12/12/22

IRMÃO CONTRA IRMÃO



INTRODUÇÃO

Estamos vivendo um momento de grande bipolarização. Muitos pedem ações mais radicais, como intervenção militar. Para melhor avaliar o que pensar e fazer, contarei uma história que ocorreu durante a Guerra Civil Espanhol, que aconteceu entre 1936 e 1939. Esta foi uma guerra que dividiu um país ao meio, desfazendo e separando famílias, amigos, pais, filhos e irmãos, por posições políticas e religiosas. Fruto de uma grande bipolaridade.

 

IRMÃO CONTRA IRMÃO

Ramon Porell dirigia seu carro pelas estradas do interior da Espanha, a caminho da casa que fora de seus pais. É começo de 1978. Havia dois anos que o ditador Franco morrera e a Espanha vivia novos tempos, anistiando os perdedores da guerra e que se refugiaram em outros países. Ramon está com 53 anos, sendo a primeira vez, que volta a seu país. Como será recebido pelo irmão, a quem não vê, há cerca de 40 anos? Haverá possibilidade de diálogo entre eles? Suas vidas foram divididas pela guerra e pela desgraça que se abateu sobre a família.

A estrada serpenteia campos pedregosos, que se perdem aos pés das serras, com alguns rebanhos de bois, ovelhas e cabras. Veem-se olivais, de tempo em tempo videiras e muitas amendoeiras. Aqueles campos, trazem com força as imagens da sua infância, quando com o irmão Isidro, corriam por eles, procurando caracóis, colocando armadilhas para lebres e outros pequenos animais. Lembranças de quando o pai os levava a caçar javali, que era preparado pela mãe em um farto almoço de domingo, com arroz com caracóis, saladas da horta, chouriços e o bom vinho produzido pelo vizinho, Dom Agustin. Eram uma família, feliz e alegre, até que uma nuvem de dor e incertezas se abateu sobre eles.

Parou em frente a Igreja de São Nicolau e da Virgem das Dores, na entrada da cidade. Uma construção com características românicas, toda em pedra. A visão é maravilhosa, pois, há milhares de andorinhas, pousadas nos telhados, nos beirais, nos nichos e na torre do campanário. A igreja parece uma noiva coberta de enfeites. Relembrando os tempos de infância, não resiste. Desce do carro, grita para assustar os pássaros, que se elevam aos céus formando rodamoinhos que se entrelaçam entre si, cobrindo o sol pela sua quantidade. Espetacular. Pouco a pouco, voltam aos seus lugares. Recorda da mãe indo à missa, do pai participando da Semana Santa. A festa dos santos no início de fevereiro, quando uma grande paella era servida para toda a comunidade. Como uma grande família, cada um levava um prato de doces ou salgados e garrafas de vinho, partilhando com os vizinhos.

Toma a rua principal da cidade. Uma placa indica: População 308 habitantes. Um terço de quando ali vivia. Depois da guerra, muitos jovens tiveram que se mudar para cidades maiores em busca de trabalho. Foi o início da grande saída do campo, que levou o país a ter o que se chama “Espanha Vazia”, com cidades esvaziadas e algumas abandonadas. Passa em frente à venda do Manolo, onde se ouve uma zarzuela tocando alto em um rádio. Era o local, onde a comunidade se encontrava para beber, jogar cartas e em vários finais de semana havia um bingo.

O calçamento é de pedra, assim como os velhos casarios e a maioria das casas. Pelo caminho passa em frente a antigos armazéns com seus sistemas de polias para descarga das mercadorias, hoje abandonados, algumas cisternas em modelo árabe, cobertas por uma pequena abóboda de argamassa e ladrilhos onde se acumula a água das chuvas; e portas antigas de madeira escavada, que dão acesso a antigos pátios. Por ser pequena a cidade, a sua chegada chama atenção das pessoas, que param para olhar, quando não, chamam os vizinhos.

Chega à casa dos pais. Uma casa antiga de pedras, com janela à direita, tendo uma porta em uma reentrância na parede, formando um degrau em relação à rua e proteção contra a chuva, possibilitando ver a grande largura da parede. É geminada a outras casas que possuem a mesma construção e aparência.

Passou anos, esperando por esse momento, pensando o que fazer, o que dizer e, agora, sente-se perdido. Como será a recepção do irmão? Como iniciar a conversa? Bate palmas.

Seu irmão abre a porta. É dois anos mais velho e mais alto. Tem os cabelos brancos desgrenhados e a barba por fazer, calça surrada e uma camisa listrada, que nota-se, foi vestida para recebê-lo. Tem um olhar gélido e a fisionomia fechada, o rosto duro de um homem do campo com claras marcas feitas pela vida. Não há sorriso entre eles. Um simples aperto de mão e o convite para entrar.

Senta, vou passar um café.

A casa não tem mais a aparência da casa da mãe. Que saiba, o irmão não casou. Poucos móveis, nenhum enfeite, somente uma foto do casamento dos pais em uma moldura oval. A casa está limpa. Sente um frescor comum às casas de pedras, feitas para abrandar o calor no verão e proteger do inverno, que pode chegar a menos 10 graus.

Na família, tudo principiou a desequilibrar-se com a queda da monarquia e ascensão da república em 1931. Fora promulgada uma nova constituição, propondo reformas sociais e econômicas e a separação da igreja do governo, criando um estado laico. Nisso, começaram os grandes conflitos com a igreja e os poderes constituídos, com suas estruturas arcaicas. Os latifúndios estavam em mãos de famílias nobres ou tradicionais e ordens eclesiásticas, que cediam parte dos seus campos, a lavradores ou parceiros em condições precárias, em uma situação feudal. Nas cidades, empregadores não ofereciam condições e salários adequados. Nas minas de carvão, além do problema da remuneração, o trabalho era insalubre, inseguro e excessivo em carga horária.

Enquanto isso, nas capitais e nas maiores cidades, ocorria grande efervescência política, onde ideias tradicionais confrontavam com novos movimentos de esquerda, que fervilhavam na Europa, como o comunismo, o socialismo, o anarquismo, a democracia e outros mais. Esta ebulição se espalhou pelo país e chegou aos pequenos povoados. Lembra-se  Ramon que Isidro, seu irmão, esbravejava ser um absurdo o que ocorria. Inclusive, tentaram queimar a igreja da cidade, mas, muitas pessoas intervieram, inclusive seus pais. Era histórica e possuía uma imagem do Crucificado que possuía grande valor artístico.

Ramon respondia:

 Isto ocorre porque a igreja sempre esteve do lado dos ricos. Algumas possuem, inclusive, terras nas quais trabalham um povo explorado.

Daqui a pouco vou te ver correndo atrás de padres para fuzilar gritou Isidro.

Nunca! Temos que batalhar por melhorias, mas não perseguindo ou matando nossos irmãos respondeu

Era uma constante discussão entre os irmãos, que possuíam opiniões contrárias. Ocorria, o mesmo, com amigos e familiares. As reuniões no bar do Manolo escassearam. Os grupos contrários reuniam-se em dias distintos, para não terminarem em briga.

Precisamos de ordem, mesmo que seja debaixo do tacão de uma autoridade. De que vale a democracia com desordem? perguntava Isidro.

A democracia permite a busca do que é melhor para o povo e não só para as elites retrucava Ramon.

O pai, Salustiano, tinha que pedir, inúmeras vezes, que se calassem e se respeitassem, assim como a ele e à mãe, Encarnação. Eles concordavam que os ricos e a igreja estavam errados, mas viviam pedindo a Deus, pela paz. Viviam um conflito entre a instituição e a fé.

A cidade que antes, era de harmonia, passou a se calar, apagar, pelo medo. A qualquer momento, pessoas podiam ser acusadas por professar opiniões contrárias e muitas vezes por simples inveja ou fruto de desavenças.

Em janeiro de 1936 houve novas eleições, vencidas pela esquerda, levando a um aumento nos conflitos do povo com as instituições, queimando igrejas, perseguindo padres e freiras, prisão de nobres, industriais, comerciantes e pessoas ditas de direita. Houve fuzilamentos, sem julgamentos, na calada da noite. O governo não estimulava esses atos, mas não os coibia, além dos enfrentamentos que havia entre os diversos grupos.

Esta situação, levou a que em julho de 1936, ocorresse uma sublevação militar, em Marrocos, protetorado espanhol, comandada por Francisco Franco, tendo ao seu lado a “Guarda Moura”, legião estrangeira formada por soldados muçulmanos marroquinos, que possuíam forte treinamento militar em razão das constantes guerras na região. Diziam ser uma “Cruzada” contra ateus e comunistas. A sublevação não teve sucesso em toda a Espanha.

O país nesse momento ficou dividido e começou uma GUERRA CIVIL. De um lado o Bando Nacional e de outro o Bando Republicano. Os sublevados obtiveram o apoio da Itália fascista de Mussolini, da Alemanha nazista de Hitler e o apoio velado de Salazar, ditador de Portugal. Os republicanos, por sua parte, contaram com o apoio da Rússia e de uma série de idealistas do mundo inteiro, das mais diversas conotações políticas, que seguiram para Espanha com o objetivo de lutar contra o fascismo, formando as chamadas Brigadas Internacionais. As grandes potências manifestaram-se neutras.

O clima na família Porell piorou, quando, chegaram à cidade, em março de 1937, vários grupos de refugiados que escaparam das atrocidades ocorridas na estrada de Málaga para Almeria, fugindo dos nacionalistas, que batalhavam pela cidade de Málaga. Pediam abrigo para descansarem, roupa, comida e ajuda para chegarem a Barcelona, que na época estava nas mãos dos republicanos. O pai, a mãe e Ramon saíram a rua para receberem essas pessoas. Ao final, acolheram em sua casa, um grupo composto de mãe, avô e dois filhos pequenos.

Isidro, pôs-se contra de imediato.

Como vocês recebem um grupo de comunistas foragidos? É uma loucura, um absurdo! Que eles arquem com seus atos.

Seus pais respondiam:

É gente como nós, que está pagando com suas vidas, simplesmente, por estarem no meio de uma guerra.

Ele continuava discutindo com os pais, com o irmão, que também saíra para ajudar. Saiu de casa, dizendo que não voltaria, até que, aquelas pessoas fossem embora. Foi dividir suas reclamações junto a amigos que pensavam igual.

A família facilitou água e sabão para se lavarem, roupas que tinham ou conseguiram com os vizinhos, sapatos, pois os deles estavam esfarrapados, tanto que alguns, tinham os pés em carne viva. Ofereceram o pouco de comida que tinham, mais alguma que amigos, também dividiram. Comiam desesperadamente. Via-se que há vários dias não comiam ou mal comiam. Puseram cobertas no chão e acomodaram-nos, como possível. Espalharam-se pelos cantos, quando não juntos.

Na manhã seguinte, um café aguado, pão e alguns pedaços de toucinho. Manola, como se chamava a mãe, contou que moravam em Málaga, que o marido estava na frente de batalha, ficando ela, o sogro, a sogra e três crianças.

Mas só está seu sogro e duas crianças. E os outros? perguntou Encarnação.

Já o conto. Ocorre que os fascistas começaram a tomar áreas dos republicanos, como Sevilha, Ronda e Granada, e a população começou a fugir para Málaga, que ainda estava nas mãos dos republicanos. Fugiam, porque diziam que os nacionalistas fuzilavam aos homens que encontravam, não importando a idade e nem se participavam no conflito ou em movimentos. Falavam que os moros da Guarda Marroquina, matavam as crianças, velhos e abusavam das mulheres, principalmente as mais jovens. Em pouco tempo, havia o dobro de pessoas na cidade, pelas ruas, praças, igrejas, onde fosse possível. Faltava comida e água. A cidade começou a ser constantemente bombardeada. Dormíamos vestidos para podermos correr aos abrigos quando chegavam os aviões. Os fascistas se aproximavam da cidade.

No dia 7 de fevereiro, principiou o pânico a se espalhar, com a informação que os fascistas e a Guarda Mora estavam tomando a cidade, matando e abusando de qualquer um. As pessoas pegavam o que podiam em suas casas, colocavam em malas, bolsas, sacos, no que pudessem carregar. Poucos tinham carros, que saiam atulhados de móveis, cadeiras, colchões e roupas, o que cabia, como se quisessem levar parte de suas vidas. Outros se valiam de burros, cavalos, carriolas e bicicletas. Nós que não tínhamos nenhuma forma de transporte, levávamos nossas coisas em sacos, na cabeça, pendurados nas costas, seguros pelas mãos. As crianças levavam pequenas malas ou bolsas. Elas tinham entre 5 e 8 anos.

A multidão seguia para Almeria. Apesar da estrada ter 220 km, era a saída que se apresentava. A voz de Manola começa a tremer, seu rosto se crispa e lágrimas começam a sair. Soluça; não consegue continuar. Para, respira e recomeça:

Na estrada parecia uma procissão. Era uma grande fila de pessoas. No começo não haviam ataques, mas logo ao amanhecer, chegaram os aviões. As pessoas, que andavam, começaram a correr, muitas caiam, mães gritavam pelos filhos e eles por elas. Muitos velhos mal conseguiam caminhar, quanto mais correr. Malas, objetos eram largados de qualquer forma; o importante era preservar a vida. Ouviam-se gritos, choros e alaridos. Começaram os bombardeios. Os aviões descarregavam as bombas, recarregavam e voltavam para continuar. A estrada fica entre a serra e muito próxima do mar. Vários navios chegaram e também começaram a bombardear. Rochas caiam pela estrada atingindo pessoas que corriam, quando muitos se desencontravam e se perdiam.

Manola, para e chora. Seus filhos que estão próximos também choram. Seu sogro tem o olhar parado, parece não estar ali. Notam-se lágrimas em seu rosto escorrendo. Ela, retoma:

São imagens, sons e cheiros que não me saem da cabeça. Ao final de cada bombardeio, o ar estava impregnado de enxofre e sangue. Havia muito sangue no chão de pessoas e animais. Corpos estraçalhados. Crianças perdidas. Pais desesperados buscando seus filhos. Velhos que se punham no chão e preferiam esperar a morte a ter que correr ou andar.

Quando os barcos estavam mais próximos da costa, metralhavam as pessoas. Podia-se ver os marinheiros nos convéns e, às vezes, ouvir seus gritos. Vi mães mortas com seus filhos de meses no colo. Uma que não me sai da memória: com peito fora da blusa para dar de mamar, morta, e a criança caída ao lado chorando. A grande maioria eram mulheres, crianças e velhos. Que valor militar tínhamos? Era uma chacina. Eram bárbaros. Não é possível acreditar, que eram espanhóis matando espanhóis. Irmãos matando irmãos.

Os aviões iam e vinham descarregando bombas, os navios bombardeando e metralhando. Se há inferno, aquilo era o inferno. Corpos por todos os lados, pedaços de vida em meio a malas, bolsas largadas pelo caminho. Muitas, muitas crianças perdidas, chorando. Pais desesperados procurando seus filhos quando não, os encontravam mortos. As pessoas não podiam cuidar das outras, pois estavam cuidando de se salvarem e manter sua família unida.

Chora Manola, choram todos em volta. Um sentimento de repulsa se espalha. Continua Manola:

Ali, morreu minha sogra por uma bomba que a pegou, pois, não conseguia correr e se deixou ficar onde estava. Ali perdi minha filha menor, Angelita, que se soltou de minha mão e não mais a encontrei. Chamei, gritei, procurei seu rosto entre as inúmeras crianças mortas que encontrava pelo caminho. Não a encontrei.

Grita e chora convulsionada:

São bárbaros. Somos todos irmãos. Que sede tinham de morte. Éramos mulheres, crianças e velhos, mulheres, crianças e velhos. Assassinos. Que país querem? Um país forrado de corpos e tingido de sangue dos irmãos?

Ramon, lembra-se, hoje, as palavras daquela mulher e seu rosto, onde o horror, o medo e o nojo estavam estampados. Crianças que choravam as lembranças recentes, um velho fechado na sua dor com um olhar perdido na inutilidade da vida.

Depois da guerra, soube mais dessa chacina ocorrida na estrada de Málaga para Almeria em fevereiro de 1937. Era uma corrente de mais de 50.000 pessoas fugindo, onde uma 5.000 eram crianças. Morreram de 3.000 a 5.000 pessoas. Bem mais que as 1.600 que morreram em Guernica, pelos bombardeios da Legião Condor alemã, que ficou imortalizada pelo quadro de Picasso. A chacina da estrada de Málaga para Almeria, conhecida como “La desbandá”, por muito tempo ficou encoberta pelo governo franquista, para não trazer à tona esta chacina vergonhosa e pelos republicanos, criticados por não enviarem reforços para Málaga, quando esta pediu ajuda.

Málaga caiu nas mãos dos nacionalistas em começos de fevereiro de 1937, com a ajuda de legiões do exército fascista da Itália de Benedito Mussolini.

 Após a família de Manola, nos dias seguintes, outras famílias apareceram, nas mesmas condições, fugindo dos avanços dos nacionalistas, que gradualmente tomavam regiões com apoio, além dos italianos, da aviação Condor da Alemanha Nazista. Estas pessoas, precisavam de acolhida e ajuda para chegarem a Valência ou Barcelona, ainda em mãos republicanas.

Os conflitos da família com Isidro aumentaram, a ponto de ele sair de casa, ir para as montanhas e se juntar ao exército nacionalista, que vinha avançando. Problemas similares aos dos Porell, ocorriam em outros lares.

Em meados de 1938, os franquistas tomaram a região onde viviam. Muitas pessoas, envolvidas em movimentos de esquerda ou que perseguiram vizinhos com posições contrárias às suas, trataram de fugir. Houveram buscas de casa em casa. Ramon e seu pai, com muitos outros homens e jovens, foram presos. Presumidamente, seriam julgados, - o que não era muito certo - alguns soltos, e a maioria, seria condenada à morte e sumariamente fuzilada.

No terceiro dia da tomada da cidade, que a cada dia recebia mais grupos nacionalistas, chegou Isidro e seu pelotão. Foi a casa da mãe, encontrando-a desesperada pela prisão do pai e do irmão.

Tratou de ir à prisão, onde estavam, e conversou com o capitão que cuidava do assunto, dizendo quem era e argumentando:

Meu pai e meu irmão foram presos por engano.

Não foram, não. Eles acolheram muitos comunistas e os auxiliaram, dando estada, comida e ajuda na fuga respondeu o capitão.

Minha mãe, é católica fervorosa e meu pai participa das Semanas Santas. Ocorre que ficaram com pena das famílias, que eram compostas de mulheres e crianças. Atenderam ao mandamento de Cristo, de ajudar ao próximo. Fizeram-no por humanidade e não por política.

Mas teu irmão, sabemos por muitas pessoas da cidade, que está envolvido com grupos de esquerda.

Ele só tem 17 anos. O grupo com quem se reunia, nunca empreendeu nenhuma ação política. Inclusive ele, meus pais e outros, quando quiseram queimar a igreja, não permitiram.

Tem razão, soubemos por muitos depoimentos dessa atuação. Vou soltá-los em confiança a você, mas cuide deles. Ficarei de olho, principalmente no teu irmão: pode haver uma semente de pensamentos vermelhos dentro do garoto. Os dois foram soltos.

Em casa, após a alegria da mãe em recebê-los, Isidro recomendou ao seu irmão:

É melhor você ir embora. Entre meus companheiros, muitos falam a teu respeito. Há inveja entre eles, porque o Capitão me tem estima e te soltou. Dizem que você é um vermelho e ainda te pegarão.

Após uma troca de ideias, ficou acertado, que ele iria, no dia seguinte, para as ruínas abandonadas de uma antiga casa de campo, que ficava uns 6 quilômetros da cidade e aguardaria a noite para fugir. Sem seu irmão soubesse, seu pai informou a Ramon, que outras pessoas estariam se reunindo ali, para fugirem juntas. No dia seguinte, Ramon, dando a entender que ia para o campo trabalhar, dirigiu-se furtivamente para o local.

No meio da tarde, desse dia, Salustiano recebeu o recado, de um antigo companheiro, que sua mulher e dois filhos chegariam na madrugada daquele dia, e pedia que os ajudassem a fugir. No início da noite, correu para o refúgio onde estava o filho e explicou sobre essa família. Que aguardasse; assim, poderiam seguir com ele. Aproximadamente, às quatro da manhã, bateram à sua porta. Era a família que esperava. Só havia dois rapazes, com idades próximas à de seu filho Ramon.

— Onde está sua mãe? — perguntou Salustiano.

— Ela tinha problemas nas pernas e no coração, no caminho, pelo cansaço e o medo, passou mal e morreu. Iriamos nos encontrar com outro grupo, mas com o atraso do seu mal estar e de enterrá-la no meio da serra, nos atrasamos. Então, nos recomendaram vir para aqui.

Após Encarnação, lhes dar algo de comer e beber no caminho, Salustiano rapidamente os levou para se encontrar com o grupo.

— Ramon, são só os dois. A mãe morreu no caminho. Onde estão os outros?

— Pai, como conheço o caminho, foi decidido que outros fossem na frente e eu iria depois, diminuindo o número de pessoas juntas. Como o sol logo aparecerá, passaremos o dia escondidos e à noite sairemos.

No dia seguinte, ao chegar ao agrupamento, Isidro, foi chamado pelo Capitão, que estava com alguns chefes de grupos e disse-lhe:

— Seu irmão, ontem, foi trabalhar, mas recebemos a informação de que não voltou para casa à noite. Depois, soubemos por alguns depoimentos voluntários — disse rindo — que ele e outros planejam uma fuga.

Isidro sabia o que significava, depoimento voluntário, já havia participado de vários, em que por torturas obtinham informações.

Teu irmão é um comunista e você o está acobertando. Temos que ter a Pátria acima de qualquer coisa, até da família. Acima da Pátria, somente Deus. Você  tratou de o libertar para que fugisse. Não estará você envolvido na fuga de outros, também?

Meu comandante, eu sempre mostrei minha lealdade nas batalhas que lutei. Coloquei a Pátria acima de tudo, inclusive da minha vida.

Prove tua lealdade. Trate de saber onde ele e os outros possam estar, caso contrário, iremos buscar essas informação junto a teus pais.

Isidro saiu desesperado. Devido ao fato de seu irmão ser esquerdista, seus pais poderiam sofrer represálias e quem sabe torturas. Ocorreu-lhe uma ideia, como ficou combinado que seu irmão fugiria no dia anterior, diria que após algumas verificações, soube que ele e outros, estão se reunindo nas ruínas da velha casa de campo. Pensou: quando chegarem não encontrarão ninguém, ou encontrarão outras pessoas, mas haverá vestígios de que estiveram por ali.

Feito isso foi para casa, pois se sentia cansado pelos dias de batalhas e andanças na serra, somado a forte tensão envolvendo seus pais e irmão. Chegando em casa encontrou Paco, amigo de infância que pertencia ao mesmo agrupamento. Convidou-o a entrar para tomar um copo de vinho. Sentaram-se à mesa para beberem, enquanto seu pai estava por lá e perguntou pela família a Paco, que respondeu com generalidades.

Paco virou para pai de Isidro e disse-lhe:

- Dom Salustiano, colocaram teu filho na parede por causa de Ramon. Sabem que o comunista do teu filho está fugindo com outros e cobraram de Isidro para dizer onde estavam, ou viriam buscar a informação com o senhor e dona Encarnação. Teu filho acabou obtendo a informação. Serão presos nas velhas ruínas da casa de campo.

Isidro. notou na hora que seu pai ficou lívido e nervoso. Com a desculpa da necessidade de cuidar de algo, saiu. Sentindo-se preocupado e tenso, tratou de terminar a conversa e foi procurar por sua mãe na vizinha, onde veio saber que seu irmão não tinha ido embora no dia anterior, mas sim, iria naquele. Desesperado, saiu rapidamente em direção às ruínas da casa de campo, onde o pelotão já poderia ter chegado em busca do pessoal que por lá poderia estar escondido.

Ao se aproximar ouviu um tiro. Correu. Encontrou seu pai ferido no chão. E ouviu um dos soldados dizendo:

Esse velho filha da puta veio avisar os vermelhos para fugirem. Quando chegamos, estavam correndo para o campo. Pegamos ele que tentou fugir. Merece morrer.

E em frente de Isidro, que não teve tempo de intervir, meteu um tiro na cabeça do ferido.

Não, não, é meu pai.

Possesso, atirou-se contra o atirador, derrubando-o. Outros o seguraram.

Filho da puta é meu pai. Ele não é vermelho.

Para, não vem com lenga,-lenga. Ele veio avisar para fugirem. Se não fosse por ele, teríamos prendido todos.

Ramon, escondido com os dois rapazes, em uma passagem de água que ficava abaixo do nível da estrada, escutou e viu o que ocorreu. Sua reação foi levantar-se e correr para o pai. Os jovens, percebendo o que iria fazer, o seguraram. Abafando o choro, ao colocar junto a boca uma sacola de pano que levava, maldize-se por ter sido o causador da morte do pai. Chorou ódio contra o irmão que fazia parte dos assassinos. Chorou a dor que a mãe teria.

Conseguiu fugir de madrugada, indo para Barcelona e quando esta caiu nas mãos dos fascistas, se refugiou na França. Depois de um tempo, quando a França estava tomada pelos nazistas, conseguiu ir para a Inglaterra, onde vive até hoje.

Isidro, ao ver o pai ser morto, sentiu uma pontada de loucura. Fora ele que denunciaram a localização. Em uma forma de amenizar sua culpa, a transferiu para o irmão. Não fora por ele com suas ideias esquerdistas, não haveria ocorrido o que ocorreu. Por culpa de seu irmão, o pai fora morto. Se não fossem suas ideias revolucionarias, seus pensamentos liberais, e seu envolvimento com grupos contrários à guerra santa que libertava a Espanha, nada daquilo teria ocorrido.

Teve que encarar sua mãe e numa história um pouco alterada, contou a morte do pai. Encarnação, não gritou, não chorou. Entrou em um mutismo e em um olhar perdido no nada, durante semanas. Só pediu ao filho, que trouxesse o corpo do pai, para ser decentemente enterrado e não jogado numa vala comum.

No enterro não foi ninguém da cidade. Não queriam ser vistos junto a uma pessoa, mesmo que morta, estigmatizada por suas opiniões e posições. Muitas outras mortes, por fuzilamento, ocorreram nas semanas seguintes. Depois, como um véu, baixou o silêncio na cidade. Ninguém queria relembrar qualquer fato do passado e principalmente os mais recentes.

Um grande ódio cresceu no coração dos dois irmãos, que até aquele momento, por cerca de 40 anos não se comunicaram mais. Ramon mandou algumas cartas a sua mãe, que raramente respondia. Queria que ela fosse morar com ele na Inglaterra, mas ela nunca respondeu aceitando. As cartas dela relatavam coisas do dia a dia, sem nenhuma importância e em nenhum momento os sentimentos que vivia. Recebeu, somente uma vez, carta do irmão, informando em uma linha que a mãe morrera, não dizendo quando ou como.

Agora, ali estava Ramon, 40 anos depois, aguardando o irmão passar um café, no palco onde o esfrangalhar da família ocorreu. Uma foto do casamento dos pais numa moldura, em um dos cantos da sala, fez subir um nó na garganta, onde se acumulou em silêncio, com lágrimas que queriam escapar dos olhos.

— Ramon, aceita uma copita com o café?

— Sim.

Os dois tinham dificuldade de se olharem, de se falarem. Um silêncio pesado baixou no ambiente. Na cabeça de cada surgia, o que dizer, o que fazer. Ramon, que o havia procurado, resolveu começar:

— No dia da morte do pai, ele veio me avisar que você, pensando que eu já havia ido, denunciou o nosso ponto de encontro. Só que sabia que eu ainda estava por lá. Era eu e mais dois jovens. Saímos rapidamente, mas logo chegou a tropa nos procurando. Não podíamos correr pelos campos, seríamos vistos. Nos escondemos em uma passagem de água antiga, que passa a maior parte do tempo seca e encoberta de mato, um pouco abaixo da estrada. Só quem conhece sabe onde está. Acredito que você a conhecia. Daquele ponto eu tinha total visão da frente das ruínas. Vi e ouvi o que aconteceu.

Nesse momento, os olhos de Isidro se arregalaram, pareciam querer sair da órbita. Não disse nada, mas o seu rosto e sua postura mostraram estar em choque. Ramon, notou o grande conflito que começou a ocorrer dentro dele e que se notava em todo o seu ser.

— Éramos jovens e nos deixamos levar pelas emoções e posições que considerávamos corretas. As minhas, por toda a minha vida, deixaram-me tranquilas. Participei, ajudei, indiretamente lutei, mas em nenhum momento transgredi a dignidade de um ser humano. Não sei das tuas atitudes. As morais, boas ou más, estarão dentro de você e o perseguirão por toda a vida. As políticas, agora que a Espanha se abre, e que em algum momento, exporá suas feridas, a história julgará.

Isidro nada falava. Algumas gotas de suor escorriam pela sua fronte. Era palpável seu choque. O que imaginava ser somente um segredo seu, era conhecido pelo irmão. Escondera para a mãe, mentira para os vizinhos e obrigara o silêncio dos companheiros do pelotão. Naquele momento, sentimentos de vergonha, arrependimento e frustração correram pelos seus pensamentos e coração.

Retomando folego e coragem, Ramon, olhando fixamente o irmão, continuo:

Carreguei, por muito tempo, dentro de mim, ódio extremo por você, culpando-o pela morte do pai e a grande dor da mãe. Porém, o amadurecimento e o avaliar da história, estando fora, me permitiram ver, que interesses, que estavam acima dos desejos do povo, se valeram dos conflitos que haviam entre a população. Aproveitaram para dar margem de se expandirem e colocaram uns contra os outros, possibilitando em muitos momentos, que o lado bestial de muitos aflorassem.

Calou-se. O irmão com olhar para o chão, o corpo curvado pelo peso dos fatos, nada falava. Ramon, permaneceu um tempo calado, observando a mudança que se dava no outro. Sentia um grande alívio por ter conseguido dizer o que precisava, mas, ao mesmo tempo, uma tristeza, por ver alguém que por anos fora seu companheiro e a quem respeitava, por ser o mais velho, desfazendo-se à sua frente.

Venho para te dizer que te perdoo, como tratei de me perdoar. Quero morrer sem carregar este grande peso.

Isidro, continuou permanecendo quieto. Após um tempo, Ramon, não sabendo o que mais dizer, levanta e estende a mão despedindo-se.

Ao entrar no carro, pelo retrovisor, vê um homem velho e acabado. Ali estava uma pessoa a quem não conhecia mais.

Espero, poder voltar um dia e abraçá-lo pensa.

EPÍLOGO

A guerra civil espanhol dividiu o país em dois, colocando amigos, famílias, filhos e irmãos em posições contrárias. Em uma Espanha de 25 milhões de pessoas, morreram durante a guerra cerca de 500 mil, segundo números oficiais. Após a guerra, no extermínio de pessoas com posições contrárias aos vencedores, mais de 200 mil foram presas e sumariamente fuziladas. Fora as que permaneceram presas em campos de concentração ou em trabalhos forçados. Sem contar as centenas de milhares que se exilaram pelo mundo afora. A grande maioria eram jovens. Além da grande perda humana, houve a perda de potencialidade pessoal e profissional, afetando a futura recuperação do país. Ocorreram quebras significativas nas estruturas industriais, residenciais, hospitalares, nos campos e nos diversos fluxos que permitem a um país viver.

Durante anos, o país viveu medo e fome. Medo por temerem que descobrissem relações de amizade, parentesco ou mesmo de atuação em atividades no período anterior. Medo de denúncias, às vezes, por desavenças passadas ou inveja.  Houve supressão das liberdades políticas e de informação.

A fome persistiu duramente nos anos 40. O sistema de racionamento, só veio a ser desativado completamente no começo dos anos 60, ou seja, mais de 20 anos após o fim da guerra.

Quando se pede intervenção militar, o que se pede é sublevação à ordem constituída. Quem diz que todos aderirão? Podemos ter um conflito entre forças militares ou conforme a amplitude, uma guerra civil. A espanhola, usada aqui de exemplo, mostra aonde se pode chegar. Em todas as guerras, passadas e presentes, observamos que no homem, há uma besta humana, presa por uma simples tramela. Quando se solta, quanta insensatez, desumanidade, quantas atrocidades!

A história contada é real e extremada. Esperamos que não tenhamos que passar por experiências similares.

  

Nenhum comentário:

Postar um comentário