quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Amargura

Ele entrou em minha sala. Era um homem curvado, acabado. Quando se sentou à minha frente, me fez lembrar da propaganda de um banco, em que o cliente ia desaparecendo na cadeira em frente ao gerente.
Seu rosto estava marcando pela preocupação e pela desesperança.
Tinha roupas simples, mas bem arrumadas. Via-se que viera do trabalho.
- Doutor Delegado, meu filho esta em sua delegacia. Foi preso por estar consumindo droga. Vim verificar o que pode ser feito. Eu e minha mulher temos cuidado dele. Já o coloquei várias vezes em clínicas de tratamento. É um bom rapaz. Seu nome é ........
Naquele momento, a imagem daquele homem lembrou a de meu pai. Ele tinha um olhar inseguro, derrotado. Eu já vira algo igual no passado.
Meu pai trabalhara por trinta anos em uma grande empresa. Comprara nossa casa e vários imóveis com seu salário, horas extras e as inúmeras férias que vendera durante a vida.  Educara a mim e ao meu irmão.
Eu terminara o colegial e me preparava para o vestibular. Meu irmão acabara de entrar em uma escola técnica.
Eu trabalhava meio dia em um escritório de contabilidade de um conhecido e a tarde fazia cursinho, pois, tencionava entrar em uma faculdade de direito.
Meu pai, havia se aposentado há menos de um ano. Era muito amigo do Sr. Martins, um velho português, dono de um pequeno armazém em nosso bairro. Passava horas com ele em seu estabelecimento. De vez em quando almoçavam com as famílias. Um na casa do outro.
Sr. Martins só tinha a esposa. Seu grande sonho era retornar para Portugal.
Um dia meu pai chegou com a grande idéia, que já havia discutido com minha mãe:
- Filhos, vou comprar o negócio do Sr. Martins. Tenho acompanhado seu dia a dia. O negócio é bom e ele tenciona vender, pois, definitivamente, decidiu voltar para Portugal.
Terei que pagar a vista. O preço é bom. Para tanto, terei que vender os imóveis que possuo, naturalmente, fora esta casa.
Explicou em detalhes as possibilidades da atividade, o custo e os ganhos possíveis de serem obtidos. A segurança que tinha, pois, o Sr. Martins era seu amigo e estava passando todas as informações. Concordamos e ficamos felizes e na expectativa.
As vendas dos imóveis foram feitas e o dinheiro aplicado no overnight , pois, naquela época, março de 1990, a inflação era avassaladora, em torno de 30% ao mês. Era o final do governo Sarney, quando a inflação chegou a 80 % no último mês de (des) governo.
Meu pai iria assinar os papeis nos próximos dias. No dia 15 de março assumiu o Presidente Fernando Collor. No dia 16 de março foi publicado o famigerado Plano Collor, onde 80 % do dinheiro que estava nas contas bancárias e no overnight foram retidos por 18 meses.
No primeiro momento uma estupefação. Não sabíamos o que fazer e nem o Sr. Martins. De imediato o seu movimento caiu significativamente.
Depois a dura realidade foi se mostrando. O dinheiro da venda dos imóveis foi perdendo seu valor.  O negócio do Sr. Martins principiou a se mostrar interessante pois, fazia dinheiro diariamente.  As pessoas compravam pouco, mas, comprava e pagavam a vista.
O plano de meu pai foi se desfazendo como um castelo de areia. Apesar da grande amizade, o Sr. Martins, depois, de um ano encontrou um comprador que lhe pagou, à vista, um pouco a menos do que desejava e se mudou para Portugal. 
- O Brasil não é um país para se viver até o final dos dias. O governo não é confiável. Vou viver modestamente, mas tranqüilo em Portugal. – disse o Sr. Martins.
Eu tive que largar o cursinho e trabalhar o dia inteiro. Meu irmão parou o colegial, até conseguir uma escola pública. Só depois de três anos é que consegui continuar com meu plano de entrar na faculdade.
Meu pai foi se apagando. Aquele homem, alto e seguro de si foi esmorecendo. Despendia o dia na frente da televisão, olhando mas não enxergando o que passava. Meu pai acabou morrendo de amargura.
Muitos perderam as economias, a vida e a saúde por uma aventura irresponsável de um governo, que mostrou pouco tempo depois, que não serviria para nada.
A figura daquele senhor na delegacia era igual a do meu pai.  O porte e olhar de um derrotado, totalmente inseguro e sem perspectiva.
Sou delegado há alguns anos. Tenho vivido situações duras, trágicas e horríveis. Sou como um médico, que endurece seu coração, senão não suporta a morte de seus pacientes.
Entretanto, naquele momento, com a imagem do meu pai na minha mente e refletida no rosto daquele homem, percebi que uma lágrima principiou a rolar dos meus olhos.

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