito. Ele era loiro. Os óio  parecia um pedaço de céu. Me deu mais chocolate e passou a mão na cabeça que nem o pai fazia. Eu ri. Tava quentinho. Ele parou o carro num lugá. Moço, eu tenho que volta, senão minha mãe briga com eu. Só um minutinho, pra ocê comê o chocolate. Passou a mão na minha cabeça e no meus peito. Eu tinha vergonha dos peito. A mãe falava que ia ficá bonito que nem o dela. Já tinha pedido pra mãe um soutien, pra o pessoá não fica olhando. A mãe disse que não tinha dinheiro, pra eu usa duas blusa. Eu tava com duas blusa, mas com o frio e a chuva táva aparecendo. Ele levantou minha blusa, passou a mão e começou a chupá e mordê. Eu comecei a chorá. O homé tirou a coisa dele pra fora pegou minha mão e passava nela. Falava pra eu mexe nela, brinca com ela. Era grande eu assustei, comecei a chorá. Eu chorando alto. Ele me empurrou, começou mexê na coisa, começou a gemê,  gemia e eu chorava. Até que gritou e ficou parado. Eu táva apavorada e gritava pro moço, o tempo todo,  deixá eu ir embora. Ele abriu a porta e me empurrou e foi embora. Eu cai numa poça e me molhei toda. Tinha caido um toró. Tava lascada,  não sabia donde táva. O frio tava mais forte e a chuvinha tava fria. Comecei a andá, chorando. Tava ficando escuro. Cheguei numa rua movimentada de carro. Ninguém na calçada pra perguntá. Fui andando e chorando.

De repente passou uma poliça. O Alcindo sempre que via uma ficava com medo e fazia a gente desviá o caminho. Ela parou um pouco mais na frente que eu. Fiquei com medo. Pensei em me escondê. O zomi desceu e veio falá comigo. Ele táva com roupa de poliça e tinha um revolve pendurado. Eu comecei a chorá e senti uma coisa quente na perna, eu tava mijando. Eu tava com medo. O poliça falou pra não chorá, foi bonzinho, que ia me levá pra casa. Me levou pro carro e fez eu sentá no banco. Táva mais quente eu não parava de soluçá. O outro do lado, também foi bonzinho, me deu um pirulito e falou que tinha uma filha bonita que nem eu. Queria sabê onde eu morava. Não falei do carro, não falei nada do home, eu queria minha mãe. Não falei que táva pedindo dinheiro. O Alcindo tinha falado pra nóis, que se eles pegava nois, ia presa. Falei da casa com o corredorsão. Da rua, de muinta gente que morava na casa. Não sabia donde. Perguntou se eu conhecia algum lugá perto. Lembrei do bar que a mãe comprava os pão com manteiga. Falei pra eles. Eles sabia onde era. Me puseram no banco de trás. Só que me amarraram. Fiquei com medo. Falou que não era pra ter medo, era só pra eu não cai do banco. Chegou no bar eu desci e agradeci o poliça, comecei a andá. Ele veio atrás de eu e pegou minha mão e falou que ia junto. Fui com ele, conversando com eu. Tavá com menos medo, mas táva.

Quando viramo a esquina e a casa tava perto, tava um furdunçu na porta, tudo em volta da mãe, que tava sentada numa cadeira. O Alcindo deu um tapão nela e falou que ela era burra, que não servia pra nada. Quando o pessoal viu eu, falou pra mãe, que veio correndo, se ajoelhou e me abraçou. Eu chorava e pedia descurpa pra mãe. Ela tava apanhando. Curpa deu. Eu chorava e a mãe chorava. Me dava uma dor forte no peito de vê mãe chorando, por causa deu. A mãe levantou e abraçou o poliça. Todo mundo fez rodinha. Só não táva o Alcindo.

O outro poliça táva falando com ele. Parece que pediu documento que ele mostrou. Pediu o nome da mãe e o meu. Pediu endereço. Falou pro Alcindo que eles ia voltá e se ele batesse na mãe ou neu, teria que se vê com ele.

Nóis entremos. O Alcindo falou pra mãe recolhê todas nossas coisa, que ele ia sai e arrumá um outro lugá pra nois ficá. Que por causa das duas os zomi não ia dá sossego. Ele saiu e ficou de voltá. Só voltou no dia seguinte cedo.

Contei pra mãe tudo que aconteceu. Ela ficou agoniada, perguntou se homem mexeu comigo. Eu falei que não, mas ela não acreditou. Levantou o vestido, abaixou a minha calcinha e olhou. Apertou em volta e perguntou se táva doendo. Falei que não. Fomo pro banheiro e tomamo banho junta. Comemo da marmita. Aquela noite a mãe dormiu agarradinha deu. Foi tão gostoso.

De manhã cedinho mãe acordou, o Alcindo gritou, se esperta e mandou  me vesti rápido. Nois saímo escondido. A mãe depois, falou que o Alcindo picou a mula sem pagá o que devia. Largamo os colchão. Pegamo um ônibus que andou um tempão. Descemo e andamos mais um tempo. Chegamo. Era um prédio velho. Na entrada tinha uma pessoa numa mesinha olhando todo mundo que entrava e saia. O Alcindo falou que a mãe era sua muié eu a filha. Que amanhã ele pagava, que a gente ia trabaiá. A gente subiu uma escada que não terminava mais, e ai chegamo, num lugá que ele chamou de andar. Falou que era sete, pra gente não esquece. Entramo numa porta, falou pra não esquecê o número, 72. Tinha umas pessoá morando lá. Um home mostrou nosso canto. Era um quarto, onde a mãe colocou nossa roupa no chão. Não tinha colchão. O Alcindo falou que depois arrumava. O home falou que dava pra usá o banheiro. Tinha um baldão grande com água, onde dava pra pegá e jogá na privada. Dava pra pegá água também pra toma banho frio, um balde só. Cada dia uma pessoa de cada quarto tinha que buscá água, quantas vezes precisava, numa torneira no fim do corredô e enchê o baldão. A mãe ficou, depois, sabendo que tinha gente, que no dia de buscá água não tomava banho pra buscá menos. Táva dando uma briga danada. Falou, que o Alcindo quis se arregá de alguém mas, veio um sujeito, lá debaixo, e deu uns tranco nele e ele se lascou. O lugá era muito muquifo.

De manhã o Alcindo falou pra mãe que eu ia sozinha pra esquina. Era perto, não tinha como me perdê. Eu já devia tá mais esperta, depois do que aconteceu. A mãe brigou com ele, mas levou uns tapa e ficou chorando num canto. Ele me levou, Era bem perto. Na esquina tinha um prédio lindo, depois eu sube que era uma escola e do lado uma igreja bunitona.  Falou que o caminho de volta era fácil e depois de ter dinheiro, no final do dia, fussi pra casa. Acho bom cê ficá esperta.

Na esquina, conheci uma molecada, que também ficava por lá. O Toninho, o Bugre, o Vira-pau, o Lombriga, a Sara e a Deda que ficou minha amiga. A Deda me falou que já tava lá um tempão. Morava com a vó ali perto. Não tinha pai nem mãe. Num sabe onde tão. Avó faz um trabaio bonito nuns pano. Bordadinho, rendinha e ia vendê perto do Viaduto do Chá. Ela vendia doce. Falou que ia me apresentá o home dos doce e eu ia pode vende. Gostei dela. Quando os menino, começava com uma brincadeira besta ela dava um esporro.

Oxente, quando voltei pra casa, de noite, não encontrei a mãe. Como tinha comido uns salgado, no bar que a Deda me levou, num táva com fome. Deitei e dormi. Acordei, num sei que hora, com a mãe chorando. Ela tava pelada, agachada, com uma bacia, lavando as partes, chorando e resmungando. Fui abraçá ela. Num é nada fia, me machuquei. Ela tava com táio na cabeça. Tinha saído sangue, que tava grudado no cabelo. Eu caí, ela falou. Por que tava lavando as parte? Abracei, ela tava com o pescoço todo manchado. Vai dormi fia, não foi nada. Ela pôs uma roupa e veio deitá abraçadinha neu e chorava baxinho. Uma hora ela resmungou que ele tinha colocado ela na vida. Num entendi nada. O gostoso era o calor da mãe juntinho.

Todo dia era igual. Eu olhava a escola e a igreja. Vi que na hora de entrá na escola, enchia de carro, largando a molecada na porta, fora os que vinha a pé. Depois era na hora de ir embora. Era menino e menina, tudo de farda. Os menino com calção azul, as menina com saia azul e meia branca alta e todo mundo de blusa branca. Vige. como eles brincava, como ria! Tinha pipoqueiro na porta e sorvete, eles comprava.  A gente olhava. Pipoca, a gente comprava todo dia pra ajuda a matá a fome. Eu pegava metade com sal e metade doce. Sorvete, de vez em quando. Tinha vez, que ia com a molecada pegá comida na lata de lixo dos bar por perto.

Na cama eu pensava que um dia eu ia entra naquela escola com a farda da escola e a mãe me deixando na porta. Contava pra Deda e ela falava que isso não ia acontecê. Era escola de rico. Mermão, quem nasceu pobre vai morrê pobre. Esquece. Perguntei se podia entrá na igreja. Ela disse que achava que sim, mas nunca tinha entrado.

Um dia levantei mal. Tava com dor de barriga, tava toda zoada. Fui no banheiro, mas nada. A dor continuava. A mãe táva dormindo, não quis acordá. Fui pra esquina, andando meio de lado com dor. A Deda falou que eu tava com cara de bosta, mas, não falei nada.  Nois tava começando o dia e de repente começou corrê sangue na minha perna. Eu gritei pra Deda que tava morrendo. Corri pro jardim do meio da rua , olhei debaixo da saia e tava saindo sangue da xoxota. Será que o home fez alguma coisa, naquele tempo, e agora tá acontecendo. Deda eu tô morrendo! Ela veio correndo, quando viu, começou a manga deu. falou pra eu esperá que já voltava e que não era nada. Voltou e trouxe uma coisa chamada absorvente. Tó, põe na calcinha. Me ensinou. Vamo pra tua casa, procê se lavá e troca de calcinha. Eu com medo de assustá a mãe, que podia tá dormindo, não quis ir. Então, vamo pra minha e te explico tudo.

Me lavei, emprestou uma calcinha. Não se aperreia, falou que eu tinha virado mulhé. Todo mês ia acontecê. Tem vez que doi a barriga. Já tinha deixado de ir pra rua por causa da dor. Agora, sabia porque eu tava com cara de bosta. Falou que a vó dela contou tudo. Contou, que agora, se homem colocá o negócio dele dentro da xoxota a gente pode pegá barriga. Eu falei, mas o pinto deles é pequeno. É, falou, mas fica grande. Aí lembrei do home no carro, lembrei de ver uns moleque maió com as menina nos canto, lá na favela, dava pra ver o dele grande e colocando no meio das perna dela. Falei pra Deda tenho que te pagá o absorvente. Respondeu pra esquecê, era presente de amiga, de mulhé. Achei bacana ela falá que era presente de amiga. Eu tinha uma amiga.

 

Uma vez que a mãe tava em casa, ficamos conversando. Contei do sangue. Ela me abraçou e pediu descurpa, já devia ter me avisado, ter explicado. Falei pra ficar tranquila que a Deda me contou tudo. Conversamos da escola, da esquina, da igreja. Falei que tinha vontade de entrá na igreja, mas, tinha medo. A mãe falou que não devia tê. Que lá era a casa de Jesus e da mãe dele, a Nossa Senhora. Era como a capela que tinha lá nas palafita. Ela pediu pra eu entrá e pedi pra Nossa Senhora ajuda nóis. Pede pra nossas vida ficá meió. Promete que a gente leva uma vela pra ela. Reza com força filha, eu tenho rezado muito. Reza com força.

Eu falei pra Deda que a mãe pediu pra eu reza. Táva com medo de entrá na igreja, pra ela ir comigo. Ela disse que a vó tinha falado que lá era igreja de padre e ela era evangélica, tinha que ir onde tinha pastor. Não quis ir de jeito nenhum.

Um dia eu vi um bando de menino e menina saindo da igreja, formando fila e entrando na escola. Táva todo mundo contente. Pensei, se eles saíram contente porque não vou até lá, e fico contente também? Esperei um tempão e resolvi ir. A Igreja táva escura, tinha umas vela nos lado e uma luz no fundo. Quando fui chegando, vi que tinha uma cruz pendurada no ar. Fiquei abestalhada de vê ela no meio da igreja, no ar. Parada no ar! Quando cheguei mais perto, vi que tinha umas cordinha segurando. A igreja táva escura e uma luza batia só no Jesus, sofridinho lá na cruz. Tinha sangue nos pé, nas mão e na cabeça. Ele tinha a mesma cara de dor do Jesus lá de Bueiro, só que o sangue parecia de verdade. Eu parei na frente e falei que queria falá com a mãe dele. Sentei no banco e aí vi num altar do lado Nossa Senhora. Táva vestida de azul e tinha um coração grandão pra fora do peito. A mãe falou, uma vez, que o coração dela era tão grande, que não cabia dentro do peito. Eu ajoelhei e coloquei o rosto entre as mão. Eu falava, lá do fundo do coração, pra Nossa Senhora ajudá minha mãe, ela táva sofrendo muito. Eu sofria de vê minha mãe sofrê. Eu não me importava de vendê na esquina, só não queria que a mãe fosse fazê o que fazia e ficá triste. A Deda falou que era sexo. A mãe ia deixá os home brinca com ela. Ela não gostava, chorava e táva muito triste. O Alcindo batia, não deixava nois ir embora pra outro lugá e chegou me bate, quando o dinheiro do dia era pouco. Nossa Senhora ajuda nóis. A mãe falou que trás uma vela se ajudá.

Eu levantei pra ir embora e olhei pro rosto da Nossa Senhora. Juro, ela táva olhando pra mim, sorrindo. Táva linda. Eu andei pro lado e os olho dela continuou olhando pra mim. Eu juro, ela não tirava o olho de cima deu e não parava de sorri. Eu cheguei perto e tinha uma lágrima saindo dos óios. Eu chorei. Ela táva olhando pra mim e chorando. Juro ela táva chorando. O vestido era lindo, azul com estrelinha. Eu falei, não chora Nossa Senhora, também não quero que a senhora fique triste. Ela chorava e sorria.

Quando voltei pra casa, não esperava a hora de encontrá a mãe e contá que eu falei com Nossa Senhora e que ela sorriu e chorou. Fui dormi cedo, querendo chegá o dia seguinte, pra contá pra mãe. De manhã acordei a mãe. Eu falei com Nossa Senhora. Ela sorriu pra mim. Eu juro. Ela chorou e sorriu. Ela não parava de tirá os olhos de cima deu. A mãe me abraçou e chorou. Falava que tinha certeza que ela ia me escutá.

 

Um dia a mãe chegou mais cedo e me acordou. Falou que Nossa Senhora tava escutando eu. O Alcindo não ia mais atrapaiá nossa vida, porque ele tinha se metido numa briga, foi pra delegacia e la descobriu que tinha uma ordem pra prendê ele, lá no norte. Ia ser muito tempo. A mãe falou que a vida ia se miór pra ela e que ele num ia mais pegá meu dinheiro.

Eu passei na igreja outro dia agradecê Nossa Senhora. Falei pra ela que agora ia muda tudo. A mãe não ia continuá o trabaio que táva fazendo e a gente podê voltá pro Recife, pras palafitas. Eu ia encontrá meus amigo de ante. Só fiquei triste porque não ia mais vê a Deda. Quem sabe a vó dela ia querê ir com nois?

Só que a mãe continuo indo pro mesmo trabaio. Saía a tarde e voltava de manhãzinha.  Eu ia pra rua. Agora eu comia marmita no armôço, às vezes pagava pra Deda. Quando miorô, a mãe comprou um colchosão, onde dormia as dua. O que era gostoso, acordá com o corpo dela quentinho, junto do meu. Comprou roupa pra nóis. Uma parte do dinheiro do dia da rua eu dava pra ela. Falou que era bom, comprou um fogãozinho, começô a fazê almoço. Arroz, feijão, macaxeira e uma mistura. Ela até deixou um dia eu convidá a Deda. Nois tinha que comê tudo no chão.

Um dia ela contou, que uma mulhé conversô com ela. Que era muito bonita pra trabaiá na rua. Convidou pra conhecê a casa dela. Diz que tinha uma outras muiés. Elas falaram que era mior. Ganhava um pouco mais, não tinha sol, não tinha chuva e nem frio. A mãe foi. No dia a mãe voltou com roupa nova. Táva pintada e com o cabelo arrumado. Perguntei, se ganhou, ela disse que não, tinha que pagá a Dona Zulmira. A mãe não trabalhaiava na segunda. Nóis aproveitava pra passeá.

A mãe falou que eu tinha que voltá estudá. Nois se arrrumamo e fomo na escola bonita que eu via na esquina. A mãe chegou lá e falou pra uma moça, que tava num balcão, o que queria. Tinha que esperá o padre pra fala com ele. Demorou. O padre ouviu a mãe e falou que não tinha mais lugá pra criança que não podia pagá. Num se mostrô interessado. Falou pra ir numa escola, lá perto, que era do governo. A escola do padre era muito bonita. Tinha uma escada, com um lugá pra bota a mão, quando subia e descia, que parecia de ouro. Tinha uns santo grandão, bonito. Todo mundo lá dentro táva arrumado. Como ficava sempre em frente, onde eu ficava, eu achava que a escola também era minha. Fiquei agoniada com um nó na garganta e uma vontade grande de chorá.

Na escola do governo a mãe conseguiu me colocá. Tinha um montão de vaga. A muié falou que não tinha muita criança por lá, no bairro. Eu tinha que usá a farda que ganhei. Era uma blusa branca e um calção azul. Eu vi o pessoal usando. Só que tinha camisa que parecia amarela e calção que o azul tava apagadinho. Num era bonito como na outra escola.

Eu ia pra escola de tarde. A mãe acordava depois de eu. A gente ficava junta, conversando. Ela fazia comida eu ajudava. A gente ria muito. Depois eu ia pra escola e a mãe ia trabaiá, chegando tarde. Comecei aprendê o nome das letra.  Eu encontrava a Deda depois da aula e falava da escola. A Deda ficava com os óios brilhando. Falava pra ela ir, mas não podia, tinha que ajudá a avó. Eu mostrava as letras, mostrava meu caderno. A gente brincava que táva junta no recreio. A gente ria só de pensá.  Aprendi escrevê meu nome. Fui mostrá pra Deda. Ela pediu pra escrevê o dela. Falei que ia pedi pra professora ensiná e depois mostrava. A professora falou que era “de” de dedo e “da” de dado. Escrevi, na outra semana fui mostrá. Cheguei lá não encontrei ela. O Toninho e a Sara vieram conversá. Falaram que uns dias ela chegou chorando, que tinha acordado e a vó táva morta. Vieram umas pessoa e levaram ela embora. Aí ela veio pra contá e chorá. Queria te procurá mas, àquela hora você táva na escola. Chorou muito e não apareceu mais. Corri onde ela morava. O quarto táva vazio. Contaram que uma muié do governo veio buscá a Deda e levou. Não voltou mais. Nunca mais vi ela, mas ela ficou sempre no meu coração. Chorei várias noite pensando e pedi pra Nossa Senhora ajudá ela. Perdi minha amiga.

Na escola tinha uma professora boazinha. Falava pra eu e pra Benedita, que todo mundo chamava de Bene, que a gente falava muito errado e ia começá a corrigir nóis. Não era nóis, era nós. A gente ficava treinando. Melhorei, mas às vezes escapa. Que quando era mais de uma cadeira, a gente tinha que por um “s” no final. Cadeiras, meninos. Nós ficava treinando. Homens, mulhers, pãos, frutas, mesas, cors. Tinha o lanche no recreio. Pão com salsicha e o que eu gostava e pedia sempre, e a mulher ria, pão com mortandelas. Eu ficava toda contente que ela ria porque eu falava direito. Não era para falar com eu, o certo era comigo. Mas tinha uns casos que eu ainda não conseguia guardar direito. Ela corregia quando era pra eu, quando era deu. Nos começamo a falar melhor graça a Professora Luzinda. Nunca mais vô esquecê dela.

Depois de um tempo, a mãe falou que no domingo nós ia mudá. Falou que algumas moças que trabalhava com ela, dividia uma casa e ia sobrar um quarto. Ficava perto da escola e do trabalho. Era uma casa velha, tinha um corredor e no fundo um quintal. Não era muito grande, mas tinha uma árvore no meio. O corredor tinha quartos de cada lado. Era seis. Terminava numa cozinha grande, com mesa pra comer e depois um banheiro, onde ficava o chuveiro. O chão era de azulejo velho, com uns remendo, mas táva limpo. Nosso quarto era o segundo da esquerda, com uma janela que dava prum corredor estreitinho. Tinha duas camas que táva com colchão. Falei pra mãe que tinha medo de dormi na cama, podia cair. Ela respondeu pra eu não ser jegue, todo mundo aprende dormi na cama. O chuveiro era quente. A mãe queria que eu tomasse banho todo dia. Tinha que aproveitar o horário que as mulheres tivesse trabalhando.

Lá moravam a Zefa com o filho, o Buiu, a Dora, uma negra muito bonita e os filhos a Lua e o Nilton, a Ção que o filho não morava com ela, Carol e o filho Zito e a Neuzinha e o Cassio. As menina (é assim que se chamavam), trabalhavam onde a mãe trabalhava. Tinha a Dona Raimundo que limpava o corredor, o banheiro, a cozinha, a casa por fora e fazia o almoço. A mulherada fazia uma caixinha e na segunda, duas ia fazer compra. Eu adorava quando tinha que ser a mãe, pois eu ia junto.

A molecada estudava na mesma escola e no mesmo turno. À tarde. A gente formava um grupo. A gente falava que nem os mosqueteiros, que nós vimos na televisão. Um por todos e todo por um. Mexia com um, mexia com todo. Eles falavam que todos era irmão. Era o bando. Um dia na escola, uns garotos começaram a mexer comigo e com a Lua.  O Zito ouviu, começou a discutir com eles, chegou o Nilton e o Cassio. Começaram a xingar e chamou nós de filhos da puta. Os três deram um pau nos outros quatro. Foram parar na diretoria. Eu e a Lua, fomos contá pra diretora que eles chamaram nós de filho da puta. Eu vi que a diretora, sorriu, engasgou pra falar, mas, liberou os meninos. Naquele dia eu tive certeza, que a profissão da mãe era puta, palavra que dava briga lá no Recife e eu e todos que estava ali, éra filho da puta. Nós ia levar dentro de nois essa verdade. Outra coisa que comecei a vê, como a Luz e o Nilton, que eram escurinho, sofriam. As pessoa tratava eles diferente e mal, só porque não eram branco.  Falava comigo de um jeito e com a Lua de outro. Tinha até professora que fazia isso com eles, e com outros menino e menina que eram preto. Os dois era gente fina, como falava o Buiu. A Luz, depois da Deda foi a minha miór amiga.

Um dia, a mãe voltou de tarde e foi pra cama passando mal. A Dona Raimunda fez chá e deu remédio pra ela. A mãe passou a noite com febre. A mãe pediu que eu pegasse água fria, molhasse um pano e colocasse na testa. Passei a noite toda fazendo isso. Não dormi. A mãe botô os bofe pra fora. Quando as menina chegaram, pedi ajuda. A Zefa e a Ção ficaram com ela e mandaram eu ir dormir no quarto da Ção. Apaguei, quando acordei corri na mãe. A Ção táva dormindo na minha cama e agora, quem cuidava da mãe, era a Carol. A Dona Zulmira, onde a mãe trabalhava, mandou um médico. Examinou a mãe e deixou remédio para dar de 4 em 4 horas. Não fui pra escola. Chorei várias vezes e pedi a Nossa Senhora pra ajudá a mãe. Falei que eu sabia que ela não tinha levado a vela, mas prometi, que logo que ela melhorasse eu levava.  Chorava e pedia pra perdoá a mãe. Nossa Senhora, bota fé que ela leva. A Dona Raimunda, fez canja de galinha pra ela ficá mais forte e forçava comer. No quarto dia, começou a conversá comigo e contou que têve um bebê, mas que não podia ficar com ele. Não tinha como criar. Quando tirou ela ficou ruim. Eu cuidava mãe, falei. Num dá filha, você é muito nova pra cuidar de uma criança. Fiquei triste, porque perdi um irmãozinho ou irmãzinha, mas, contente, porque a mãe não morreu. Teve outras vezes que ela ficou ruim, não como aquela. Dizia que era do trabalho. Só que cada vez eu achava que ela ficava mais triste, cansada e mais velhaUm dia ouvi a mãe conversando com a Ção, dizendo que não aguentava aquela vida, oito dez homens cada noite, a maioria cheirando mal ou cheio de pinga. Tem uns que quer fazê umas coisas que não gosto ou não tô acostumada. Pouco deles tratava bem. Tinha vergonha do que fazia, mas precisava sustentá nós. A Ção, que era a mais velhas delas, respondeu que tinha que tomar cuidado de não pegá doença, nem criança. Não aceitá homem que fosse ruim. Se que o home queria, ela achava que não devia fazê, trata de fazê carinho e distrai ele. Oxe, eu sei que tem hora que não dá, aí não tem jeito. Quando tem alguém muito ruim, fala pra Dona Zulmira, que ela não deixa mais entrar. Mas tinha que aguentar por minha causa. Essa a vida de mulher da vida, puta.

A mãe e eu não tínha voltado para Recife, não morava em nossa casa, não tinha carro, roupa bonita, mas a gente vivia melhor. Preocupada com a promessa da vela que a mãe fez e não cumpriu, se nossa vida ficasse melhor, resolvi perguntar. Mãe, nossa vida ficou melhor? Ficou, ela me disse. Por que não levamo a vela que prometeu pra Nossa Senhora. Me abraçou e falou que eu tinha razão. Que a gente ia levá.

As meninas, Dona Zulmira, que deu mais e Dona Raimunda ajuntaram dinheiro e alugaram um ônibus pra todo mundo, inclusive as crianças ir pra Aparecida do Norte, casa da Nossa Senhora no Brasil. A viagem foi uma farra. Teve cantoria, sanduiche e refrigerante. A igreja era muito grande e bonita.  A igreja dela é grande, porque o Brasil é grande e a casa tinha que ser enorme pra caber muita gente, falou a Zefa. A Nossa Senhora de lá, que eu já tinha visto em foto, era preta. Vige, como era bonita. Táva com coroa em um lugar dourado fechado com vidro. Nós passamos lá e demos um beijo. Aí, nós levamos a vela. Era um lugar feio com muita fumaça e muita vela. Depois fomos ver um lugar que as pessoas colocavam fotos, muleta, perna feita de cera. A mãe falou que estavam agradecendo milagres que as pessoa receberam. Depois sentamos nos bancos para rezar. Era muito barulho, muita gente. Falei pra Nossa Senhora que ia falar com ela lá na igreja perto de casa, era mais sossegado. Depois, fomos comer hamburguer na lanchonete, lá no estacionamento. Dona Zulmira pagou e falou que era presente pra todo mundo. A gente aplaudiu, assobiou e comeu com todo mundo falando ao mesmo tempo, se sujando de ketchup e mostarda. O Nilton jogou batata frita no Cássio e a Neuzinha deu bronca nos dois. Ela gritou, que Deus não gostava que jogava comida fora. Pensei é verdade, eu mesma já peguei comida na lata do lixo.

 

Um dia fui falar com Nossa Senhora. A vó da Deda, falou que quem nasce pobre vai morrer pobre. Será que teu filho Jesus, que é Deus, quer que a nossa vida seja sempre assim. Oxente, ele nasceu num curral, entre boi e vaca. Vocês eram pobrinhos. Sabem quanto é difícil ser pobre. As pessoas tratam a gente diferente. Quando eu paro na frente da igreja, todo mundo fica me olhando diferente, olhando minha roupa, meus sapato. Os meninos com roupa bonita ninguém fica olhando, falam com eles. Outro dia uma mulher queria me dar uma esmola. Eu não tinha pedido. Falei que obrigado. Não precisava. A mulher saiu me xingando. Pobre não é filho de Deus ou será porque eu e meus amigos somos filho da puta? A mãe trabalha nisso, mas, não gosta. Fica triste. A mãe fala para eu estudar que não quer que passe o que ela passa e passou. Quer que eu seja alguém na vida.

 

Hoje tenho 20 anos. Muita coisa aconteceu nesse tempo.

O bando sempre foi mal visto na escola, mas, nós nos protegíamos. Éramos uma família. Quando eu tinha 14 anos, fomos a uma festa da escola em um salão próximo. Uma banda tocava músicas maravilhosas. Banda era algo que a gente não via sempre.

 Eu e a Lua fomos com nossas roupas mais bonitas. Jeans, blusa com bordados e jaquetinha. Calçávamos botinhas. Estávamos no nível das riquinhas da outra escola, assim pensávamos. Encontramos lá o Buiu, que adorava dançar e o Zito. Eles estavam tentando alguma chegada com as menininhas. O Buiu até estava no enrosco com uma. Toda hora, os garotos vinham dançar conosco. Só que eles dançavam de um jeito sem-vergonha. Quando a dança era lenta, apertavam e enfiavam as pernas no meio das nossas. Parecia, às vezes, que estavam mais nos enconchando que dançando, até queriam apertar nossas bundas. Tinha uns, que só porque a Lua era negra, pensavam que podiam abusar mais. Numa dessa reclamei e o Zito que estava perto falou pra não fazer aquilo com a irmã dele. O outro gozou, perguntando se todo filho da puta era irmãos. Deu um pau. O Buiu entrou, alguns amigos deles entraram. Acabou a festa em pancadaria. Os garotos da escola passaram a nos respeitar, apesar do cochicho que faziam quando nós passávamos. Essa era uma realidade constante.

No meio desse tempo, o Cássio se meteu com drogas. Todos lhe falamos para parar, mas ele estava gostando do dinheiro que ganhava. Dizia que ia tirar a mãe da vida. Andava com um pessoal da pesada e longe do bairro, porque algumas vezes nós o pegamos vendendo e ele ficou com vergonha da gente. De repente, desapareceu e depois, soubemos pela Neuzinha, que foi morto, num entrevero com a polícia. A Neuzinha chorou a morte dele, por muito tempo. Ele era um rapaz bonito e muito simpático. Sempre achei que se daria bem na vida, mas, a vida, não se deu com ele.

A Lua que era minha amiga, quando tinha uns dezessete anos, começou a se meter com um pessoal que conheceu em uma das festas da escola dos riquinhos. Ela era uma negra alta, linda, faceira, tinha um sorriso que ganhava qualquer um. Sua voz era gostosa e possuía uma conversa agradável. Toda hora, alguém vinha buscá-la de automóvel, para sair à noite. A Dora, sua mãe e o Nilton, seu irmão, brigavam com ela por estar se metendo em um meio que não era o seu. Diziam que devia parar de farra e continuar estudando. Conversei com ela para aproveitar a beleza que tinha e tentar ser modelo, trabalhar na televisão, sonho de todos nós. Para não deixar ser aproveitada por homem. Dizia que eles só queriam foder, portanto, era um jeito de ganhar o que queria e ter uma vida melhor. O irmão e a mãe tanto brigaram com ela, que quando fez 18 anos saiu de casa e foi morar com umas amigas. Acredito que virou garota de programa. Ela dizia que se a mãe ganhava a vida assim, estando acabada, ela que era jovem e bonita iria se dar melhor. Nunca mais soube dela. O Nilton, a última vez que o encontrei, era vendedor em uma loja de roupa para homens em um shopping. Disse que estava namorando e quando casasse mudaria de casa e levaria a mãe junto.

O Buiu virou evangélico e conheceu uma menina da igreja. Eu gostava dela. Era delicada, simpática. Acabara o ginasial. Só falava em casamento. Casaram e mudaram para uma casa lá para os lados da Zona Leste. Os dois trabalhavam. Ela de caixa em um supermercado e ele consertava computador e celular. Abriu uma lojinha, onde depois a mulher foi trabalhar. Apareciam sempre para ver a mãe. Quando teve o segundo filho, conseguiu tirar a Zefa da vida e levou-a para viver com eles.

A Ção que vivia sozinha, ficou muito doente e foi morar com a irmã em Andradas, a quem ajudou por muito tempo. Era seu sonho, mas, estava com a saúde abalada e não viveu muito tempo.

A Carol e o Zito voltaram para a Paraíba, onde tinham família. A Carol, na minha opinião foi a mais inteligente. Sempre direcionou o Zito para ter uma profissão. Era mecânico de carro. Saiu da vida há tempo, com saúde e dinheiro no bolso. Pelo que sei, comprou casa em João Pessoa e uns terrenos. Fiquei muito feliz por eles.

Hoje olho para trás e vejo como foi minha vida, a da mãe, das meninas e dos filhos. Por empenho da mãe, me formei em contabilidade, apesar do ensino muito fraco que recebi, e agora estou entrando na Faculdade de Ciências Contábeis. Consegui trabalhar, para pagar o curso, durante o dia, e estudar à noite. A mãe não quis parar de trabalhar na vida até eu me formar em contabilidade e estar firme trabalhando na área. A casa que morávamos, com a saída das meninas, que se conheciam, começou a ter meninas mais novas, com outra mentalidade, se envolvendo com homens e drogas. O ambiente foi ficando cada vez pior. Três anos atrás, consegui alugar um pequeno apartamento em Carapicuíba. Após um tempo, quando estava com meu emprego firme, tanto fiz, que a mãe saiu da vida. Sua saúde estava muito debilitada. Foram dois anos difíceis, de postos médicos, internação no SUS, até que seis meses atrás faleceu, fruto das doenças que adquiriu na vida. Morreu com uma luz apagada nos olhos e triste por não conseguir mudar de vida. Dizia a ela, que tinha conseguido melhorar nossas vidas. Saímos das palafitas e agora morávamos em um apartamento, só nós duas. Consegui estudar, tenho uma profissão. Tudo graças a seu esforço. Sua morte me estimulou a escrever este relato.

Vejo que em nosso país, pobre, na sua maioria, morre pobre. Do crescimento econômico, das melhorias sociais, só recebe esmolas. A máquina não é feita para o tirar o pobre da pobreza, até parece, que existe para mantê-lo. O governo tira muito e devolve pouco. Usa os recursos para manter as suas mordomias, numa discrepância absurda em relação ao nível que vive o povo. O povo não é o fim para chegarem ao poder e sim o meio. Quanto pior for a educação, melhor para os políticos usufruírem da sua ignorância. Só a educação liberta!

O pobre, normalmente, é empurrado para a periferia das cidades e da vida ou para morar em guetos.

Nunca mais voltei às palafitas, que foi por muito tempo meu sonho.

 

aeedd


21/01/2023

VÔ CARLÃO E VÓ BETINHA

 




Estava em visita a meus amigos Carlos e Beth. Ele me diz:

- Daqui a pouco chegam meus netos.

Depois de um tempo, barulho na fechadura, batidas na porta e ela se abre.

Como uma invasão viking, um normando de uns 60 cm de altura, entra desembestado, parecendo um boneco de cordas, pelo seu andar e movimentação dos braços. Deve ter engolido um disco riscado, pois não para de falar vô, vô. De braços estendidos se lança nos braços de meu amigo. Logo se encarrapita em seu colo e principia um diálogo. Aí, descubro que meu amigo, além de falar várias línguas, também fala “netês”. Um diálogo que minha tecla SAP não abrange. Observando melhor, o normando se parece com um querubim, com seus olhos azuis e um sorriso simpático, cativante e uma pequena rodela de cabelos levantada na fronte.

Atrás dele, chega uma adorável menina, cabelos castanhos e dentes em formação. Após me dar um beijo, solicitado por seu avô, principia a contar as aventuras, ou, não sei, as desventuras de uma amiga. Delicada e dengosa como costumam ser as meninas, troca ideias com o vô. Pergunto a idade e o avô me diz:

- Sete anos.

Ela retruca:

- Não, tenho quase dez.

Quase dez! Fico admirado pela resposta. Aquele número deve ter algum significado especial. Na minha época, queríamos fazer 14 anos ou 18 anos, para podermos entrar nos cinemas.

O avô ri.

- Para ela esse número parece ser mágico.

A “quase dez” desaparece atrás da vó, que já sei ser sua preferida, por lhe dar doces. Depois, quando perguntei se o vô não era legal, respondeu:

- Ele é legal, me leva no parque, no shopping, mas faz tudo o que minha mãe diz que tem que ser. A vô não. Ela me dá doce, faz tudo o que eu gosto. Aqui é melhor que minha casa, porque tem comida.

Rio, imaginando o que ela quis dizer sobre comida. A vó, Beth, se defende:

- Só fica um tempo comigo. É claro que vou fazer o que ela quer. Os pais que digam que não.

Ali estava presente a máxima: os pais educam e os avós deseducam.

O viking, a todo momento, queria se apossar de algum dos celulares disponíveis, demonstrando seu precoce e grande conhecimento da importância da tecnologia. Queria ver o “du” desenho que é disponibilizado para ele no celular. Manteve a atenção do avô o tempo todo, com seus pedidos e diálogos. E aí, se não o responde.

- Vô, vô, vô – cobra.

Em determinado momento, após inúmeros diálogos meus com ele, resolveu sentar ao meu lado, ou melhor, aboletar-se ao meu lado, para assistir a desenhos. Foram vários capítulos. Quando eu lhe dizia o nome das coisas e dos animais que apareciam, observei que já os conhecia e manifestava o seu nome. Pelo visto, já deve ter visto aqueles desenhos, ao lado do avô inúmeras vezes. Segundo o vô centenas. Aliás, descobri que o pequeno querubim possui um especial grau de desenvolvimento, pois consegue sintetizar os nomes em alguns vocábulos ou sons, quando nós, os adultos, necessitamos de palavras mais complexas. “Alo” é cavalo, “lão” é Carlão, “olha” é bolha e por aí vai. Depois de um tempo, consegui sintonizar meu tradutor a esse linguajar.

Fiquei encantado, como ele já possui um entendimento de pintura moderna, no caso, o cubismo, que conhecemos em Picasso, quando observei a atenção e o encanto que tinha por um desenho chamado “Peppa”. Expressão máxima do que eu menos entendo sobre a estética de hoje em dia. Desenho chapado, poucas linhas e figuras disformes.

A neta, por sua vez, se apossou do quarto do vô, transformando sua cama em campo de batalha. Suas roupas, foram algumas da vó, onde ficava seu pescoço e cabeça para fora e o restante se perdia num enredado de tecidos. Eram vestimentas de guerreira. Ali travou suas batalhas, longe de nossa vista.

O almoço, foi tranquilo, pois teve a comida das crianças e a dos adultos. Comeram o que a vó sabia que lhes agradaria. Pois como ela diz, na casa da vó tem comida. Pelo estado dela, coitada, imaginei como deve ser duro em sua casa. Estava gordinha e rosada graças à água que toma.

Após almoço, tivemos momentos parecidos aos da manhã. O pequeno normando apresentou uma grande determinação, pois houve momento em que seus olhos demonstravam o desejo de dormir, mas o seu racional dizia que não. Todo o seu comportamento e humor demonstravam o grande conflito que ocorria, até que em determinado momento, o físico e irracional, o sono, venceu o racional, não querer dormir.

De vez em quando a guerreira, que constantemente escutávamos se comunicando com a avó, aparecia pela sala, contava fatos ao avô, ouvia seus comentários, para os quais sempre tinha algo a contestar ou acrescentar, demonstrando um crescente processo de raciocínio, pois apresentava frases e ideias que surpreendiam pela precocidade. Esses pequenos seres são mais espertos que nós. Cada tirada. A mãe vive alertando: Cuidado com o que falam na frente dela, pois parece esponja.

Ao final do dia a mãe veio buscá-los.

Após a ida, foi um recolher de coisas pela casa, um recompor de sofá e da cama, um recolocar de cadeiras. Afinal, um silêncio se abateu sobre a casa. Os dois sentaram no sofá, com um ar de cansaço e de dever cumprido. Demonstravam outra máxima: “Netos, uma alegria quando chegam e outra quando se vão.”

Naturalmente, à noite, a conversa girou sobre o que ocorreu durante o dia e outros histórias dos quais se relembram dos netos, com satisfação e risos.

No dia seguinte, os avós, como soldados, estavam a postos. Notava-se claramente a espera, o desejo de que chegassem. Parecia que não os viam há dias.

Barulho na fechadura, batidas na porta e ela se abre. Como uma invasão viking, um normando de uns 60 cm de altura, entra desembestado ..... e mais um dia acontece.

12/12/2022

IRMÃO CONTRA IRMÃO



INTRODUÇÃO

Estamos vivendo um momento de grande bipolarização. Muitos pedem ações mais radicais, como A intervenção militar. Para melhor avaliar o que pensar e fazer, contarei uma história que ocorreu durante a Guerra Civil Espanhol, que aconteceu entre 1936 e 1939. Esta foi uma guerra que dividiu um país ao meio, desfazendo e separando famílias, amigos, pais, filhos e irmãos, em razão de posições políticas e religiosas. Foi fruto de uma profunda polarização.

 

IRMÃO CONTRA IRMÃO

Ramon Porell dirigia seu carro pelas estradas do interior da Espanha, a caminho da casa que pertencera aos seus pais. Era início de 1978. Havia dois anos que o ditador Franco morrera e a Espanha vivia novos tempos, anistiando os perdedores da guerra, que haviam se refugiados em outros países. Ramon estava com 53 anos e esta é a primeira vez, que retorna a seu país. Como será recebido pelo irmão, a quem não vê há cerca de quarenta anos? Haverá possibilidade de diálogo entre eles? Suas vidas foram divididas pela guerra e pela desgraça que se abateu sobre a família.

A estrada serpenteia por campos pedregosos, que se perdem aos pés das serras, com alguns rebanhos de bois, ovelhas e cabras. Veem-se olivais; de tempo em tempo videiras e muitas amendoeiras. Aqueles campos trazem com força as imagens da sua infância, quando com o irmão Isidro, corriam por eles, procurando caracóis, colocando armadilhas para lebres e outros pequenos animais. Lembranças de quando o pai os levava a caçar javali, o qual era preparado pela mãe em um farto almoço de domingo, com arroz com caracóis, saladas da horta, chouriços e o bom vinho produzido pelo vizinho, Dom Agustin. Eram uma família feliz e alegre, até que uma nuvem de dor e incertezas se abateu sobre eles.

Parou em frente à Igreja de São Nicolau e da Virgem das Dores, na entrada da cidade. Uma construção com características românicas, toda em pedra. A visão é maravilhosa, pois há milhares de andorinhas, pousadas nos telhados, nos beirais, nos nichos e na torre do campanário. A igreja parece uma noiva coberta de enfeites. Relembrando os tempos de infância, não resiste. Desce do carro, grita para assustar os pássaros, que se elevam aos céus formando redemoinhos que se entrelaçam entre si, cobrindo o sol pela sua quantidade. Espetacular. Pouco a pouco, voltam aos seus lugares. Recorda-se da mãe indo à missa, do pai participando da Semana Santa. A festa dos santos no início de fevereiro, quando uma grande paella era servida para toda a comunidade. Como uma grande família, cada um levava um prato de doces ou salgados e garrafas de vinho, partilhando com os vizinhos.

Toma a rua principal da cidade. Uma placa indica: População 308 habitantes. Um terço da população que havia quando ali vivia. Depois da guerra, muitos jovens tiveram que se mudar para cidades maiores em busca de trabalho. Foi o início da grande saída do campo, que levou o país a ter o que se chama “Espanha Vazia”, com cidades esvaziadas e algumas abandonadas. Passa em frente à venda do Manolo, onde se ouve uma zarzuela tocando alto em um rádio. Era o local onde a comunidade se encontrava para beber, jogar cartas e em vários finais de semana havia um bingo.

O calçamento é de pedra, assim como os velhos casarios e a maioria das casas. Pelo caminho passa em frente a antigos armazéns com seus sistemas de polias para descarga das mercadorias, hoje abandonados, algumas cisternas em modelo árabe, cobertas por uma pequena abóboda de argamassa e ladrilhos onde se acumula a água das chuvas; e portas antigas de madeira escavada, que dão acesso a antigos pátios. Por ser pequena, a cidade a sua chegada chama atenção das pessoas, que param para olhar; quando não, chamam os vizinhos.

Chega à casa dos pais. Uma casa antiga de pedras, com uma janela à direita, tendo uma porta em uma reentrância na parede, formando um degrau em relação à rua e proteção contra a chuva, possibilitando ver a grande largura da parede. É geminada a outras casas que possuem a mesma construção e aparência.

Passou anos esperando por esse momento, pensando o que fazer, o que dizer e, agora, sente-se perdido. Como será a recepção do irmão? Como iniciar a conversa? Bate palmas.

Seu irmão abre a porta. É dois anos mais velho e mais alto. Tem os cabelos brancos desgrenhados e a barba por fazer, calça surrada e uma camisa listrada, a qual nota-se, foi vestida para recebê-lo. Tem um olhar gélido e a fisionomia fechada, o rosto duro de um homem do campo com claras marcas feitas pela vida. Não há sorriso entre eles. Um simples aperto de mão e o convite para entrar.

Senta, vou passar um café.

A casa não tem mais a aparência da casa da mãe. Que saiba, o irmão não casou. Poucos móveis, nenhum enfeite, somente uma foto do casamento dos pais em uma moldura oval. A casa está limpa. Há um frescor comum às casas de pedras, feitas para abrandar o calor no verão e proteger do inverno, que pode chegar a menos 10 graus.

Na família, tudo principiou a desequilibrar-se com a queda da monarquia e a ascensão da república em 1931. Fora promulgada uma nova Constituição, propondo reformas sociais e econômicas e a separação da igreja do governo, criando um Estado laico. A partir de então, começaram os grandes conflitos com a Igreja e os poderes constituídos, com suas estruturas arcaicas. Os latifúndios estavam nas mãos de famílias nobres ou tradicionais e ordens eclesiásticas, que cediam parte de suas terras a lavradores ou parceiros em condições precárias, em uma situação feudal. Nas cidades, empregadores não ofereciam condições e salários adequados. Nas minas de carvão, além do problema da remuneração, o trabalho era insalubre, inseguro e excessivo em carga horária.

Enquanto isso, nas capitais e nas maiores cidades, ocorria grande efervescência política, na qual ideias tradicionais confrontavam com novos movimentos de esquerda que fervilhavam na Europa, como o comunismo, o socialismo, o anarquismo, a democracia e outros mais. Esta ebulição se espalhou pelo país e chegou aos pequenos povoados. Lembra-se  Ramon de que Isidro, seu irmão, esbravejava que era um absurdo o que ocorria. Inclusive, tentaram incendiar a igreja da cidade, mas muitas pessoas intervieram, inclusive seus pais. Era histórica e possuía uma imagem do Crucificado de grande valor artístico.

Ramon respondia:

 Isto ocorre porque a igreja sempre esteve do lado dos ricos. Algumas possuem, inclusive, terras nas quais trabalham um povo explorado.

Daqui a pouco vou te ver correndo atrás de padres para fuzilar gritou Isidro.

Nunca! Temos que lutar por melhorias, mas não perseguindo nem matando nossos irmãos respondeu

Era constante as discussão entre os irmãos, que possuíam opiniões contrárias. Ocorria, o mesmo, com amigos e familiares. As reuniões no bar do Manolo escassearam. Os grupos rivais reuniam-se em dias distintos, para não terminarem em briga.

Precisamos de ordem, mesmo que seja debaixo do tacão de uma autoridade. De que vale a democracia com desordem? perguntava Isidro.

A democracia permite buscar o que é melhor para o povo e não só para as elites retrucava Ramon.

O pai, Salustiano, tinha que pedir inúmeras vezes, que se calassem e se respeitassem, assim como a ele e à mãe, Encarnação. Eles concordavam que os ricos e a igreja estavam errados, mas viviam pedindo a Deus, pela paz. Viviam um conflito entre a instituição e a fé.

A cidade que antes era de harmonia, passou a silenciar-se e apagar-se, pelo medo. A qualquer momento, pessoas podiam ser acusadas por professar opiniões contrárias e muitas vezes por simples inveja ou fruto de desavenças.

Em janeiro de 1936 houve novas eleições, vencidas pela esquerda, levando a um aumento dos conflitos entre o povo e as instituições, com a queima de igrejas, a perseguição de padres e freiras, a prisão de nobres, industriais, comerciantes e pessoas ditas de direita. Houve fuzilamentos sem julgamento, na calada da noite. O governo não estimulava esses atos, mas não os coibia, além dos constantes enfrentamentos que havia entre os diversos grupos.

Esta situação levou em julho de 1936, à sublevação militar em Marrocos, então protetorado espanhol, comandada por Francisco Franco, tendo ao seu lado a “Guarda Moura”, legião estrangeira formada por soldados muçulmanos marroquinos, que possuíam forte treinamento militar devido às constantes guerras na região. Diziam tratar-se de uma “Cruzada” contra ateus e comunistas. A sublevação não obteve êxito em toda a Espanha.

Naquele momento, o pais ficou dividido e começou uma GUERRA CIVIL. De um lado o Bando Nacional e de outro o Bando Republicano. Os sublevados obtiveram o apoio da Itália fascista de Mussolini, da Alemanha nazista de Hitler e o apoio velado de Salazar, ditador de Portugal. Os republicanos, por sua vez, contaram com o apoio da Rússia e de uma série de idealistas do mundo inteiro, das mais diversas conotações políticas, que seguiram para a Espanha com o objetivo de lutar contra o fascismo, formando as chamadas Brigadas Internacionais. As grandes potências mantiveram-se neutras.

O clima na família Porell piorou, quando chegaram à cidade, em março de 1937, vários grupos de refugiados que haviam escapado das atrocidades ocorridas na estrada de Málaga para Almería, fugindo dos nacionalistas, que combatiam pela cidade de Málaga. Pediam abrigo para descansarem, roupas, comida e ajuda para chegarem a Barcelona, que na época estava nas mãos dos republicanos. O pai, a mãe e Ramon saíram à rua para receberem essas pessoas. Ao final, acolheram em sua casa um grupo composto de mãe, avô e dois filhos pequenos.

Isidro pôs-se contra de imediato.

Como vocês podem receber um grupo de comunistas foragidos? É uma loucura, um absurdo! Que eles arquem com seus atos.

Seus pais respondiam:

É gente como nós que está pagando com suas vidas, simplesmente por estarem no meio de uma guerra.

Ele continuava discutindo com os pais e com o irmão, que também saíra para ajudar. Saiu de casa dizendo que não voltaria até que aquelas pessoas fossem embora. Foi dividir suas reclamações junto a amigos que pensavam igual.

A família providenciou água e sabão para se lavarem, roupas que tinham ou conseguiram com os vizinhos e sapatos, pois os deles estavam esfarrapados, tanto que alguns tinham os pés em carne viva. Ofereceram o pouco de comida que tinham ,além de que vários amigos também dividiram. Comiam desesperadamente. Via-se que havia vários dias não comiam ou mal comiam. Estenderam cobertas no chão e acomodaram-nos, como possível. Espalharam-se pelos cantos, quando não permaneciam juntos.

Na manhã seguinte, um café aguado, pão e alguns pedaços de toucinho. Manola, como se chamava a mãe, contou que moravam em Málaga, que o marido estava na frente de batalha, ficando ela, o sogro, a sogra e três crianças.

Mas só está seu sogro e duas crianças. E os outros? perguntou Encarnação.

Já o conto. Ocorre que os fascistas começaram a tomar áreas dos republicanos, como Sevilha, Ronda e Granada, e a população começou a fugir para Málaga, que ainda estava nas mãos dos republicanos. Fugiam, porque diziam que os nacionalistas fuzilavam aos homens que encontravam, não importando a idade e nem se participavam no conflito ou em movimentos. Falavam que os moros da Guarda Marroquina, matavam as crianças, velhos e abusavam das mulheres, principalmente as mais jovens. Em pouco tempo, havia o dobro de pessoas na cidade, pelas ruas, praças, igrejas, onde fosse possível. Faltava comida e água. A cidade começou a ser constantemente bombardeada. Dormíamos vestidos para podermos correr aos abrigos quando chegavam os aviões. Os fascistas se aproximavam da cidade.

No dia 7 de fevereiro, principiou o pânico a se espalhar, com a informação que os fascistas e a Guarda Mora estavam tomando a cidade, matando e abusando de qualquer um. As pessoas pegavam o que podiam em suas casas, colocavam em malas, bolsas, sacos, no que pudessem carregar. Poucos tinham carros, que saiam atulhados de móveis, cadeiras, colchões e roupas, o que cabia, como se quisessem levar parte de suas vidas. Outros se valiam de burros, cavalos, carriolas e bicicletas. Nós que não tínhamos nenhuma forma de transporte, levávamos nossas coisas em sacos, na cabeça, pendurados nas costas, seguros pelas mãos. As crianças levavam pequenas malas ou bolsas. Elas tinham entre 5 e 8 anos.

A multidão seguia para Almeria. Apesar da estrada ter 220 km, era a saída que se apresentava. A voz de Manola começa a tremer, seu rosto se crispa e lágrimas começam a sair. Soluça; não consegue continuar. Para, respira e recomeça:

Na estrada parecia uma procissão. Era uma grande fila de pessoas. No começo não haviam ataques, mas logo ao amanhecer, chegaram os aviões. As pessoas, que andavam, começaram a correr, muitas caiam, mães gritavam pelos filhos e eles por elas. Muitos velhos mal conseguiam caminhar, quanto mais correr. Malas, objetos eram largados de qualquer forma; o importante era preservar a vida. Ouviam-se gritos, choros e alaridos. Começaram os bombardeios. Os aviões descarregavam as bombas, recarregavam e voltavam para continuar. A estrada fica entre a serra e muito próxima do mar. Vários navios chegaram e também começaram a bombardear. Rochas caiam pela estrada atingindo pessoas que corriam, quando muitos se desencontravam e se perdiam.

Manola, para e chora. Seus filhos que estão próximos também choram. Seu sogro tem o olhar parado, parece não estar ali. Notam-se lágrimas em seu rosto escorrendo. Ela, retoma:

São imagens, sons e cheiros que não me saem da cabeça. Ao final de cada bombardeio, o ar estava impregnado de enxofre e sangue. Havia muito sangue no chão de pessoas e animais. Corpos estraçalhados. Crianças perdidas. Pais desesperados buscando seus filhos. Velhos que se punham no chão e preferiam esperar a morte a ter que correr ou andar.

Quando os barcos estavam mais próximos da costa, metralhavam as pessoas. Podia-se ver os marinheiros nos convéns e, às vezes, ouvir seus gritos. Vi mães mortas com seus filhos de meses no colo. Uma que não me sai da memória: com peito fora da blusa para dar de mamar, morta, e a criança caída ao lado chorando. A grande maioria eram mulheres, crianças e velhos. Que valor militar tínhamos? Era uma chacina. Eram bárbaros. Não é possível acreditar, que eram espanhóis matando espanhóis. Irmãos matando irmãos.

Os aviões iam e vinham descarregando bombas, os navios bombardeando e metralhando. Se há inferno, aquilo era o inferno. Corpos por todos os lados, pedaços de vida em meio a malas, bolsas largadas pelo caminho. Muitas, muitas crianças perdidas, chorando. Pais desesperados procurando seus filhos quando não, os encontravam mortos. As pessoas não podiam cuidar das outras, pois estavam cuidando de se salvarem e manter sua família unida.

Chora Manola, choram todos em volta. Um sentimento de repulsa se espalha. Continua Manola:

Ali, morreu minha sogra por uma bomba que a pegou, pois, não conseguia correr e se deixou ficar onde estava. Ali perdi minha filha menor, Angelita, que se soltou de minha mão e não mais a encontrei. Chamei, gritei, procurei seu rosto entre as inúmeras crianças mortas que encontrava pelo caminho. Não a encontrei.

Grita e chora convulsionada:

São bárbaros. Somos todos irmãos. Que sede tinham de morte. Éramos mulheres, crianças e velhos, mulheres, crianças e velhos. Assassinos. Que país querem? Um país forrado de corpos e tingido de sangue dos irmãos?

Ramon, lembra-se, hoje, as palavras daquela mulher e seu rosto, onde o horror, o medo e o nojo estavam estampados. Crianças que choravam as lembranças recentes, um velho fechado na sua dor com um olhar perdido na inutilidade da vida.

Depois da guerra, soube mais dessa chacina ocorrida na estrada de Málaga para Almeria em fevereiro de 1937. Era uma corrente de mais de 50.000 pessoas fugindo, onde uma 5.000 eram crianças. Morreram de 3.000 a 5.000 pessoas. Bem mais que as 1.600 que morreram em Guernica, pelos bombardeios da Legião Condor alemã, que ficou imortalizada pelo quadro de Picasso. A chacina da estrada de Málaga para Almeria, conhecida como “La desbandá”, por muito tempo ficou encoberta pelo governo franquista, para não trazer à tona esta chacina vergonhosa e pelos republicanos, criticados por não enviarem reforços para Málaga, quando esta pediu ajuda.

Málaga caiu nas mãos dos nacionalistas em começos de fevereiro de 1937, com a ajuda de legiões do exército fascista da Itália de Benedito Mussolini.

 Após a família de Manola, nos dias seguintes, outras famílias apareceram, nas mesmas condições, fugindo dos avanços dos nacionalistas, que gradualmente tomavam regiões com apoio, além dos italianos, da aviação Condor da Alemanha Nazista. Estas pessoas, precisavam de acolhida e ajuda para chegarem a Valência ou Barcelona, ainda em mãos republicanas.

Os conflitos da família com Isidro aumentaram, a ponto de ele sair de casa, ir para as montanhas e se juntar ao exército nacionalista, que vinha avançando. Problemas similares aos dos Porell, ocorriam em outros lares.

Em meados de 1938, os franquistas tomaram a região onde viviam. Muitas pessoas, envolvidas em movimentos de esquerda ou que perseguiram vizinhos com posições contrárias às suas, trataram de fugir. Houveram buscas de casa em casa. Ramon e seu pai, com muitos outros homens e jovens, foram presos. Presumidamente, seriam julgados, - o que não era muito certo - alguns soltos, e a maioria, seria condenada à morte e sumariamente fuzilada.

No terceiro dia da tomada da cidade, que a cada dia recebia mais grupos nacionalistas, chegou Isidro e seu pelotão. Foi a casa da mãe, encontrando-a desesperada pela prisão do pai e do irmão.

Tratou de ir à prisão, onde estavam, e conversou com o capitão que cuidava do assunto, dizendo quem era e argumentando:

Meu pai e meu irmão foram presos por engano.

Não foram, não. Eles acolheram muitos comunistas e os auxiliaram, dando estada, comida e ajuda na fuga respondeu o capitão.

Minha mãe, é católica fervorosa e meu pai participa das Semanas Santas. Ocorre que ficaram com pena das famílias, que eram compostas de mulheres e crianças. Atenderam ao mandamento de Cristo, de ajudar ao próximo. Fizeram-no por humanidade e não por política.

Mas teu irmão, sabemos por muitas pessoas da cidade, que está envolvido com grupos de esquerda.

Ele só tem 17 anos. O grupo com quem se reunia, nunca empreendeu nenhuma ação política. Inclusive ele, meus pais e outros, quando quiseram queimar a igreja, não permitiram.

Tem razão, soubemos por muitos depoimentos dessa atuação. Vou soltá-los em confiança a você, mas cuide deles. Ficarei de olho, principalmente no teu irmão: pode haver uma semente de pensamentos vermelhos dentro do garoto. Os dois foram soltos.

Em casa, após a alegria da mãe em recebê-los, Isidro recomendou ao seu irmão:

É melhor você ir embora. Entre meus companheiros, muitos falam a teu respeito. Há inveja entre eles, porque o Capitão me tem estima e te soltou. Dizem que você é um vermelho e ainda te pegarão.

Após uma troca de ideias, ficou acertado, que ele iria, no dia seguinte, para as ruínas abandonadas de uma antiga casa de campo, que ficava uns 6 quilômetros da cidade e aguardaria a noite para fugir. Sem seu irmão soubesse, seu pai informou a Ramon, que outras pessoas estariam se reunindo ali, para fugirem juntas. No dia seguinte, Ramon, dando a entender que ia para o campo trabalhar, dirigiu-se furtivamente para o local.

No meio da tarde, desse dia, Salustiano recebeu o recado, de um antigo companheiro, que sua mulher e dois filhos chegariam na madrugada daquele dia, e pedia que os ajudassem a fugir. No início da noite, correu para o refúgio onde estava o filho e explicou sobre essa família. Que aguardasse; assim, poderiam seguir com ele. Aproximadamente, às quatro da manhã, bateram à sua porta. Era a família que esperava. Só havia dois rapazes, com idades próximas à de seu filho Ramon.

— Onde está sua mãe? — perguntou Salustiano.

— Ela tinha problemas nas pernas e no coração, no caminho, pelo cansaço e o medo, passou mal e morreu. Iriamos nos encontrar com outro grupo, mas com o atraso do seu mal estar e de enterrá-la no meio da serra, nos atrasamos. Então, nos recomendaram vir para aqui.

Após Encarnação, lhes dar algo de comer e beber no caminho, Salustiano rapidamente os levou para se encontrar com o grupo.

— Ramon, são só os dois. A mãe morreu no caminho. Onde estão os outros?

— Pai, como conheço o caminho, foi decidido que outros fossem na frente e eu iria depois, diminuindo o número de pessoas juntas. Como o sol logo aparecerá, passaremos o dia escondidos e à noite sairemos.

No dia seguinte, ao chegar ao agrupamento, Isidro, foi chamado pelo Capitão, que estava com alguns chefes de grupos e disse-lhe:

— Seu irmão, ontem, foi trabalhar, mas recebemos a informação de que não voltou para casa à noite. Depois, soubemos por alguns depoimentos voluntários — disse rindo — que ele e outros planejam uma fuga.

Isidro sabia o que significava, depoimento voluntário, já havia participado de vários, em que por torturas obtinham informações.

Teu irmão é um comunista e você o está acobertando. Temos que ter a Pátria acima de qualquer coisa, até da família. Acima da Pátria, somente Deus. Você  tratou de o libertar para que fugisse. Não estará você envolvido na fuga de outros, também?

Meu comandante, eu sempre mostrei minha lealdade nas batalhas que lutei. Coloquei a Pátria acima de tudo, inclusive da minha vida.

Prove tua lealdade. Trate de saber onde ele e os outros possam estar, caso contrário, iremos buscar essas informação junto a teus pais.

Isidro saiu desesperado. Devido ao fato de seu irmão ser esquerdista, seus pais poderiam sofrer represálias e quem sabe torturas. Ocorreu-lhe uma ideia, como ficou combinado que seu irmão fugiria no dia anterior, diria que após algumas verificações, soube que ele e outros, estão se reunindo nas ruínas da velha casa de campo. Pensou: quando chegarem não encontrarão ninguém, ou encontrarão outras pessoas, mas haverá vestígios de que estiveram por ali.

Feito isso foi para casa, pois se sentia cansado pelos dias de batalhas e andanças na serra, somado a forte tensão envolvendo seus pais e irmão. Chegando em casa encontrou Paco, amigo de infância que pertencia ao mesmo agrupamento. Convidou-o a entrar para tomar um copo de vinho. Sentaram-se à mesa para beberem, enquanto seu pai estava por lá e perguntou pela família a Paco, que respondeu com generalidades.

Paco virou para pai de Isidro e disse-lhe:

- Dom Salustiano, colocaram teu filho na parede por causa de Ramon. Sabem que o comunista do teu filho está fugindo com outros e cobraram de Isidro para dizer onde estavam, ou viriam buscar a informação com o senhor e dona Encarnação. Teu filho acabou obtendo a informação. Serão presos nas velhas ruínas da casa de campo.

Isidro. notou na hora que seu pai ficou lívido e nervoso. Com a desculpa da necessidade de cuidar de algo, saiu. Sentindo-se preocupado e tenso, tratou de terminar a conversa e foi procurar por sua mãe na vizinha, onde veio saber que seu irmão não tinha ido embora no dia anterior, mas sim, iria naquele. Desesperado, saiu rapidamente em direção às ruínas da casa de campo, onde o pelotão já poderia ter chegado em busca do pessoal que por lá poderia estar escondido.

Ao se aproximar ouviu um tiro. Correu. Encontrou seu pai ferido no chão. E ouviu um dos soldados dizendo:

Esse velho filha da puta veio avisar os vermelhos para fugirem. Quando chegamos, estavam correndo para o campo. Pegamos ele que tentou fugir. Merece morrer.

E em frente de Isidro, que não teve tempo de intervir, meteu um tiro na cabeça do ferido.

Não, não, é meu pai.

Possesso, atirou-se contra o atirador, derrubando-o. Outros o seguraram.

Filho da puta é meu pai. Ele não é vermelho.

Para, não vem com lenga,-lenga. Ele veio avisar para fugirem. Se não fosse por ele, teríamos prendido todos.

Ramon, escondido com os dois rapazes, em uma passagem de água que ficava abaixo do nível da estrada, escutou e viu o que ocorreu. Sua reação foi levantar-se e correr para o pai. Os jovens, percebendo o que iria fazer, o seguraram. Abafando o choro, ao colocar junto a boca uma sacola de pano que levava, maldize-se por ter sido o causador da morte do pai. Chorou ódio contra o irmão que fazia parte dos assassinos. Chorou a dor que a mãe teria.

Conseguiu fugir de madrugada, indo para Barcelona e quando esta caiu nas mãos dos fascistas, se refugiou na França. Depois de um tempo, quando a França estava tomada pelos nazistas, conseguiu ir para a Inglaterra, onde vive até hoje.

Isidro, ao ver o pai ser morto, sentiu uma pontada de loucura. Fora ele que denunciaram a localização. Em uma forma de amenizar sua culpa, a transferiu para o irmão. Não fora por ele com suas ideias esquerdistas, não haveria ocorrido o que ocorreu. Por culpa de seu irmão, o pai fora morto. Se não fossem suas ideias revolucionarias, seus pensamentos liberais, e seu envolvimento com grupos contrários à guerra santa que libertava a Espanha, nada daquilo teria ocorrido.

Teve que encarar sua mãe e numa história um pouco alterada, contou a morte do pai. Encarnação, não gritou, não chorou. Entrou em um mutismo e em um olhar perdido no nada, durante semanas. Só pediu ao filho, que trouxesse o corpo do pai, para ser decentemente enterrado e não jogado numa vala comum.

No enterro não foi ninguém da cidade. Não queriam ser vistos junto a uma pessoa, mesmo que morta, estigmatizada por suas opiniões e posições. Muitas outras mortes, por fuzilamento, ocorreram nas semanas seguintes. Depois, como um véu, baixou o silêncio na cidade. Ninguém queria relembrar qualquer fato do passado e principalmente os mais recentes.

Um grande ódio cresceu no coração dos dois irmãos, que até aquele momento, por cerca de 40 anos não se comunicaram mais. Ramon mandou algumas cartas a sua mãe, que raramente respondia. Queria que ela fosse morar com ele na Inglaterra, mas ela nunca respondeu aceitando. As cartas dela relatavam coisas do dia a dia, sem nenhuma importância e em nenhum momento os sentimentos que vivia. Recebeu, somente uma vez, carta do irmão, informando em uma linha que a mãe morrera, não dizendo quando ou como.

Agora, ali estava Ramon, 40 anos depois, aguardando o irmão passar um café, no palco onde o esfrangalhar da família ocorreu. Uma foto do casamento dos pais numa moldura, em um dos cantos da sala, fez subir um nó na garganta, onde se acumulou em silêncio, com lágrimas que queriam escapar dos olhos.

— Ramon, aceita uma copita com o café?

— Sim.

Os dois tinham dificuldade de se olharem, de se falarem. Um silêncio pesado baixou no ambiente. Na cabeça de cada surgia, o que dizer, o que fazer. Ramon, que o havia procurado, resolveu começar:

— No dia da morte do pai, ele veio me avisar que você, pensando que eu já havia ido, denunciou o nosso ponto de encontro. Só que sabia que eu ainda estava por lá. Era eu e mais dois jovens. Saímos rapidamente, mas logo chegou a tropa nos procurando. Não podíamos correr pelos campos, seríamos vistos. Nos escondemos em uma passagem de água antiga, que passa a maior parte do tempo seca e encoberta de mato, um pouco abaixo da estrada. Só quem conhece sabe onde está. Acredito que você a conhecia. Daquele ponto eu tinha total visão da frente das ruínas. Vi e ouvi o que aconteceu.

Nesse momento, os olhos de Isidro se arregalaram, pareciam querer sair da órbita. Não disse nada, mas o seu rosto e sua postura mostraram estar em choque. Ramon, notou o grande conflito que começou a ocorrer dentro dele e que se notava em todo o seu ser.

— Éramos jovens e nos deixamos levar pelas emoções e posições que considerávamos corretas. As minhas, por toda a minha vida, deixaram-me tranquilas. Participei, ajudei, indiretamente lutei, mas em nenhum momento transgredi a dignidade de um ser humano. Não sei das tuas atitudes. As morais, boas ou más, estarão dentro de você e o perseguirão por toda a vida. As políticas, agora que a Espanha se abre, e que em algum momento, exporá suas feridas, a história julgará.

Isidro nada falava. Algumas gotas de suor escorriam pela sua fronte. Era palpável seu choque. O que imaginava ser somente um segredo seu, era conhecido pelo irmão. Escondera para a mãe, mentira para os vizinhos e obrigara o silêncio dos companheiros do pelotão. Naquele momento, sentimentos de vergonha, arrependimento e frustração correram pelos seus pensamentos e coração.

Retomando folego e coragem, Ramon, olhando fixamente o irmão, continuo:

Carreguei, por muito tempo, dentro de mim, ódio extremo por você, culpando-o pela morte do pai e a grande dor da mãe. Porém, o amadurecimento e o avaliar da história, estando fora, me permitiram ver, que interesses, que estavam acima dos desejos do povo, se valeram dos conflitos que haviam entre a população. Aproveitaram para dar margem de se expandirem e colocaram uns contra os outros, possibilitando em muitos momentos, que o lado bestial de muitos aflorassem.

Calou-se. O irmão com olhar para o chão, o corpo curvado pelo peso dos fatos, nada falava. Ramon, permaneceu um tempo calado, observando a mudança que se dava no outro. Sentia um grande alívio por ter conseguido dizer o que precisava, mas, ao mesmo tempo, uma tristeza, por ver alguém que por anos fora seu companheiro e a quem respeitava, por ser o mais velho, desfazendo-se à sua frente.

Venho para te dizer que te perdoo, como tratei de me perdoar. Quero morrer sem carregar este grande peso.

Isidro, continuou permanecendo quieto. Após um tempo, Ramon, não sabendo o que mais dizer, levanta e estende a mão despedindo-se.

Ao entrar no carro, pelo retrovisor, vê um homem velho e acabado. Ali estava uma pessoa a quem não conhecia mais.

Espero, poder voltar um dia e abraçá-lo pensa.

EPÍLOGO

A guerra civil espanhol dividiu o país em dois, colocando amigos, famílias, filhos e irmãos em posições contrárias. Em uma Espanha de 25 milhões de pessoas, morreram durante a guerra cerca de 500 mil, segundo números oficiais. Após a guerra, no extermínio de pessoas com posições contrárias aos vencedores, mais de 200 mil foram presas e sumariamente fuziladas. Fora as que permaneceram presas em campos de concentração ou em trabalhos forçados. Sem contar as centenas de milhares que se exilaram pelo mundo afora. A grande maioria eram jovens. Além da grande perda humana, houve a perda de potencialidade pessoal e profissional, afetando a futura recuperação do país. Ocorreram quebras significativas nas estruturas industriais, residenciais, hospitalares, nos campos e nos diversos fluxos que permitem a um país viver.

Durante anos, o país viveu medo e fome. Medo por temerem que descobrissem relações de amizade, parentesco ou mesmo de atuação em atividades no período anterior. Medo de denúncias, às vezes, por desavenças passadas ou inveja.  Houve supressão das liberdades políticas e de informação.

A fome persistiu duramente nos anos 40. O sistema de racionamento, só veio a ser desativado completamente no começo dos anos 60, ou seja, mais de 20 anos após o fim da guerra.

Quando se pede intervenção militar, o que se pede é sublevação à ordem constituída. Quem diz que todos aderirão? Podemos ter um conflito entre forças militares ou conforme a amplitude, uma guerra civil. A espanhola, usada aqui de exemplo, mostra aonde se pode chegar. Em todas as guerras, passadas e presentes, observamos que no homem, há uma besta humana, presa por uma simples tramela. Quando se solta, quanta insensatez, desumanidade, quantas atrocidades!

A história contada é real e extremada. Esperamos que não tenhamos que passar por experiências similares.

  

26/11/2022

SURPRESA

 


Estamos vivendo significativos impactos nos costumes, afetando os homens, na moral e na sua forma de ser. Estará ele se redescobrindo ou se distanciando da sua essência?

 

Nelson e Paula estavam na faixa dos trinta anos. Eram um casal cheio de amigos. Entre todos, tinham uma amizade mais estreita com Rubens e Sandra, que estavam na mesma faixa de idade e viviam as mesmas realidades. Afirmação profissional e financeira, postergando a vinda de filhos, para após a estabilidade de suas vidas.

Saiam com frequência para a noite e finais de semanas. Nelson e Paula possuíam um casamento de quatro anos, fruto de fortes sentimentos de amor entre eles, que surgiram após algumas frustradas ou descompromissadas relações. Sonhos, planos para a casa própria, filhos eram assuntos constantes em suas conversas.

Possuíam uma relação amorosa, sexual num bom entendimento. Provocavam-se com jogos eróticos, envolvendo roupas, momentos e locais. Nesses jogos, no objetivo de um maior estímulo, começaram a fantasiar histórias envolvendo pessoas que não possuíam rostos, mas comportamentos de erotismo e sexualidade. Num desses momentos, Nelson deixou escapar o nome da amiga Sandra, salientando sentir uma atração por ela. Ele e Paula, começaram andar por essa fantasia, onde em alguns momentos, também surgia a figura de Rubens, marido de Sandra.

A vida continuava com o dia a dia de trabalho, os relacionamentos e as amizades. Passado um tempo, Nelson começou a notar mudanças no comportamento de Paula. Estava mais amorosa, mais quente no sexo, mais sensual. Havia um novo brilho em seus olhos. Eram mudanças marcantes e isso começou a lhe incomodar. Notou que ao ligar para o seu escritório não estava e também não atendia o celular. Isso ocorria com frequência.

Em um dos dias resolveu ficar à espreita e segui-la. Ela foi a casa de Rubens e Sandra.

Não era possível! O estava traindo com um dos seus melhores amigos, nem levando em conta, a amizade com a esposa.  Já havia notado, algumas vezes, olhares de Rubens para sua mulher, mas, nunca, suspeitou que pudesse haver algo entre eles. Ficou paralisado, não tendo nenhuma reação no ato. Sua cabeça tornou-se um turbilhão.

Passou a ter dificuldades no trato do dia a dia e no relacionamento com esposa, inclusive no sexo. Paula, notava algo estranho e questionava.

Nelson, afinal, resolveu pôr a situação as claras. A seguiu em outro dia. Ela foi para seu apartamento.

 - Que hipócrita, está me traindo em nossa cama!

Aguardou um tempo e subiu. Entrou, pé ante pé, para não fazer ruido e foi até seu quarto, de onde vinham gemidos de prazer. Estava tudo na penumbra.

Notou o corpo de sua mulher nu sobre outro corpo. Foi buscando uma posição que melhor pudesse observar. As duas pessoas não notaram sua presença, pela penumbra. O pouco reflexo de luz o permitia ver lábios que se tocavam, beijos e línguas que se envolviam e corpos que se entrelaçavam. Não conseguia ver quem era. Moveu-se.

Surpresa! A outra pessoa era Sandra!

Instintivamente, acendeu a luz.

As duas mulheres assustadas se levantaram e o olharam.

Ele, meio zonzo, não conseguia pensar direito. Pela sua cabeça passava: sua mulher, Sandra, Nelson, os amigos, os corpos das duas suadas exalando sexo e erotismo. Não conseguia reagir.

Sua mulher após o susto, com um sorriso e um olhar malicioso, dirigiu-se a ele. Abraçando e beijando, começou a tirar sua roupa e a levá-lo para a cama.

- Vem junte-se a nós e realize teus sonhos eróticos.

Atordoado e nu, deitou-se entre elas.

Essa relação de prazeres e segredos durou mais de um ano, até que....... por razões profissionais, Rubens e Sandra se mudaram da cidade.