13/11/2023

QUEM COMEU MAINHA?

 

Esta história foi inspirada no conto de Carlos Batista Pereira “A mulher do padeiro”

 

O título parece provocativo, pois o sentido de "comer' é o popularmente utilizado para designar uma relação sexual. Pelo título, já se sabe qual é a grande resposta que se buscará na história. O leitor saberá de antemão quem comeu Mainha, aliás, nome pelo qual carinhosamente se chama a mãe no Nordeste de nosso país. Mas qual será a reação de alguns personagens ao saberem da resposta?

Nesta história, teremos a oportunidade de conhecer, um pouco como a moral pode variar em sua interpretação.

Busco histórias para colocar no papel, pois vejo nisso uma forma de perpetuar momentos, sentimentos e a arte de viver. A realidade está sempre escondida por trás de farsas, pastelões e dramas, mas, sempre como uma faca apontada para o coração dos personagens. Eles se parecem muito, mudando somente os endereços, as roupas, as dores e as alegrias, mas com a insana, maravilhosa, dolorida, triste, empolgante e, às vezes, inexplicável forma de viver.

Esta história me custou vários pratos de torresmo, ovos coloridos e goles de branquinha. Foi-me contada por um dos principais personagens. Perdoem-me, leitores, mas, em alguns momentos, não resisti e permiti que minha mente voasse por situações que não foram citadas ou detalhadas, mas que instigaram a minha imaginação de escritor. Carlos Pereira, meu amigo e escritor especialista em romances históricos, me disse: Quando temos uma inspiração, surja seja ela de onde for, precisamos deixar a imaginação correr, pois o que preenche a vida de um escritor é escrever. É o que vou fazer.

Areia Santa, nos anos 1960, era uma cidade de 2.000 habitantes, na costa norte do Ceará, próxima ao Piauí, a quatro horas de ônibus de Fortaleza. O ônibus só chegava ao local uma vez por semana, percorrendo um bom pedaço de estrada de terra, no meio da Caatinga. Era um paraíso, com suas praias desertas, coqueirais, dunas e alguns remansos que se formavam junto ao rio que descia da Serra de Ibiapaba, e que, de tempos em tempos, secava em seu caminhar, obrigando durante o ano, que os moradores guardassem água.

A cidade se formou apartir de uma vila de pescadores, que teve seu início com pesca de curral e de lagostas por armadilhas, chamadas manzuás. A pesca de curral, era a tradicional, feita através da construção de cercados próximos à praia, para quando a maré baixasse os peixes ficassem presos. Em determinada época, houve uma piora nos currais, afetando os vaqueiros do mar, o que os levou a desenvolverem a pesca de linha. Com isso, havia uma boa quantidade de embarcações, canoas, jangadas, paquetes e botes, que variavam nas suas estruturas conforme o tipo de pesca. A de alto mar era chamada de pesca de fora, e de terra, a próxima à praia. Uma se praticava no mar de fora e a outra no mar de terra, na linguagem dos pescadores. 

Graças aos bons resultados que a pesca trouxe, pouco a pouco, a cidade crescia, inclusive com a vinda de pescadores de outras cidades como Mandau, Sabiaguaba, Baleia e outras. Uma embarcação, três vezes por semana, passava pela cidade e levava os peixes e frutos-do-mar para Fortaleza.

Os que não trabalhavam na pesca, o faziam nas terras do Coronel Cupertino, dono de extensões na região. Possuía cultivos de feijão, milho, mandioca, banana, babaçu, carnaúba, além dos grandes coqueirais. Era, também, proprietário de grandes rebanhos de cabras, necessitando de mão de obra para cuidar dos chiqueiros, ordenhas e aproveitamento do leite, gerando produtos que transportava para a capital.

Era uma cidade pacata, possuindo a Igreja de Bom Jesus, cujo pároco era o Monsenhor Dárcio, extremamente conservador, protegido do Coronel Cupertino, que resolveu viver os últimos anos de vida na região, visto já ter 82 anos. Na praça principal, de frente para o mar, onde se realizavam as festas da cidade, estavam a Igreja e as casas das pessoas mais importantes. O traçado da cidade se compunha da praça, das ruas que dela partem e as paralelas. A maioria dos pescadores, viviam no bairro do Encantado, localizado próximo ao mar em uma vila própria, à direita do centro da cidade.

Na praça, um dos pontos principais é o bar, mercearia, farmácia, material de pesca, ferramentas, agropecuária, ou seja, tudo o que se precisa na cidade em um lugar só. Estabelecimento de propriedade do Deoclécio, que quando não tem o produto, encomenda e traz através dos barcos. Deoclécio, um dos personagens principais de nossa história, tem 72 anos e está na cidade, desde que era um pequeno povoado, tendo começado como pescador e em pouco tempo tendo aberto  uma pequena venda. É extremamente respeitado e querido na cidade, ao ser, praticamente, o médico e veterinário, indicando medicamentos. É casado com Mariana, com 40 anos menos que ele.

Quando ela tinha 18 anos, se engraçaram e abusando da sua inocência, acabou engravidando-a. Só não sabia as consequências. Um dia entra em sua venda Justino, cabra-da-peste, jagunço do Coronel Cupertino, com um trabuco pendurado nas costas e uma peixeira na mão.

- Filho de uma égua, você buliu com minha filha, era moça e você fez mal. Descabaçou a menina e ela não vai virar quenga. Ou casa, ou morre.

Tremendo e com um olhar de medo, pois, não sabia que o jagunço era pai de Mariana, teve que dizer sim. No fundo, ficou contente, pois, gostava dela, além de ser uma menina apetrechada, um pitéu. No futuro iria desabrochar em uma linda mulher. Era sopa no mel.

Casaram, com dezesseis anos ela foi mãe de Washinton. O garoto era cuspido e escarrado a cara do pai. O menino, agora com dezesseis anos, tendo completado os estudos iniciais na cidade, na escola que a comunidade mantém, pagando e dando moradia e comida para dois professores, fora mandado para a capital, à casa de uma prima, para continuar os estudos e se formar advogado. Ser um doutor, como dizia o pai.

Quando criança, Washinton chamava a mãe de Mainha. Era tanto Mainha para cá, Mainha para lá, que até Deoclécio, também, começou a chamar Mariana de Mainha. Como a cidade toda circulava pelo seu estabelecimento e ele se referia a mulher por esse nome, começaram a lhe chamar assim. Pouca gente, hoje, deve se lembrar do seu verdadeiro nome. Duas vezes, por semana, à noite e no domingo pela manhã, Mainha costuma ir à missa, onde participa da Legião do Sagrado Coração de Jesus. A presidente, Dona Joana, por não ter uma filha, tem por ela um amor de mãe. Não é difícil alguém não gostar dela. É uma mulher delicada no falar, com um olhar brilhante e um sorriso cativante. Atende a qualquer um que lhe solicite ajuda, estando sempre disposta, com isso, muito querida na comunidade.

O que ninguém sabe é que tem dentro de si um fogo ardente de desejo. Está com 32 anos, na plenitude como mulher, e tendo o marido com 72 anos. Muito carinhoso, atencioso, mas, negando fogo. Quando se deitava à tarde, depois do marido almoçar e retornar ao trabalho, no escuro do quarto, sentia uma força correndo pelo corpo, levando a pensamentos prazerosos, que lhe tomavam o peito, aguçando o ventre e umedecendo o sexo. Era algo que nunca sentira com o marido. Corria a mão pelo corpo, tendo reações desconhecidas. Todos os poros reagiam ao seu toque e se transformavam em gemidos, até atingir o ápice, prostrando-a na cama. Ficava longos momentos curtindo a sensação de bem-estar e relaxamento.

Dona Joana, presidente do Coração de Jesus, mulher madura e sábia, curtida da vida por uma separação, uma viuvez e três filhos criados, um dia disse a Antônia, sua amiga íntima da Legião:

- Antônia, estou preocupada com Mainha. Mulher bonita, bem formada de corpo, plena de vida e um marido velho, que deve negar fogo na cama. Isso me preocupa, ainda mais que está sozinha, o filho foi para a capital. Como o povo costuma dizer, é uma viúva de marido vivo. A mulher se entristece, fica borocoxô ou acaba corneando o marido. Homem nenhum gosta de ter um chapéu de toro. Pode dar em morte.

Deoclécio era arriado por ela e tinha um grande ciúme da mulher. Temia o assédio dos homens, por isso, pedia que fosse ao estabelecimento, somente quando necessário. Sabia da beleza da mulher, tanto que, quando tomava banho de mar com algumas mulheres de pescadores, como não tinham roupa de banho, entravam de vestido no mar, no momento que saiam, ele sentia o olhar de desejos dos homens em Mainha. Seios rijos, mamilos saltando do vestido, a saia grudando na bunda e marcando as formas bem proporcionais, tanto na frente quanto atrás. Tinha cabelos pretos até os ombros, olhos da mesma cor e uma pele jambo, que pelo sol tornava-se dourada. Sempre que podia, criava um empecilho para que a mulher não fosse para o mar. Mainha ria e brincava como uma criança inocente. Ela não lhe dava nenhuma razão para suspeita. Estava sempre animada e amorosa com ele. Cuidava de tudo que envolvia sua pessoa com muito carinho. Vivia lhe procurando na cama, mas aí estava o perigo, não estava dando pro couro.

Surgiu em Areia Santa uma pessoa nova no pedaço. Normalmente, qualquer um chamaria a atenção, mas no caso em questão, chamou ainda mais. Era um homem pintoso, em torno dos quarenta anos, com barba bem aparada e vestia-se bem. Era alto, 1,74 m, mais ou menos, magro, com um olhar firme e um leve sorriso, e muito atraente. Logo souberam que seu nome era Renato e estava a serviço do Coronel Cupertino, tanto que morava em uma das casas de sua propriedade. Podemos imaginar o festival de comentários que correram o povoado, fora o frenesi entre as mulheres solteiras e algumas casadas. Ele mal parava na cidade, diariamente se dirigia as fazendas do Coronel.

O corre, corre de informações e boatos, logo soube que era advogado, morava na capital, era casado, tinha mulher, um casal de filhos e cuidava dos diversos negócios do Coronel. Permaneceria alguns dias na cidade, tendo que viajar para outros locais, onde o Coronel possuía negócios. Quando na cidade almoçava na casa da Marola, em um acerto que devem ter entabulado, não sendo visto pelas ruas à noite. No bar do Deoclécio, parou uma vez, quando tomou um café com leite e comeu uma broa de milho, trocando alguns dedos de prosa. A impressão que deixou foi boa.

A casa onde Renato se hospedava, ficava no terreno nos fundos da casa de Mainha, tendo frente para a outra rua, e como a dela e poucas da cidade, possuindo um andar superior. Alguns dias após a sua chegada, estava Mainha no quarto superior, se trocando, passando em frente a janela de calcinha e sutiã, quando reparou, que ele estava parado na janela observando. Rapidamente, correu para um dos cantos se escondendo. Ela sabia quem era pelos comentários que escutara, entre as mulheres na igreja, e por vê-lo à distância. Ficou envergonhada, pensando na cena. À noite, na cama, quando Deoclécio pegou no sono, pelo cansaço do dia de trabalho, que normalmente era extenso, ela começou a divagar. A ideia de se imaginar observada em roupas menores lhe aqueceu o corpo, gerando pensamentos úmidos. Teve dificuldade em pegar no sono.

No dia seguinte, no mesmo horário do anterior, um pouquinho depois do almoço, quando Deoclécio voltara para o trabalho, olhou pela janela e não viu ninguém na casa ao lado. Resolveu passar creme no corpo e preferia o quarto do fundo pela luminosidade que entrava pela janela. Lentamente foi cuidando de si. Repentinamente, notou, pelo canto do olho, que ele a estava observando. Teve um estremecimento. Sua primeira reação foi  correr e sair da vista, mas parou, continuo lentamente a passar o creme e usufruir do prazer de estar sendo vista em roupas íntimas. Teve uma sensação de plenitude. Sabia que tinha um corpo perfeito, pois, notava os olhares que se voltavam quando passava pela rua, o quanto o seu marido ficava agitado quando saia do mar com a roupa molhada ao corpo. E o principal de tudo, o espelho lhe dizia a verdade. Era uma mulher na maturidade de ser mulher. Quando terminou, se retirou, se vestiu e se sentiu extremamente estranha e excitada. Depois, adveio um grande sentimento de culpa. Como podia ser tão desavergonhada, como podia fazer aquilo, manchado a hora do seu marido? Ela era uma mulher casada e bem casada e mãe de um filho maior. Foi uma noite de sono dificultoso na fronteira da vergonha e do prazer.

Como escritor, permitam interromper, não querendo interromper, mas, já interrompendo. Quero relembrar, sendo uma linda mulher, abusada aos quinze anos, mãe aos dezesseis, teve que casar com um homem quarenta anos mais velho, que sempre a tratou bem, dando uma boa condição de vida, mas, já por um bom tempo não se apresentando plenamente na cama. Lembro que estamos em uma região impregnada de machismo onde a mulher estava para servir o homem. Na cama, após uma rápida relação, eles se voltavam buscando o sono e deixando as mulheres perdidas, a meio caminho de um prazer mais intenso, fazendo-as se sentirem meras receptoras dos seus gozos. Os desejos, se perdiam no ar.

- Vai continuar a história ou vai ficar na prosopopeia? – grita alguém.

Calma já continuo. Ocorre que isto tudo me foi contado por um homem, que pôde transcrever o que sentia na época. Entretanto, Mainha, sendo a personagem principal da história, com ela não conversei. Portanto, tenho, no meu dever de escritor, relatar o que ela, possivelmente, vivia, valendo-me dos meus parcos conhecimentos sobre as sutilezas e complexidades de ser mulher. Dizem que os autores definem os destinos dos seus personagens. Neste caso, o destino já estava traçado, pois, estou narrando algo já acontecido, mas a personagem agarrou-me pelos sentimentos e intercederei por sua pessoa, tentando mostrar o que lhe acontecia na alma. Continuando.

Passaram-se algumas semanas em que Renato não estava na cidade. Fora para o sul do estado, tratando de negócios para o Coronel. Mainha não precisou perguntar por ele, os comentários brotavam como se fosse água em tempo de chuva. Aquele período acalmou sua dor de consciência, enquanto no corpo desejos tenebrosos se avolumavam, levando a buscar prazeres solitários. Sentia como se estivesse vivendo entre o céu e o inferno. Havia momentos de paz, afastando maus pensamentos e se agarrando nos conceitos morais de ser uma mulher casada, em outros, ardia no fogo do desejo. Não bastava lavar o rosto ou tomar banhos de água fria.

Após algumas semanas, ele retornou à cidade. Por vários dias não havia ninguém na casa à tarde, mas em um deles, lá estava, no quarto, sentado em uma mesa escrevendo, de frente para janela, onde de quando em quando levantava os olhos. Em determinado momento, seus olhares se cruzaram. Foi como se uma faísca tivesse se interposto entre os dois. Ela correu por todo o corpo de Mainha, o coração acelerou, a respiração se tornou ofegante e um calor se espalhou. Tratou de se retirar rapidamente da janela. Desceu, foi a cozinha beber água, abriu mais a janela e sentou para se acalmar.

Bateram na porta. Estremeceu. O normal era baterem palmas. Os pensamentos correram para vários lados. Não sabia bem o que pensar. O coração disparou. Agoniada foi abrir. Era ele. Lindo, sorridente e brilho nos olhos.

- Boa tarde, posso entrar?

Após um ligeiro vacilo:

- Pode, senta, quer algo pra beber?

- Aceito, um copo de água.

Foi buscar, teve dificuldade no andar, sabia que a observava. Reparou estar com uma simples roupa de estar em casa, bem leve, pelo calor, com os seios em um decote generoso.

- Vou colocar um roupão, não estou arrumada.

- Não. Você está linda assim.

-  Não me olhe assim. O Senhor deveria ter tido, outro dia, a decência de não ficar me olhando pela janela.

- O belo sendo mostrado, deve ser visto.

Ela bem próxima, após entregar o copo de água. Os olhares trocando mensagens ardentes. Ele se levantou e delicadamente beijou seus lábios. Não resistindo, ela o abraçou e entregou totalmente a boca, a língua e os gemidos. Corpo com corpo, desejos transpirando pelos poros. As mãos dele correndo pelo tecido, pelo decote, soltando os seios para serem usufruídos pelos lábios, descendo e levantando a saia, entrando pela calcinha, gerando mais desejo.

O pegou pela mão e correu para o quarto. Roupas foram sendo tiradas no anseio de se verem e tocarem. Botões saltaram pelo ambiente. O som forte da fivela do cinto no chão, sapatos, meias, sutiã que se rompe, calcinha alargada no elástico e tirada fora no movimentar das pernas. O contraste dos cabelos negros e do corpo dourado de Mainha, com o branco, quase ruivo de Renato, formavam um quadro de sensualidade e de beleza. A amplitude de seu sexo, o toque, a penetração sôfrega, inicialmente, e aos poucos gradualmente, compassando os desejos de ambos, enquanto as línguas se entrelaçavam e os lábios só espremiam gemidos e desejos. O ápice, teve que ser abafado com a mão, para que não se espalha pela casa. Sentiu-se plena, desejada, satisfeita e de uma forma inusitada, relaxada, como se todos os músculos do corpo estivessem em estado de torpor.

Os dois, quando ele estava na cidade, passaram a se encontrar uma ou duas vezes por semana. Ele vinha no horário da tarde, chegando à casa pelos fundos, passando pela cerca, de forma que não fosse visto.

No dia a dia Mainha sentia-se renascida. Participava na missa e nas atividades do Coração de Maria com um ânimo novo. Estava sempre disposta para tudo e para os que necessitassem de sua ajuda. Atendia tanta gente que começou a ser chamada de Mainha dos pobres.

Dona Joana, presidente da Legião, comentou com a amiga Antônia:

- Reparou com Mainha anda com uma expressão de satisfação, alegre e bastante animada com as nossas atividades? Tem um novo ar no rosto, parece mais jovem, parece ter renascida. Espero que não esteja fazendo bobagem.

Suas suspeitas se aguçaram, quando voltando com Antônia, da casa de uma das famílias assistida, pela rua de Mainha, viu o advogado Renato, sendo recebido e colocado para dentro. Após uma vista pela rua para ver se alguém os viu, o olhar de Mainha se encontrou com o de Dona Joana. No dela, um olhar de apavoramento, no de Dona Joana, de espanto. Renato, excepcionalmente, viera pela frente, pois o Coronel Cupertino ficara na casa, onde resolveu tirar uma soneca, para depois seguir viagem para a fazenda. Não queria ser pego atravessando a cerca.

Mainha, alegando indisposição, pediu a Renato que voltasse outro dia. O medo tomou sua mente. Viu seu nome sendo colocado junto a Legião e ao padre, vazaria pela cidade e a honra de seu marido iria para a lama. Como reagiria Deoclécio? Como poderia andar de cabeça erguida pelos lugares? Quando o marido chegou do trabalho, colocou a janta e alegando mal-estar foi deitar. Uma noite mal dormida, dominada pelo terror do que poderia acontecer. O inferno apresentava-se a sua frente.

No dia seguinte, pela manhã, recebeu um recado de Dona Joana, para ir à sua casa. Teve uma gastura indo ao banheiro, quase botando os bofes pra fora. Precisou deitar um pouco, após tomar algumas gotas de maracujina. Finalmente, não tendo mais como adiar, levantou, tomou um banho, vestiu uma das roupas com que frequentava a igreja e jururu foi para lá.

- Bom dia.

- Bom dia, entre – a recebeu Dona Joana – senta. Quer um café?

Aceitou e tomou, mal comendo um pedaço de bolo que recebeu, e escondendo o tremor que tinha nas mãos segurando o pratinho.

- Mainha, você sabe que vi o Dr. Renato entrando na tua casa. Que diabéisso que você está fazendo? Não sei a relação de vocês, mas pela minha experiência e vendo tua alegria ultimamente, tão animada, imagino o que está acontecendo. Fique tranquila, não estou aqui para reprovar, mas para alertar. Tu sabes que tenho uma estima de mãe para filha contigo. Admiro a força como levou a vida, apesar da pouca idade. Não sei até onde o Deoclécio é uma pessoa violenta. Ele pode ficar abilolado. Você sabe que homem nenhum nesta cidade quer ter sua honra manchada. Já tivemos casos de morte.

- Eu sei.

- Mulher, por aqui, vale tanto quanto uma cabra. Teu marido é velho e você nova, precisando satisfazer o fogo das entranhas. Caso alguma coisa de ruim acontecer, a culpa será tua. Dirão que teu marido estava limpando o nome. Temo pelo que pode acontecer, minha filha. O povo é muito enxerido, parece, que ainda não notaram o que está acontecendo, senão os fuxicos estariam correndo e você estaria na boca do povo. Pare enquanto é tempo.

- Dona Joana, a senhora sabe a estima que lhe tenho. A quero como mãe e confidente. Nisso tudo, fico triste e preocupada pelo Deoclécio, sendo um homem bom, um excelente marido. Não sei se consigo parar. Eu renasci. Com o Renato, não é só a carne. Quando nos deitamos, o desejo, a delicadeza comigo, os carinhos e a vontade de me fazer feliz, me levam a me sentir mais mulher, em todo sentido. Prefiro a morte que viver o inferno que vivia dentro de mim.

Dona Joana, entendendo tudo que se passava dentro de Mainha, mas, receosa do que poderia acontecer, olhou-a com um ar de tristeza e rogou que tomasse muito cuidado e a abençoou.

Deoclécio notava as mudanças em sua mulher. Começou a esquentar a cabeça começando a achar que a mulher estava tendo ou tivera um caso.

- Será que Mainha está coisando com alguém, me corneando?

Aperreado, não conseguia prestar atenção no trabalho.

- Quem comeu Mainha?

Não sai da sua cabeça essa possibilidade. Na venda, ficava assuntando as conversas das pessoas quando estavam bebericando e conversando, tentando ouvir algo. Pegou o revólver que tinha guardando, em um canto escondido do estabelecimento, limpou, engraxou e colocou balas. Temia ter que usá-lo. Andava mal-humorado. A clientela reclamava que ele estava mudado.

Em casa, era recebido por Mainha, com muito carinho, cheia de afagos e beijos. Na cama, ela procurava seus braços, o calor do seu corpo e corria suas mãos por ele. Sempre fora assim, mas agora, tudo parecia querer esconder algo. Mainha, notava a mudança nele e temia o que isso poderia representar. Por sua vez, Deoclécio, decidiu dever descobrir o que estaria acontecendo.

Deu algumas saídas, sob algumas desculpas, deixando, por momentos, o estabelecimento na mão de um dos empregados, e escondido, observou a casa em horários diferentes. Chegou a conclusão, se algo estivesse ocorrendo, seria à tarde, quando voltava do almoço.

Numa das tardes, antes de retornar para o trabalho, depois do almoço, tratou de correr a cortina da janela da sala, por onde poderia ver, de fora, se havia alguém no andar de baixo. Deixou a porta de entrada destrancada e mexeu nas fechaduras dos quartos, de forma que não pudessem ser trancados, a lingueta não funcionando, obrigando a porta ficar, simplesmente, encostada.

Retornou mais tarde, olhou pela janela, não havia ninguém no andar de baixo. Trocou o revólver do bolso do paletó para a cintura. Abriu a porta que estava destrancada, não fazendo barulho, e pé ante pé entrou. Subiu silenciosamente a escada. No andar de cima, ouviu ruídos, risos e palavras que vinham do seu quarto. Foi se aproximando sorrateiramente e com um leve empurrão na porta abriu uma fresta. Lá estavam Mainha e Renato nus na cama.

Os dois enroscados em seus desejos não tinham ideia do que ocorria fora do quarto. Mainha satisfazendo o fogo que tinha dentro de si, e sentindo-se plenamente mulher. Renato, por si, tinha pela mulher e os filhos verdadeira adoração, mas, aqueles momentos serviam para refazer o ânimo, abafar a lembrança e o desejo da esposa, fora que gostava de Mainha. O trabalho o fazia a ficar até dois meses longe de casa. Era muita pressão por parte do Coronel Cupertino e do constante deslocamento por suas diversas propriedade.

Mainha acredita ouvir um ruído. Desconfiada pela mudança de comportamento de Deoclécio e preocupada com as palavras de Dona Joana, fica com respiração suspensa e os ouvidos aguçados. Renato lhe pergunta se ocorreu algo, ao sentir a sua mudança. Respondendo que não o enlaçou em seus braços, calou sua boca com beijos e o sentiu dentro de si. Ficaram em um suave balanço, com ela mantendo os sentidos em alerta. Se tivesse que morrer, que fosse naquele momento.

A tarde avançou alertando a hora de se separarem. Renato saiu pelos fundos, após um longo beijo. Mainha, sabia que algo acontecera, não sabia o que. Na cozinha não havia ninguém e tudo estava igual. Acalmou-se. Quando foi a sala, seu coração disparou.

Bem tarde da noite, Deoclécio retornou à casa. Veio pelo caminho ruminando o que havia acontecido. Tinha receio de encarar o que iria encontrar. Tudo estava apagando, diferente que o normal. Um silêncio tumular cobria o ambiente. O coração disparado. Com a chave na mão, permaneceu indeciso de entrar. A razão dizia dever fazê-lo, mas, os sentimentos diziam que não. Foi um momento difícil, a pulsação a toda, a cabeça doendo, os dedos da mão apertando fortemente a chave e o peito oprimido como por um abraço mortal.

Abriu a porta e acendeu a luz. Lá estava ela!

Na poltrona, com o rosto crispado de preocupação e tendo a sua frente na mesinha de centro o revólver de Deoclécio, lá estava Mainha. Com a voz tentando exprimir calma, mas falhando na ansiedade, perguntou:

- Deoclécio, o que este revólver está fazendo aqui? Sempre ficou no armazém?

Ele, com uma voz que não mostra a sua normal força, responde:

- Faz tempo que ele estava guardado e resolvi limpar e engraxar e acabei esquecendo aí.

Ela se levantou, foi até ele, e olhando em seus olhos, tendo os seus cheios de lágrimas, que principiavam a escorrer, o abraçou. Deoclécio a aninhou nos braços, sentiu o cheiro do seu cabelo, a maciez e o perfume do seu corpo, pensou:

- Como posso matar esta mulher? Ela é a razão da minha vida. Vale mais que minha própria. Não saberia viver sem ela, sem os seus carinhos, as palavras de apoio e estímulo. Como levantar cada manhã e não a ter a meu lado? Eu morreria um pedaço cada dia. Pensei em acabar só com ele. Mas a imagem, que vi pela fresta da porta, deitada de frente para ele, com a cabeça sustentada pelo braço e conversado, mostrou uma mulher alegre, com um olhar de satisfação e de carinho. Se eu o mato, haverá sempre, entre nós, uma nuvem negra. Perderia a mulher que amo, da mesma forma.

Mainha, que costumava, às vezes, preparar algo para o café da tarde e levar para o marido no estabelecimento, passou a fazer com mais frequência, usufruindo não só ele, mas todos os que por lá estavam. Eram cuscuz, bolinhos de chuva, bolo de fubá, curau, pamonha e outras iguarias que deixavam todos com água na boca. Juntos tomavam café e trocavam conversas. À noite o esperava em casa com a comida do seu agrado, cheia de carinhos e beijos.

Me desculpem interromper novamente. Como escritor, tenho que me defender. Tem gente me criticando pelo final, em uma época, em que o machismo era exacerbado, principalmente no interior do nordeste. Quero lembrar que narrei o que me foi contando e assim terminou o relato. O confidente destes fatos foi o Renato, que após três anos em que viveram uma relação maravilhosa, teve que se mudar para o Sul do país. Sem dúvida, tive muita simpatia pela personagem. Graças à licença, que me é dada, como escritor, posso supor a intimidade dos fatos, o torvelinho dos sentimentos que envolvem os personagens. Caso alguém não gostou, paciência. Eu do meu lado darei mais uma pitada final.

O amor e o carinho, entre eles aumentaram, a busca por ela na cama, nem que fosse só por carinhos, se intensificou. Ela entendia, o quanto ele, queria lhe fazer feliz. Para maior estímulo, fazia comidas afrodisíacas, principalmente caldos de frutos-do-mar, que apresentavam melhores resultados. A vida, entre eles, adquiriu novas cores.

Um dia a colocou no colo e olhando nos olhos, com muito carinho, disse:

- Um filho, que um dia você possa ter, eu irei querer com muito amor.

Ela sabia o quanto ele sempre quis ter mais um filho, mas, mais que isso, entendeu o que quis dizer e com lágrima nos olhos, lhe deu um beijo.


mmhad

 

 


25/10/2023

REDUTO DO PRAZER

 


Celso para de beijar Dalva, sua esposa, e diz:

- Assim não dá mais!

Já eram dez da noite. Haviam colocado os garotos na cama, foram para o quarto e fecharam a porta. Era o momento só deles, tão esperado durante o dia. À luz do abajur, principiaram os beijos, ele adorava seus lábios, levemente carnudos e úmidos, e ela gostava do roçar do bigode. Suas mãos foram correndo pelo corpo de Dalva, enquanto os beijos se estendiam pelo pescoço, orelha e desciam aos seios. Os dois estavam na plenitude do desejo.

Nesse momento, Sandro, seu filho de 5 anos, começa a chamar do quarto, querendo que o pai ou a mãe vá até lá. Seus gritos acordam Waltinho, o irmão de 3 anos, que assustado começa a chorar. O clima se desfaz, Celso vai até o quarto dos meninos e se vê obrigado a acalmá-los e permanecer um tempo com os dois, até que retomem o sono.

Dalva tivera um dia extenuante, cuidando dos meninos, que possuíam uma vitalidade impressionante. Só, quando eles vão à escola, à tarde, ela tem um momento para cuidar da casa, das roupas, supermercado e cuidar de si. Os pais, dela e dele, vivem em outro estado, não pode contar com eles. A faxineira, vai duas vezes por semana, não tem como olhá-los, é muita bagunça para arrumar, apesar dela ajudar. Vários dos momentos que tentaram ter só para os dois, não ocorreram, fossem pelos meninos, fossem pelo cansaço deles, físico e, muitas vezes, mental. Com esses pensamentos na cabeça, vira de lado, e levada pelo cansaço, acaba dormindo.

Celso, quando retorna ao quarto, encontra Dalva prostrada, a cobre e a beija no rosto e pensa:

- Preciso encontrar uma forma de fazer sexo fora de casa. Não aguento mais. Há um ano, nosso relacionamento tem sido assim. Dalva vive tensa, extenuada. Os meninos não param. Preciso ter sexo, se não vou endoidar.

Com essa ideia na cabeça, conversa com Ariosvaldo, seu colega de empresa, que por várias vezes, havia oferecido, um pequeno apartamento, que chama de reduto do prazer, utilizado para seus encontros amorosos. Gosta da ideia, pois, não se sente muito à vontade de ir a um motel. Ariosvaldo há tempo tem desejo de aluga-lo para fazer dinheiro.

Resolveu conhecer o imóvel, que por sinal, fica bem localizado, não estando longe do trabalho. A rua é extremamente calma, sombreada por antigas árvores, sem trânsito e possui, próximo, na esquina, um estacionamento. É um prédio antigo e familiar com cinco andares.

O apartamento possuia uma sala, quarto, cozinha, uma pequena lavanderia, banheiro, aliás por ser antigo, tinha uma banheira. Era aconchegante e possuía um mobiliário sóbrio. A cama é larga, um pequeno aparelho de som ao lado da cama, e na sala um confortável sofá e TV. Havia roupas de cama e toalhas, pois uma mulher a cada quinze dias, passava por lá deixando tudo em ordem. Na cozinha, uma geladeira, um pequeno fogão e micro-ondas.

Ariosvaldo lhe deu duas chaves, uma para ele e a outra a ser entregue a outra pessoa, se necessário. Perfeito! Não poderia ser mais adequado e seguro para usufruir do sexo fora de casa, pensou. Será também, seu reduto do prazer.

Engrenou o primeiro encontro. Tratou de ter na geladeira água, vinho, champanhe, queijo e outros petiscos. Imaginou a maravilha de estarem na banheira saboreando os corpos, as bebidas e os petiscos.

Ficou acertado uma terça-feira às 14,30 h. Tempo de almoçar cedo, liberar-se do trabalho do dia, e sair para uma possível visita a um cliente, não chamando a atenção, e estar livre até as 17h. Ficou com uma chave e entregou a outra.

No dia, abriu a porta, o apartamento estava na penumbra, com as persianas abaixadas, deixando entrar uma réstia de luz pelas frestas, com um pequeno aroma de perfume no ar e uma música romântica no aparelho do quarto, num leve sussurrar. Ventiladores silenciosos refrescavam o ambiente.

Lá estava ela na cama. Vestia um leve pijama, que permitia a visão lateral dos seios e a marcante presença dos mamilos. O pequeno calção possuía uma razoável abertura lateral, no mesmo tecido, sem nada por baixo, deixando transparecer o aveludado do púbis.

Ela se levantou com uma taça de vinho branco gelado na mão. Bebeu um pequeno gole e transferiu o líquido para sua boca, em um beijo quente e refrescante. Lentamente foi retirando sua roupa. A camisa jogou no chão, enquanto corria seus lábios pelo pescoço, mamilos, retendo-os em um pequenos tufo de cabelos do peito. Desabotoou a calça, que escorreu pelas pernas, o fez sentar na cama, tirou os sapatos e as meias, sentou em seu colo, sentido o desejo ressaltado por debaixo da cueca. Deitaram na cama e usufruíram um do outro, através dos toques, dos beijos, da língua e do suave saborear.

Passaram a se encontrar todas as terças e quintas-feiras. Era um esperar ansioso. O reduto do prazer, que possuía um ambiente calmo, transformava-se, às vezes, em agitado, em outras, em lento usufruir do sexo, onde prazeres novos eram descobertos. O depois se estendia em descontraídas e agradáveis conversas, entre bebidinhas e comidinhas, até o momento em que os desejos retornavam, na ânsia de serem usufruídos, antes do tempo do encontro se esgotar.

Nunca tivera momentos como aqueles. Pensou em voz alta:

- Encontrar um lugar e um tempo, para amar, conversar, curtir e fazer sexo descontraído, fora de casa, foi uma ideia maravilhosa, não te parece?

- A melhor que tivemos – responde Dalva – Não esqueça que hoje é a quinta que os garotos sairão mais tarde. Você os busca na escola? Vou preparar uma janta deliciosa para nós.


aomoad

10/10/2023

ENGANAR-SE



Na ponta dos dedos, na tela, encontro pessoas.

Como serão?

Mostram, na sua maioria, sorrisos e alegrias. 

Parecem frutos de uma vida realizada e de um momento  de tranquilidade.

Gostaria de ter visão de um super-homem para ver seus interiores.

Destrinchar os corações, adentrar no sangue que corre em seus corpos, sentir o buraco formando na boca do estômago nos momentos de tensão, acompanhar os pensamentos que flutuam, abrir os escaninhos da mente.

Podem ser como vulcões, mostrando serenidade exterior, mas, no interior, forte ebulição prestes a explodir em chamas e lava, a qualquer momento.

Que sorte não ser um super-homem. 

Prefiro os sorrisos e as alegrias, mesmo que falsos, alegram a mente.

Adoro! Só me mandam o que gosto!




momoad

 

 

02/08/2023

PALAFITAS

 


Meu nome é Luiza. Quando começo esta história tenho oito ano. Morava com a mãe e o pai na favela do Bueiro em Recife. Nossa casa era um quarto grande, onde dormia todo mundo e era a cozinha.  Era em palafita, cresci naquele lugar. O Capibaribe era tudo pra nóis. Água, banheiro e divertimento. Tinha um lugar pra mergulhá onde ia os meninos e as meninas. Tudo de calcinha e cueca. Era a maior farra. A mãe quando me via chegando só de calcinha dizia pra eu tomar cuidado, que era pra não deixar ninguém pôr a mão na xoxota. Se alguém fizer, me avisa. Nem teu pai. Eu falei, o pai fala o mesmo que ocê. Se alguém mexer é pra fala pra ele.

A gente, nas palafitas, avistava longe a cidade e os prédio. A molecada brincava que era dono de um ou de outro. Ficava imaginando como devia ser bunito ver lá de cima a cidade e as palafitas longinhas. De tarde eu ia pra escola. Oxê, era bom, tinha comida. Tinha os amigo.

O pai trabalhava no porto e a mãe, umas vezes na semana, ia fazê limpeza. Era uma alegria no domingo, de vez em quando, o pai levava nois tomá sorvete. Eles parecia namorado. Tinha uns sanfoneiros numa praça perto e os dois iam dançá. Era um rala buxo bonito. Eles me puxava e levava pro meio, dançá junto. O pai chamava a mãe de morena linda. Ela era bonitona, não parecia as destrambelhada que tinha por lá. Seu cabelo era muito bonito. Ela falava que o meu era igual o dela. Gostava, quando ela ficava um tempão penteando, ajeitando.

O pai morreu num acidente no trabaio, num sei explicá como.

A mãe ficou desesperada. Eu chorei bastante. Era uma dor no peito que trancava tudo até saí pelos olhos. Era uma falta danada. As brincadeira, o beijo quando chegava, o colo, os passeio de domingo. Ele e a mãe rindo. Tudo vinha na cabeça.

A mãe teve que  trabalhá todo dia. Eu comecei ir pra rua e faze o que os amigos fazia. Pedí esmola. Depois, com algum dinheiro, ia na mercearia do Paraíba e comprava umas bala e doce pra vendê. Eu só via a mãe chorar. Ela que era alegre ficou borocoxô. Cantava e gostava de dançar, agora ficava triste o tempo todo. Num via a mãe ri.

Um tempão depois do pai morrer, a Maria do Lelé convidou a mãe pra ir na praça dançá. Ela não queria. A Lelé insistiu, insistiu. Ela foi. Eu fiquei brincando. Escureceu fui pra casa e a mãe num tava. Fui na casa da Maria do Lelé, mas também não tinha voltado. Eu tava na cama tarde, não sei quanto, ouvi a mãe conversado com homem na porta. Ouvia risadinha.

Era um tal de Alcindo. Começou a parecer toda hora, até que dormiu em casa. A mãe falou que agora ele ia ser meu pai. Não do coração, porque aquele tava guardadinho dentro de mim, mas o que ia vive com nóis. Imagina, ser meu pai! Oxente, nunca! Era um melô pra todo lado. Amorzinho, coração, meu bem. Comigo, chamava pelo nome, falava sério, não brincava e pió não ria. A mãe continuava indo trabalhá todo dia. Perguntei pra mãe por que ela ficava com ele. Com o pai  não precisava trabalhá todo dia, ele levava nóis  passear, fazia carinho em mim. A mãe respondeu, que quando eu crescê vou sabe porque a mulhé precisa de um homem. É, porque agora eu num entendo.

Ele resolveu ir pra São Paulo, melhorá a vida e nos chamá. A mãe dando um duro, eu não indo pra escola e indo pras esquinas vendê alguma coisa. Um dia, o Sebastião do Quero, voltou de São Paulo, pra vê a família, trouxe recado e dinheiro que o Alcindo mandou, pra nois ir pra lá. Rapidinho mãe fez a trouxa e pegamo o ônibus.  Foi uma canseira, levamos três dias. Não tinha mais jeito pra sentá. A bunda tava quadrada. Quando dava vontade de mijá tinha um lugar, no fundo, que a gente ia, era uma inhaca. Às vezes, quando a perna formigava, levantava e andava no ônibus. Quando parava, aproveitava os banheiro pra faze tudo A mãe levou umas mandioca cozinhada, um feijão de corda num pote, pedaço de pão com mortandela e um garrafão de água.  O gostoso era ficar olhando pela janela. Passava cada lugá bonito. Era rio, era montanha, tinha boi, tinha cabra e cidade bunita. Ficava sonhando.  A gente devia tá indo prum lugá mior. 

Chegamo. Era um lugá grande. Muita gente, muito ônibus. Uma barulheira. Fiquei zonza. Olhei pra cara da mãe, ela tava com medo. Deu vontade de chorar. Segurei. A mãe perguntou pro motorista algumas coisas e ele falou pra onde ir. A gente pegou um metrô. Já tinha ouvido falá mas não tinha andado. Quando a gente foi entrá um pessoal atrás foi empurrando. Gritei pra mãe. Agarrou minha mão, a mala e a trouxa pendurada no ombro. Perguntou prum homem de um lugar que tinha luz. Eu não entendi direito. Depois fiquei sabendo que era onde a gente tinha que descê. Lá na Luz, a mãe com papel na mão perguntou pra outro home como chegava no endereço do papel. Tinha que pegá ônibus. A mãe falou que ia a pé. O homem falou que era longe. Nós fuimos. Oxe, caminhamo, caminhamo. Às vezes tinha muita gente na calçada, tinha que andá na rua. Carro quase pegava. Eu com medo. Caminhamo. Aí quando deu de frente prum prédio bonito, que a mãe falou que era uma escola, nois viramos e continuamo andando. Caminhamo. Coitada da mãe. A maleta, a trouxa. No meio do caminho deu a trouxa pra eu carregar.  Cansei, suei. Ainda bem que tinha água no garrafão.

Finalmente chegamo. A mãe colocou tudo no chão. Era uma casa cumprida com um corredorsão. Parecia o da escola. Tinha umas pessoa na porta. Perguntou do Alcindo. Alguém, entrou gritando, chamando o nome dele. Apareceu. Abraçou a mãe beijou, levantou no colo, rodou com ela. Virou pra mim e só perguntou se tava tudo bem e passou a mão no meu cabelo. Pegou a maleta, a mão da mãe e foi entrando. Eu atrás com a trouxa.

Era um quarto grande, tinha um colchão maió e um menó no chão. Duas cadeiras com roupa em cima. Parecia que era um fogãozinho de brinquedo num canto. Perguntou pra mãe se tava com fome. Não sei o que respondeu, pois, dentei no colchão menó e apaguei.

No dia seguinte, acordei com os dois discutindo. A mãe perguntado, por que chamou a gente se as coisas tavam ruim pra ele. Pela primeira vez, eu vi ele dá uns tapa nela. Gritou que estava desempregando agora, mas tinha um trabalho pra começá logo. E se ela e eu queria comê tinha que nos virá. Pegou nóis duas, passou num bar, comprou café com leite e pão com manteiga e arrastou até uma avenida. Este cruzamento é bom, falou, começa a pedi esmola, até que eu arrume algum lugá pra você trabalhá, falou pra mãe. Ficamo por lá até o fim do dia. A mãe chorando agoniada, sentando de vez em quando na calçada, e eu que já havia feito isso no Recife, pedindo nos carro, fui fazendo. Na hora que deu fome, fumos até um bar na esquina e mãe perguntou o preço do prato. O dinheiro não dava, pediu café com leite e pão com manteiga e nois comemo. Aproveitamo pra ir no banheiro. Sujo, fedido.  No final do dia o Alcindo chegou, brigou com a mãe, deu uns tapas e tirou o dinheiro que tava com ela e comigo. Inda falou que era um miséria. A mãe gritou que tava com o estomago colado nas costa, ele respondeu que tinha comida esperando a gente em casa. Chegamo lá, tinha umas coisa, que ele chamou de marmita, com arroz, feijão e uma mistura de legume. Tinha banheiro no fundo da casa. Um pra homem outro pra mulhé. Fizemos as necessidades e tomei banho junto com a mãe, que conseguiu um pedaço de sabão com uma mulhé, que teve pena de nois, e também arrumou uns pedaços de pano e uma toalha velha e furada pra se enxugá.

Deitei na cama e comecei a dormi, depois de um tempo, meio acordada, ouvi a mãe e o Alcindo fungando, com risadinha. Virei de lado e dormi.

No dia seguinte a mesma coisa. Eu via a mãe agoniada. Mãe vamo voltá pra donde viemo. Vamo pra nossa casa. O Alcindo é ruim, bate em ocê e não gosta de eu. A mãe chorando falô que nóis não tem mais casa e nem dinheiro pra volta. Ela prometeu que ia arruma um lugá prá trabalha. As coisas ia miorá.

No outro dia, nóis na esquina de novo. No meio da tarde a mãe falou pra eu ficá por lá, tomando cuidado, que ia na rua de baixo, onde viu uma pensão e ia sabê se tinha trabalho pra ela. Eu na rua ficava abestalhada  olhando os carrão. Cada um grande e bonito. As pessoa dentro, tudo bonita, arrumada, parecia que ia pra festa. Tava frio aquele dia, as pessoa dentro parecia toda quentinha. Tinha até musica dentro. A criançada ia sempre atrás, amarrada. Tinha gente boa que dava dinheiro, bala, até falava com a gente. Tinha noite, na cama, que eu pensava que táva dentro de um carro. Grandão, bonitão. O pai e a mãe na frente e eu atrás, só que não amarrada e a gente escutando um forró. Começou uma chuvinha pequena e fazendo frio. Tava gelado. Sentia os braço arrepiá. Tava com uma blusinha fina.

Parou um carrão, bonitão. Dentro tinha um home sorrindo, falou se eu não táva com frio. Vem cá fala, comigo na janela. Me deu um chocolate. Tava com fome, foi bom. Gostou, que mais? Entra, senta um pouco aqui, tá quentinho. Entrei. Falou que ia dá uma volta pra eu conhecê o carro. Ele parecia um anjo, sorrindo, uns óio bonito. Ele era loiro. Os óio  parecia um pedaço de céu. Me deu mais chocolate e passou a mão na cabeça que nem o pai fazia. Eu ri. Tava quentinho. Ele parou o carro num lugá. Moço, eu tenho que volta, senão minha mãe briga com eu. Só um minutinho, pra ocê comê o chocolate. Passou a mão na minha cabeça e no meus peito. Eu tinha vergonha dos peito. A mãe falava que ia ficá bonito que nem o dela. Já tinha pedido pra mãe um soutien, pra o pessoá não fica olhando. A mãe disse que não tinha dinheiro, pra eu usa duas blusa. Eu tava com duas blusa, mas com o frio e a chuva táva aparecendo. Ele levantou minha blusa, passou a mão e começou a chupá e mordê. Eu comecei a chorá. O homé tirou a coisa dele pra fora pegou minha mão e passava nela. Falava pra eu mexe nela, brinca com ela. Era grande eu assustei, comecei a chorá. Eu chorando alto. Ele me empurrou, começou mexê na coisa, começou a gemê,  gemia e eu chorava. Até que gritou e ficou parado. Eu táva apavorada e gritava pro moço, o tempo todo,  deixá eu ir embora. Ele abriu a porta e me empurrou e foi embora. Eu cai numa poça e me molhei toda. Tinha caido um toró. Tava lascada,  não sabia donde táva. O frio tava mais forte e a chuvinha tava fria. Comecei a andá, chorando. Tava ficando escuro. Cheguei numa rua movimentada de carro. Ninguém na calçada pra perguntá. Fui andando e chorando.

De repente passou uma poliça. O Alcindo sempre que via uma ficava com medo e fazia a gente desviá o caminho. Ela parou um pouco mais na frente que eu. Fiquei com medo. Pensei em me escondê. O zomi desceu e veio falá comigo. Ele táva com roupa de poliça e tinha um revolve pendurado. Eu comecei a chorá e senti uma coisa quente na perna, eu tava mijando. Eu tava com medo. O poliça falou pra não chorá, foi bonzinho, que ia me levá pra casa. Me levou pro carro e fez eu sentá no banco. Táva mais quente eu não parava de soluçá. O outro do lado, também foi bonzinho, me deu um pirulito e falou que tinha uma filha bonita que nem eu. Queria sabê onde eu morava. Não falei do carro, não falei nada do home, eu queria minha mãe. Não falei que táva pedindo dinheiro. O Alcindo tinha falado pra nóis, que se eles pegava nois, ia presa. Falei da casa com o corredorsão. Da rua, de muinta gente que morava na casa. Não sabia donde. Perguntou se eu conhecia algum lugá perto. Lembrei do bar que a mãe comprava os pão com manteiga. Falei pra eles. Eles sabia onde era. Me puseram no banco de trás. Só que me amarraram. Fiquei com medo. Falou que não era pra ter medo, era só pra eu não cai do banco. Chegou no bar eu desci e agradeci o poliça, comecei a andá. Ele veio atrás de eu e pegou minha mão e falou que ia junto. Fui com ele, conversando com eu. Tavá com menos medo, mas táva.

Quando viramo a esquina e a casa tava perto, tava um furdunçu na porta, tudo em volta da mãe, que tava sentada numa cadeira. O Alcindo deu um tapão nela e falou que ela era burra, que não servia pra nada. Quando o pessoal viu eu, falou pra mãe, que veio correndo, se ajoelhou e me abraçou. Eu chorava e pedia descurpa pra mãe. Ela tava apanhando. Curpa deu. Eu chorava e a mãe chorava. Me dava uma dor forte no peito de vê mãe chorando, por causa deu. A mãe levantou e abraçou o poliça. Todo mundo fez rodinha. Só não táva o Alcindo.

O outro poliça táva falando com ele. Parece que pediu documento que ele mostrou. Pediu o nome da mãe e o meu. Pediu endereço. Falou pro Alcindo que eles ia voltá e se ele batesse na mãe ou neu, teria que se vê com ele.

Nóis entremos. O Alcindo falou pra mãe recolhê todas nossas coisa, que ele ia sai e arrumá um outro lugá pra nois ficá. Que por causa das duas os zomi não ia dá sossego. Ele saiu e ficou de voltá. Só voltou no dia seguinte cedo.

Contei pra mãe tudo que aconteceu. Ela ficou agoniada, perguntou se homem mexeu comigo. Eu falei que não, mas ela não acreditou. Levantou o vestido, abaixou a minha calcinha e olhou. Apertou em volta e perguntou se táva doendo. Falei que não. Fomo pro banheiro e tomamo banho junta. Comemo da marmita. Aquela noite a mãe dormiu agarradinha deu. Foi tão gostoso.

De manhã cedinho mãe acordou, o Alcindo gritou, se esperta e mandou  me vesti rápido. Nois saímo escondido. A mãe depois, falou que o Alcindo picou a mula sem pagá o que devia. Largamo os colchão. Pegamo um ônibus que andou um tempão. Descemo e andamos mais um tempo. Chegamo. Era um prédio velho. Na entrada tinha uma pessoa numa mesinha olhando todo mundo que entrava e saia. O Alcindo falou que a mãe era sua muié eu a filha. Que amanhã ele pagava, que a gente ia trabaiá. A gente subiu uma escada que não terminava mais, e ai chegamo, num lugá que ele chamou de andar. Falou que era sete, pra gente não esquece. Entramo numa porta, falou pra não esquecê o número, 72. Tinha umas pessoá morando lá. Um home mostrou nosso canto. Era um quarto, onde a mãe colocou nossa roupa no chão. Não tinha colchão. O Alcindo falou que depois arrumava. O home falou que dava pra usá o banheiro. Tinha um baldão grande com água, onde dava pra pegá e jogá na privada. Dava pra pegá água também pra toma banho frio, um balde só. Cada dia uma pessoa de cada quarto tinha que buscá água, quantas vezes precisava, numa torneira no fim do corredô e enchê o baldão. A mãe ficou, depois, sabendo que tinha gente, que no dia de buscá água não tomava banho pra buscá menos. Táva dando uma briga danada. Falou, que o Alcindo quis se arregá de alguém mas, veio um sujeito, lá debaixo, e deu uns tranco nele e ele se lascou. O lugá era muito muquifo.

De manhã o Alcindo falou pra mãe que eu ia sozinha pra esquina. Era perto, não tinha como me perdê. Eu já devia tá mais esperta, depois do que aconteceu. A mãe brigou com ele, mas levou uns tapa e ficou chorando num canto. Ele me levou, Era bem perto. Na esquina tinha um prédio lindo, depois eu sube que era uma escola e do lado uma igreja bunitona.  Falou que o caminho de volta era fácil e depois de ter dinheiro, no final do dia, fussi pra casa. Acho bom cê ficá esperta.

Na esquina, conheci uma molecada, que também ficava por lá. O Toninho, o Bugre, o Vira-pau, o Lombriga, a Sara e a Deda que ficou minha amiga. A Deda me falou que já tava lá um tempão. Morava com a vó ali perto. Não tinha pai nem mãe. Num sabe onde tão. Avó faz um trabaio bonito nuns pano. Bordadinho, rendinha e ia vendê perto do Viaduto do Chá. Ela vendia doce. Falou que ia me apresentá o home dos doce e eu ia pode vende. Gostei dela. Quando os menino, começava com uma brincadeira besta ela dava um esporro.

Oxente, quando voltei pra casa, de noite, não encontrei a mãe. Como tinha comido uns salgado, no bar que a Deda me levou, num táva com fome. Deitei e dormi. Acordei, num sei que hora, com a mãe chorando. Ela tava pelada, agachada, com uma bacia, lavando as partes, chorando e resmungando. Fui abraçá ela. Num é nada fia, me machuquei. Ela tava com táio na cabeça. Tinha saído sangue, que tava grudado no cabelo. Eu caí, ela falou. Por que tava lavando as parte? Abracei, ela tava com o pescoço todo manchado. Vai dormi fia, não foi nada. Ela pôs uma roupa e veio deitá abraçadinha neu e chorava baxinho. Uma hora ela resmungou que ele tinha colocado ela na vida. Num entendi nada. O gostoso era o calor da mãe juntinho.

Todo dia era igual. Eu olhava a escola e a igreja. Vi que na hora de entrá na escola, enchia de carro, largando a molecada na porta, fora os que vinha a pé. Depois era na hora de ir embora. Era menino e menina, tudo de farda. Os menino com calção azul, as menina com saia azul e meia branca alta e todo mundo de blusa branca. Vige. como eles brincava, como ria! Tinha pipoqueiro na porta e sorvete, eles comprava.  A gente olhava. Pipoca, a gente comprava todo dia pra ajuda a matá a fome. Eu pegava metade com sal e metade doce. Sorvete, de vez em quando. Tinha vez, que ia com a molecada pegá comida na lata de lixo dos bar por perto.

Na cama eu pensava que um dia eu ia entra naquela escola com a farda da escola e a mãe me deixando na porta. Contava pra Deda e ela falava que isso não ia acontecê. Era escola de rico. Mermão, quem nasceu pobre vai morrê pobre. Esquece. Perguntei se podia entrá na igreja. Ela disse que achava que sim, mas nunca tinha entrado.

Um dia levantei mal. Tava com dor de barriga, tava toda zoada. Fui no banheiro, mas nada. A dor continuava. A mãe táva dormindo, não quis acordá. Fui pra esquina, andando meio de lado com dor. A Deda falou que eu tava com cara de bosta, mas, não falei nada.  Nois tava começando o dia e de repente começou corrê sangue na minha perna. Eu gritei pra Deda que tava morrendo. Corri pro jardim do meio da rua , olhei debaixo da saia e tava saindo sangue da xoxota. Será que o home fez alguma coisa, naquele tempo, e agora tá acontecendo. Deda eu tô morrendo! Ela veio correndo, quando viu, começou a manga deu. falou pra eu esperá que já voltava e que não era nada. Voltou e trouxe uma coisa chamada absorvente. Tó, põe na calcinha. Me ensinou. Vamo pra tua casa, procê se lavá e troca de calcinha. Eu com medo de assustá a mãe, que podia tá dormindo, não quis ir. Então, vamo pra minha e te explico tudo.

Me lavei, emprestou uma calcinha. Não se aperreia, falou que eu tinha virado mulhé. Todo mês ia acontecê. Tem vez que doi a barriga. Já tinha deixado de ir pra rua por causa da dor. Agora, sabia porque eu tava com cara de bosta. Falou que a vó dela contou tudo. Contou, que agora, se homem colocá o negócio dele dentro da xoxota a gente pode pegá barriga. Eu falei, mas o pinto deles é pequeno. É, falou, mas fica grande. Aí lembrei do home no carro, lembrei de ver uns moleque maió com as menina nos canto, lá na favela, dava pra ver o dele grande e colocando no meio das perna dela. Falei pra Deda tenho que te pagá o absorvente. Respondeu pra esquecê, era presente de amiga, de mulhé. Achei bacana ela falá que era presente de amiga. Eu tinha uma amiga.

 

Uma vez que a mãe tava em casa, ficamos conversando. Contei do sangue. Ela me abraçou e pediu descurpa, já devia ter me avisado, ter explicado. Falei pra ficar tranquila que a Deda me contou tudo. Conversamos da escola, da esquina, da igreja. Falei que tinha vontade de entrá na igreja, mas, tinha medo. A mãe falou que não devia tê. Que lá era a casa de Jesus e da mãe dele, a Nossa Senhora. Era como a capela que tinha lá nas palafita. Ela pediu pra eu entrá e pedi pra Nossa Senhora ajuda nóis. Pede pra nossas vida ficá meió. Promete que a gente leva uma vela pra ela. Reza com força filha, eu tenho rezado muito. Reza com força.

Eu falei pra Deda que a mãe pediu pra eu reza. Táva com medo de entrá na igreja, pra ela ir comigo. Ela disse que a vó tinha falado que lá era igreja de padre e ela era evangélica, tinha que ir onde tinha pastor. Não quis ir de jeito nenhum.

Um dia eu vi um bando de menino e menina saindo da igreja, formando fila e entrando na escola. Táva todo mundo contente. Pensei, se eles saíram contente porque não vou até lá, e fico contente também? Esperei um tempão e resolvi ir. A Igreja táva escura, tinha umas vela nos lado e uma luz no fundo. Quando fui chegando, vi que tinha uma cruz pendurada no ar. Fiquei abestalhada de vê ela no meio da igreja, no ar. Parada no ar! Quando cheguei mais perto, vi que tinha umas cordinha segurando. A igreja táva escura e uma luza batia só no Jesus, sofridinho lá na cruz. Tinha sangue nos pé, nas mão e na cabeça. Ele tinha a mesma cara de dor do Jesus lá de Bueiro, só que o sangue parecia de verdade. Eu parei na frente e falei que queria falá com a mãe dele. Sentei no banco e aí vi num altar do lado Nossa Senhora. Táva vestida de azul e tinha um coração grandão pra fora do peito. A mãe falou, uma vez, que o coração dela era tão grande, que não cabia dentro do peito. Eu ajoelhei e coloquei o rosto entre as mão. Eu falava, lá do fundo do coração, pra Nossa Senhora ajudá minha mãe, ela táva sofrendo muito. Eu sofria de vê minha mãe sofrê. Eu não me importava de vendê na esquina, só não queria que a mãe fosse fazê o que fazia e ficá triste. A Deda falou que era sexo. A mãe ia deixá os home brinca com ela. Ela não gostava, chorava e táva muito triste. O Alcindo batia, não deixava nois ir embora pra outro lugá e chegou me bate, quando o dinheiro do dia era pouco. Nossa Senhora ajuda nóis. A mãe falou que trás uma vela se ajudá.

Eu levantei pra ir embora e olhei pro rosto da Nossa Senhora. Juro, ela táva olhando pra mim, sorrindo. Táva linda. Eu andei pro lado e os olho dela continuou olhando pra mim. Eu juro, ela não tirava o olho de cima deu e não parava de sorri. Eu cheguei perto e tinha uma lágrima saindo dos óios. Eu chorei. Ela táva olhando pra mim e chorando. Juro ela táva chorando. O vestido era lindo, azul com estrelinha. Eu falei, não chora Nossa Senhora, também não quero que a senhora fique triste. Ela chorava e sorria.

Quando voltei pra casa, não esperava a hora de encontrá a mãe e contá que eu falei com Nossa Senhora e que ela sorriu e chorou. Fui dormi cedo, querendo chegá o dia seguinte, pra contá pra mãe. De manhã acordei a mãe. Eu falei com Nossa Senhora. Ela sorriu pra mim. Eu juro. Ela chorou e sorriu. Ela não parava de tirá os olhos de cima deu. A mãe me abraçou e chorou. Falava que tinha certeza que ela ia me escutá.

 

Um dia a mãe chegou mais cedo e me acordou. Falou que Nossa Senhora tava escutando eu. O Alcindo não ia mais atrapaiá nossa vida, porque ele tinha se metido numa briga, foi pra delegacia e la descobriu que tinha uma ordem pra prendê ele, lá no norte. Ia ser muito tempo. A mãe falou que a vida ia se miór pra ela e que ele num ia mais pegá meu dinheiro.

Eu passei na igreja outro dia agradecê Nossa Senhora. Falei pra ela que agora ia muda tudo. A mãe não ia continuá o trabaio que táva fazendo e a gente podê voltá pro Recife, pras palafitas. Eu ia encontrá meus amigo de ante. Só fiquei triste porque não ia mais vê a Deda. Quem sabe a vó dela ia querê ir com nois?

Só que a mãe continuo indo pro mesmo trabaio. Saía a tarde e voltava de manhãzinha.  Eu ia pra rua. Agora eu comia marmita no armôço, às vezes pagava pra Deda. Quando miorô, a mãe comprou um colchosão, onde dormia as dua. O que era gostoso, acordá com o corpo dela quentinho, junto do meu. Comprou roupa pra nóis. Uma parte do dinheiro do dia da rua eu dava pra ela. Falou que era bom, comprou um fogãozinho, começô a fazê almoço. Arroz, feijão, macaxeira e uma mistura. Ela até deixou um dia eu convidá a Deda. Nois tinha que comê tudo no chão.

Um dia ela contou, que uma mulhé conversô com ela. Que era muito bonita pra trabaiá na rua. Convidou pra conhecê a casa dela. Diz que tinha uma outras muiés. Elas falaram que era mior. Ganhava um pouco mais, não tinha sol, não tinha chuva e nem frio. A mãe foi. No dia a mãe voltou com roupa nova. Táva pintada e com o cabelo arrumado. Perguntei, se ganhou, ela disse que não, tinha que pagá a Dona Zulmira. A mãe não trabalhaiava na segunda. Nóis aproveitava pra passeá.

A mãe falou que eu tinha que voltá estudá. Nois se arrrumamo e fomo na escola bonita que eu via na esquina. A mãe chegou lá e falou pra uma moça, que tava num balcão, o que queria. Tinha que esperá o padre pra fala com ele. Demorou. O padre ouviu a mãe e falou que não tinha mais lugá pra criança que não podia pagá. Num se mostrô interessado. Falou pra ir numa escola, lá perto, que era do governo. A escola do padre era muito bonita. Tinha uma escada, com um lugá pra bota a mão, quando subia e descia, que parecia de ouro. Tinha uns santo grandão, bonito. Todo mundo lá dentro táva arrumado. Como ficava sempre em frente, onde eu ficava, eu achava que a escola também era minha. Fiquei agoniada com um nó na garganta e uma vontade grande de chorá.

Na escola do governo a mãe conseguiu me colocá. Tinha um montão de vaga. A muié falou que não tinha muita criança por lá, no bairro. Eu tinha que usá a farda que ganhei. Era uma blusa branca e um calção azul. Eu vi o pessoal usando. Só que tinha camisa que parecia amarela e calção que o azul tava apagadinho. Num era bonito como na outra escola.

Eu ia pra escola de tarde. A mãe acordava depois de eu. A gente ficava junta, conversando. Ela fazia comida eu ajudava. A gente ria muito. Depois eu ia pra escola e a mãe ia trabaiá, chegando tarde. Comecei aprendê o nome das letra.  Eu encontrava a Deda depois da aula e falava da escola. A Deda ficava com os óios brilhando. Falava pra ela ir, mas não podia, tinha que ajudá a avó. Eu mostrava as letras, mostrava meu caderno. A gente brincava que táva junta no recreio. A gente ria só de pensá.  Aprendi escrevê meu nome. Fui mostrá pra Deda. Ela pediu pra escrevê o dela. Falei que ia pedi pra professora ensiná e depois mostrava. A professora falou que era “de” de dedo e “da” de dado. Escrevi, na outra semana fui mostrá. Cheguei lá não encontrei ela. O Toninho e a Sara vieram conversá. Falaram que uns dias ela chegou chorando, que tinha acordado e a vó táva morta. Vieram umas pessoa e levaram ela embora. Aí ela veio pra contá e chorá. Queria te procurá mas, àquela hora você táva na escola. Chorou muito e não apareceu mais. Corri onde ela morava. O quarto táva vazio. Contaram que uma muié do governo veio buscá a Deda e levou. Não voltou mais. Nunca mais vi ela, mas ela ficou sempre no meu coração. Chorei várias noite pensando e pedi pra Nossa Senhora ajudá ela. Perdi minha amiga.

Na escola tinha uma professora boazinha. Falava pra eu e pra Benedita, que todo mundo chamava de Bene, que a gente falava muito errado e ia começá a corrigir nóis. Não era nóis, era nós. A gente ficava treinando. Melhorei, mas às vezes escapa. Que quando era mais de uma cadeira, a gente tinha que por um “s” no final. Cadeiras, meninos. Nós ficava treinando. Homens, mulhers, pãos, frutas, mesas, cors. Tinha o lanche no recreio. Pão com salsicha e o que eu gostava e pedia sempre, e a mulher ria, pão com mortandelas. Eu ficava toda contente que ela ria porque eu falava direito. Não era para falar com eu, o certo era comigo. Mas tinha uns casos que eu ainda não conseguia guardar direito. Ela corregia quando era pra eu, quando era deu. Nos começamo a falar melhor graça a Professora Luzinda. Nunca mais vô esquecê dela.

Depois de um tempo, a mãe falou que no domingo nós ia mudá. Falou que algumas moças que trabalhava com ela, dividia uma casa e ia sobrar um quarto. Ficava perto da escola e do trabalho. Era uma casa velha, tinha um corredor e no fundo um quintal. Não era muito grande, mas tinha uma árvore no meio. O corredor tinha quartos de cada lado. Era seis. Terminava numa cozinha grande, com mesa pra comer e depois um banheiro, onde ficava o chuveiro. O chão era de azulejo velho, com uns remendo, mas táva limpo. Nosso quarto era o segundo da esquerda, com uma janela que dava prum corredor estreitinho. Tinha duas camas que táva com colchão. Falei pra mãe que tinha medo de dormi na cama, podia cair. Ela respondeu pra eu não ser jegue, todo mundo aprende dormi na cama. O chuveiro era quente. A mãe queria que eu tomasse banho todo dia. Tinha que aproveitar o horário que as mulheres tivesse trabalhando.

Lá moravam a Zefa com o filho, o Buiu, a Dora, uma negra muito bonita e os filhos a Lua e o Nilton, a Ção que o filho não morava com ela, Carol e o filho Zito e a Neuzinha e o Cassio. As menina (é assim que se chamavam), trabalhavam onde a mãe trabalhava. Tinha a Dona Raimundo que limpava o corredor, o banheiro, a cozinha, a casa por fora e fazia o almoço. A mulherada fazia uma caixinha e na segunda, duas ia fazer compra. Eu adorava quando tinha que ser a mãe, pois eu ia junto.

A molecada estudava na mesma escola e no mesmo turno. À tarde. A gente formava um grupo. A gente falava que nem os mosqueteiros, que nós vimos na televisão. Um por todos e todo por um. Mexia com um, mexia com todo. Eles falavam que todos era irmão. Era o bando. Um dia na escola, uns garotos começaram a mexer comigo e com a Lua.  O Zito ouviu, começou a discutir com eles, chegou o Nilton e o Cassio. Começaram a xingar e chamou nós de filhos da puta. Os três deram um pau nos outros quatro. Foram parar na diretoria. Eu e a Lua, fomos contá pra diretora que eles chamaram nós de filho da puta. Eu vi que a diretora, sorriu, engasgou pra falar, mas, liberou os meninos. Naquele dia eu tive certeza, que a profissão da mãe era puta, palavra que dava briga lá no Recife e eu e todos que estava ali, éra filho da puta. Nós ia levar dentro de nois essa verdade. Outra coisa que comecei a vê, como a Luz e o Nilton, que eram escurinho, sofriam. As pessoa tratava eles diferente e mal, só porque não eram branco.  Falava comigo de um jeito e com a Lua de outro. Tinha até professora que fazia isso com eles, e com outros menino e menina que eram preto. Os dois era gente fina, como falava o Buiu. A Luz, depois da Deda foi a minha miór amiga.

Um dia, a mãe voltou de tarde e foi pra cama passando mal. A Dona Raimunda fez chá e deu remédio pra ela. A mãe passou a noite com febre. A mãe pediu que eu pegasse água fria, molhasse um pano e colocasse na testa. Passei a noite toda fazendo isso. Não dormi. A mãe botô os bofe pra fora. Quando as menina chegaram, pedi ajuda. A Zefa e a Ção ficaram com ela e mandaram eu ir dormir no quarto da Ção. Apaguei, quando acordei corri na mãe. A Ção táva dormindo na minha cama e agora, quem cuidava da mãe, era a Carol. A Dona Zulmira, onde a mãe trabalhava, mandou um médico. Examinou a mãe e deixou remédio para dar de 4 em 4 horas. Não fui pra escola. Chorei várias vezes e pedi a Nossa Senhora pra ajudá a mãe. Falei que eu sabia que ela não tinha levado a vela, mas prometi, que logo que ela melhorasse eu levava.  Chorava e pedia pra perdoá a mãe. Nossa Senhora, bota fé que ela leva. A Dona Raimunda, fez canja de galinha pra ela ficá mais forte e forçava comer. No quarto dia, começou a conversá comigo e contou que têve um bebê, mas que não podia ficar com ele. Não tinha como criar. Quando tirou ela ficou ruim. Eu cuidava mãe, falei. Num dá filha, você é muito nova pra cuidar de uma criança. Fiquei triste, porque perdi um irmãozinho ou irmãzinha, mas, contente, porque a mãe não morreu. Teve outras vezes que ela ficou ruim, não como aquela. Dizia que era do trabalho. Só que cada vez eu achava que ela ficava mais triste, cansada e mais velhaUm dia ouvi a mãe conversando com a Ção, dizendo que não aguentava aquela vida, oito dez homens cada noite, a maioria cheirando mal ou cheio de pinga. Tem uns que quer fazê umas coisas que não gosto ou não tô acostumada. Pouco deles tratava bem. Tinha vergonha do que fazia, mas precisava sustentá nós. A Ção, que era a mais velhas delas, respondeu que tinha que tomar cuidado de não pegá doença, nem criança. Não aceitá homem que fosse ruim. Se que o home queria, ela achava que não devia fazê, trata de fazê carinho e distrai ele. Oxe, eu sei que tem hora que não dá, aí não tem jeito. Quando tem alguém muito ruim, fala pra Dona Zulmira, que ela não deixa mais entrar. Mas tinha que aguentar por minha causa. Essa a vida de mulher da vida, puta.

A mãe e eu não tínha voltado para Recife, não morava em nossa casa, não tinha carro, roupa bonita, mas a gente vivia melhor. Preocupada com a promessa da vela que a mãe fez e não cumpriu, se nossa vida ficasse melhor, resolvi perguntar. Mãe, nossa vida ficou melhor? Ficou, ela me disse. Por que não levamo a vela que prometeu pra Nossa Senhora. Me abraçou e falou que eu tinha razão. Que a gente ia levá.

As meninas, Dona Zulmira, que deu mais e Dona Raimunda ajuntaram dinheiro e alugaram um ônibus pra todo mundo, inclusive as crianças ir pra Aparecida do Norte, casa da Nossa Senhora no Brasil. A viagem foi uma farra. Teve cantoria, sanduiche e refrigerante. A igreja era muito grande e bonita.  A igreja dela é grande, porque o Brasil é grande e a casa tinha que ser enorme pra caber muita gente, falou a Zefa. A Nossa Senhora de lá, que eu já tinha visto em foto, era preta. Vige, como era bonita. Táva com coroa em um lugar dourado fechado com vidro. Nós passamos lá e demos um beijo. Aí, nós levamos a vela. Era um lugar feio com muita fumaça e muita vela. Depois fomos ver um lugar que as pessoas colocavam fotos, muleta, perna feita de cera. A mãe falou que estavam agradecendo milagres que as pessoa receberam. Depois sentamos nos bancos para rezar. Era muito barulho, muita gente. Falei pra Nossa Senhora que ia falar com ela lá na igreja perto de casa, era mais sossegado. Depois, fomos comer hamburguer na lanchonete, lá no estacionamento. Dona Zulmira pagou e falou que era presente pra todo mundo. A gente aplaudiu, assobiou e comeu com todo mundo falando ao mesmo tempo, se sujando de ketchup e mostarda. O Nilton jogou batata frita no Cássio e a Neuzinha deu bronca nos dois. Ela gritou, que Deus não gostava que jogava comida fora. Pensei é verdade, eu mesma já peguei comida na lata do lixo.

 

Um dia fui falar com Nossa Senhora. A vó da Deda, falou que quem nasce pobre vai morrer pobre. Será que teu filho Jesus, que é Deus, quer que a nossa vida seja sempre assim. Oxente, ele nasceu num curral, entre boi e vaca. Vocês eram pobrinhos. Sabem quanto é difícil ser pobre. As pessoas tratam a gente diferente. Quando eu paro na frente da igreja, todo mundo fica me olhando diferente, olhando minha roupa, meus sapato. Os meninos com roupa bonita ninguém fica olhando, falam com eles. Outro dia uma mulher queria me dar uma esmola. Eu não tinha pedido. Falei que obrigado. Não precisava. A mulher saiu me xingando. Pobre não é filho de Deus ou será porque eu e meus amigos somos filho da puta? A mãe trabalha nisso, mas, não gosta. Fica triste. A mãe fala para eu estudar que não quer que passe o que ela passa e passou. Quer que eu seja alguém na vida.

 

Hoje tenho 20 anos. Muita coisa aconteceu nesse tempo.

O bando sempre foi mal visto na escola, mas, nós nos protegíamos. Éramos uma família. Quando eu tinha 14 anos, fomos a uma festa da escola em um salão próximo. Uma banda tocava músicas maravilhosas. Banda era algo que a gente não via sempre.

 Eu e a Lua fomos com nossas roupas mais bonitas. Jeans, blusa com bordados e jaquetinha. Calçávamos botinhas. Estávamos no nível das riquinhas da outra escola, assim pensávamos. Encontramos lá o Buiu, que adorava dançar e o Zito. Eles estavam tentando alguma chegada com as menininhas. O Buiu até estava no enrosco com uma. Toda hora, os garotos vinham dançar conosco. Só que eles dançavam de um jeito sem-vergonha. Quando a dança era lenta, apertavam e enfiavam as pernas no meio das nossas. Parecia, às vezes, que estavam mais nos enconchando que dançando, até queriam apertar nossas bundas. Tinha uns, que só porque a Lua era negra, pensavam que podiam abusar mais. Numa dessa reclamei e o Zito que estava perto falou pra não fazer aquilo com a irmã dele. O outro gozou, perguntando se todo filho da puta era irmãos. Deu um pau. O Buiu entrou, alguns amigos deles entraram. Acabou a festa em pancadaria. Os garotos da escola passaram a nos respeitar, apesar do cochicho que faziam quando nós passávamos. Essa era uma realidade constante.

No meio desse tempo, o Cássio se meteu com drogas. Todos lhe falamos para parar, mas ele estava gostando do dinheiro que ganhava. Dizia que ia tirar a mãe da vida. Andava com um pessoal da pesada e longe do bairro, porque algumas vezes nós o pegamos vendendo e ele ficou com vergonha da gente. De repente, desapareceu e depois, soubemos pela Neuzinha, que foi morto, num entrevero com a polícia. A Neuzinha chorou a morte dele, por muito tempo. Ele era um rapaz bonito e muito simpático. Sempre achei que se daria bem na vida, mas, a vida, não se deu com ele.

A Lua que era minha amiga, quando tinha uns dezessete anos, começou a se meter com um pessoal que conheceu em uma das festas da escola dos riquinhos. Ela era uma negra alta, linda, faceira, tinha um sorriso que ganhava qualquer um. Sua voz era gostosa e possuía uma conversa agradável. Toda hora, alguém vinha buscá-la de automóvel, para sair à noite. A Dora, sua mãe e o Nilton, seu irmão, brigavam com ela por estar se metendo em um meio que não era o seu. Diziam que devia parar de farra e continuar estudando. Conversei com ela para aproveitar a beleza que tinha e tentar ser modelo, trabalhar na televisão, sonho de todos nós. Para não deixar ser aproveitada por homem. Dizia que eles só queriam foder, portanto, era um jeito de ganhar o que queria e ter uma vida melhor. O irmão e a mãe tanto brigaram com ela, que quando fez 18 anos saiu de casa e foi morar com umas amigas. Acredito que virou garota de programa. Ela dizia que se a mãe ganhava a vida assim, estando acabada, ela que era jovem e bonita iria se dar melhor. Nunca mais soube dela. O Nilton, a última vez que o encontrei, era vendedor em uma loja de roupa para homens em um shopping. Disse que estava namorando e quando casasse mudaria de casa e levaria a mãe junto.

O Buiu virou evangélico e conheceu uma menina da igreja. Eu gostava dela. Era delicada, simpática. Acabara o ginasial. Só falava em casamento. Casaram e mudaram para uma casa lá para os lados da Zona Leste. Os dois trabalhavam. Ela de caixa em um supermercado e ele consertava computador e celular. Abriu uma lojinha, onde depois a mulher foi trabalhar. Apareciam sempre para ver a mãe. Quando teve o segundo filho, conseguiu tirar a Zefa da vida e levou-a para viver com eles.

A Ção que vivia sozinha, ficou muito doente e foi morar com a irmã em Andradas, a quem ajudou por muito tempo. Era seu sonho, mas, estava com a saúde abalada e não viveu muito tempo.

A Carol e o Zito voltaram para a Paraíba, onde tinham família. A Carol, na minha opinião foi a mais inteligente. Sempre direcionou o Zito para ter uma profissão. Era mecânico de carro. Saiu da vida há tempo, com saúde e dinheiro no bolso. Pelo que sei, comprou casa em João Pessoa e uns terrenos. Fiquei muito feliz por eles.

Hoje olho para trás e vejo como foi minha vida, a da mãe, das meninas e dos filhos. Por empenho da mãe, me formei em contabilidade, apesar do ensino muito fraco que recebi, e agora estou entrando na Faculdade de Ciências Contábeis. Consegui trabalhar, para pagar o curso, durante o dia, e estudar à noite. A mãe não quis parar de trabalhar na vida até eu me formar em contabilidade e estar firme trabalhando na área. A casa que morávamos, com a saída das meninas, que se conheciam, começou a ter meninas mais novas, com outra mentalidade, se envolvendo com homens e drogas. O ambiente foi ficando cada vez pior. Três anos atrás, consegui alugar um pequeno apartamento em Carapicuíba. Após um tempo, quando estava com meu emprego firme, tanto fiz, que a mãe saiu da vida. Sua saúde estava muito debilitada. Foram dois anos difíceis, de postos médicos, internação no SUS, até que seis meses atrás faleceu, fruto das doenças que adquiriu na vida. Morreu com uma luz apagada nos olhos e triste por não conseguir mudar de vida. Dizia a ela, que tinha conseguido melhorar nossas vidas. Saímos das palafitas e agora morávamos em um apartamento, só nós duas. Consegui estudar, tenho uma profissão. Tudo graças a seu esforço. Sua morte me estimulou a escrever este relato.

Vejo que em nosso país, pobre, na sua maioria, morre pobre. Do crescimento econômico, das melhorias sociais, só recebe esmolas. A máquina não é feita para o tirar o pobre da pobreza, até parece, que existe para mantê-lo. O governo tira muito e devolve pouco. Usa os recursos para manter as suas mordomias, numa discrepância absurda em relação ao nível que vive o povo. O povo não é o fim para chegarem ao poder e sim o meio. Quanto pior for a educação, melhor para os políticos usufruírem da sua ignorância. Só a educação liberta!

O pobre, normalmente, é empurrado para a periferia das cidades e da vida ou para morar em guetos.

Nunca mais voltei às palafitas, que foi por muito tempo meu sonho.

 

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