1/19/26

O LOURO

 



PRÓLOGO

Dois casais de amigos, em um passeio juntos, compraram dois papagaios que estavam sendo ofertados, ficando cada um com um. Este conto envolve fatos que ocorreram com os dois papagaios e que relatarei em um só. O dono de um deles é são paulino e em homenagem a ele, por ser um amigo querido, mantenho no conto, o louro cantando o hino do São Paulo, como realmente o fazia, mesmo eu sendo corintiano. O outro proprietário, já fez parte de um conto antigo, em que relato, o ocorrido com ele e a namorada na época, em um passeio com os sogros à praia, chamado: “De Pinto pra Fora”. Espero que vocês se divirtam com o contado a seguir.

 

O OCORRIDO

Fátima se encantou com seu papagaio. Era alegre, verde, com manchas azuis e amarelas próximas ao bico e no peito; a todo momento emitia um currupaco. Não tinha nome, era chamado carinhosamente de louro. Ela colocou a gaiola na cozinha para, enquanto trabalhava, conversar com ele.

- Louro, o nome da mamãe é Fátima. Como é o nome da mamãe? Fátima.

De tanto insistir, quando ela perguntava o nome da mamãe, lá vinha sua voz esganiçada:

-  Mamãe Fátima.

Ela gostava de músicas religiosas e ouvia muito o Padre Marcelo. Havia uma estrofe de uma das músicas que repetia constantemente, mesmo com o rádio desligado:

- Nossa Senhora me dê a mão... da minha vida.....

Não é que o danado do papagaio aprendeu a música e a cantava constantemente. Ela ria e se encantava. Os vizinhos, quando o ouviam, riam e comentavam em voz alta para a vizinha escutar, o quanto o louro era demais.

O marido chegava em casa no final do dia e ela dizia ao louro:

- O bem chegou.

Depois de um tempo quando ele chegava e o papagaio escutava sua voz, já gritava:

- O bem chegou – e grasnava seu currupaco.

Um dia para sua surpresa, ela falou:

- Veja quem chegou!

- O bem chegou, Wilson viaaado.

Eles caíram na risada. Depois vieram a descobrir que tinha sido arte de seu genro, em um fim de semana que dormiu por lá, enquanto viajavam. Agora toda vez que o bem chegava:

- O bem chegou, Wilson viaado.

O louro tinha uma facilidade em captar as palavras e os ruídos. Constantemente chamava o cachorro, imitava o seu latido, cantava pedaços de outras músicas que ouvira, chamava os filhos da Fátima pelos nomes.

Wilson, animado, resolveu ensinar o hino do seu time de futebol:

- Salve o Tricolor Paulista, Amado clube brasileiro, Tu és forte, tu és grande, Dentre os grandes, és o primeiro....

O louro aprendeu o hino, o que encheu o Wilson de orgulho, pois, a cada vinda de amigos, fazia-o cantar.

Basta dizer que o papagaio era a alegria da casa, fora que durante o dia era o seu vozerio a todo momento. Ele permanecia em uma gaiola, saindo de vez em quando. À noite, a gaiola era coberta, de forma a gerar escuridão e ele dormir, senão continuaria o palavrório.

Numa manhã de segunda-feira, em que o dia estava ensolarado, Fátima resolveu limpar a gaiola do louro. Como sempre fazia, soltou-o no pequeno gramado que havia no local, enquanto limpava a gaiola. Repentinamente, lembrou que tinha deixado uma panela no fogo. Entrou rapidamente e apagou.

Ao voltar não encontrou o louro, começou a chamá-lo e nada. Pegou uma escada e por cima do muro do vizinho da direita, chamou a ave e não tendo resposta, chamou pela vizinha e explicou o que havia ocorrido. Porém nada. Fez o mesmo com o vizinho do outro lado e o de trás.

Desesperada falou com a filha ao telefone que ficou de vir prontamente com os filhos procurar o animal. Enquanto isso Fátima saiu batendo de casa em casa perguntando se alguém o havia visto. Chamou nos vizinhos da calçada e depois aos vizinhos da rua de trás. Nem sombra do bichinho.

A filha ao chegar, ela se pôs a chorar e chorosa ligou para o marido explicando o que havia ocorrido. Ele se prontificou de sair mais cedo do trabalho e a ajudar na procura. As filhas e os netos correram as ruas, o armazém, a padaria, a manicure, o açougue as praças relativamente próximas. Muitos conheciam o papagaio pela suas algaravias, mas, não o tinham visto.

Foram três dias de busca e nada. Fátima sentia como se tivesse perdido um filho. Alguém o deve ter pego. Ele não sumiria assim. O silêncio somado a tristeza baixou na casa. Às vezes, sem querer, ela chamava ou falava com o louro, caindo, depois na realidade de que não estava.

Na sexta-feira, a caminho da feira, na rua de trás, ao passar em frente à casa da Zilda ouviu um currupaco qualquer. Tendo certeza que era ele, abriu o portão da frente, sem chamar, e começou a esmurrar o portão do corredor lateral, que era baixinho e de madeira, mas que estava emperrado e não abria. O barulho chamou a atenção da Zilda que saiu no corredor. Com voz meio falha perguntou:

- O que está acontecendo?

Vitória conseguiu abrir o portãozinho, a passou por ela empurrando-a e foi corredor a dentro. Zilda atrás gritando:

- Você não pode ir entrando assim, sem mais nem menos!

No final da casa, no quintal, havia uma edícula. Ouviu o currupaco do louro. Gritou de fora:

- Quem é a mamãe?

- Mamãe Fátima – respondeu o pássaro com sua voz esganiçada.

Com muita raiva, quase literalmente, enfiou o papagaio debaixo do braço e saiu gritando:

- Sua sem vergonha, eu vim falar contigo, pedir a tua ajuda. Você é uma ladra. Zilda você é uma ladra. 

Saiu batendo tudo. Chegando em casa ligou para o marido e a filha contando o ocorrido. Mimou o louro, cantando com ele e estimulando que falasse uma série de frases que conhecia. Cantou várias músicas do Padre Marcelo e o hino do São Paulo. A alegria voltou à casa.

Numa das manhãs, conversando com ele:

- Quem é a mamãe?

- Mamãe Fátima.

- E a Zilda o que é?

- Zilda ladrooonaaa.

Fátima riu com a resposta.

 

EPÍLOGO

Muitos perguntarão quais os fatos ocorreram com cada um dos louros e que ajuntei em um conto só.

Um dos papagaios, realmente era excepcional nas suas interações, cantando músicas, imitando sons, chamando pessoas.

O outro, mostrou-se um animal normal nos seus currupacos, também alegrando os proprietários, mas não na forma e na intensidade do outro. Este animal, foi o que desapareceu.

Como os ocorridos me foram contados há muito tempo, tomei a liberdade de ajustá-los à minha memória.


memaai