Meu nome de
registro é Carlos Eduardo, mas todos me chamam de Cadu.
Sou o melhor
amigo do Bob, dito, mais de uma vez por ele. Inclusive, no momento, dividimos o
apartamento.
Quando passamos
a morar juntos, ele vivia um grande momento de felicidade. Namorava com sua
grande paixão, a Edith, que conhecera no cursinho preparatório para o
vestibular, e que conseguira, finalmente, conquistar no segundo semestre da faculdade,
quando se reencontraram.
Ele cursava
Economia e ela, Letras. Foi quase um ano e meio de amor tórrido. Encontravam-se
todos os dias. Saíam constantemente. Viajavam.
Muitos dias
passei só no apartamento e muitas noites tive que me limitar ao meu espaço,
pois os dois se trancavam no quarto por muito tempo. De vez em quando, os
acompanhava em alguns passeios, pelo bairro e pelos parques próximos.
Apesar dele
me considerar o seu melhor amigo, ela não gostava de mim. Acabei ficando muitas
vezes de escanteio.
Repentinamente
começaram as rusgas. Ela implicava com suas decisões, quando saíam, e
constantemente queria estar com o seu grupo da faculdade. Bob não gostava,
pois, nitidamente havia um colega que dava em cima dela. Algumas vezes, tiveram
que segurá-lo para não ir para cima do dito cujo.
Este era
outro fator de discórdia. Ela alegava
que era ciúme e enquanto ele dizendo que não era, e sim uma certeza das
intenções do sujeito. Acabaram desmanchando e adivinhe com quem ela ficou logo
a seguir?
Aquilo foi
um balde de água fria. Na primeira noite saímos juntos, parou em um bar e encheu
a cara, a ponto de não saber o caminho de casa. Precisei levá-lo.
Não queria
sair. Evitava os amigos. Faltou inúmeras vezes a aula. Em seus olhos só havia dor. Era muito triste
ver meu amigo naquele estado. Com ele pude ver o efeito de um amor perdido. Por
mais que eu fizesse, não conseguia distraí-lo e alegrá-lo.
Depois de um
tempo, começou, aos poucos, a sair pelo bairro e pelo grande parque ecológico
que havia próximo de casa.
Nas
caminhadas, sempre que eu avistava uma garota que parecia se encaixar em seu
perfil, com alguma companhia que não fosse o namorado, eu me aproximava e iniciava
a conversa com o acompanhante.
Olhos
entristecidos, por vezes marejados de lágrimas, porte abatido e palavras mal
pronunciadas: era assim como se comportava. Naquele estado não sairia da
depressão, não encontraria alguém para se animar. Chegava em casa, se jogava no
sofá e ligava a televisão, mal assistindo o que passava. Eu estava ficando
desesperado.
Olha, que eu
parei para conversar inúmeras vezes. Passei a não mais olhar o tipo da menina.
Alta, baixa, gorda, magra, negra, branca, japonesa, sorridente ou cara fechada.
O que encontrava pelo caminho.
Durante um
veranico, desses que se apresentam no meio do inverno, em que as pessoas estão
cansadas dos cobertores, casacos, de não sair de casa, todos se lançam às ruas,
aos bares e aos shoppings. Observa-se no parque casais, crianças, bebês, aniversários
acontecendo, caminhadas, ginásticas, corridas, jogos, pais correndo atrás dos
filhos nos seus patinetes ou bicicletas.
A natureza
retribui com paineiras vermelhas, acácias com seu amarelo ouro, ipês, capivaras
pelas águas, garças, marrecos, a deliciosa sinfonia de pássaros e o sol. Delicioso
sol.
Em um
momento desses, estávamos em nossa costumeira caminhada, quando vi duas graciosas
meninas, uma delas atraiu o minha atenção de imediato, com seu andar delicado.
Não resisti e fui em direção a ela. Bob me acompanhou, mas, ao me aproximar,
observei que sua companheira era uma garota um pouco mais baixa que o Bob,
cabelos loiros soltos que resplandeciam ao sol, olhos castanhos e um sorriso
pendurado em um rosto esplendoroso.
Eu fui no
intuito de conversar com quem me atraiu, mas ao me aproximar, notei que o rosto
do Bob se transformou. O sorriso que há muito desaparecera de seu rosto, retornou.
Seus olhos brilharam. Ao mesmo tempo em que conversava com sua acompanhante,
Bob conversava com ela. Vim a saber, através da Céu, sua acompanhante, que se
chamava Renata.
Incrível, a
conversa se estendeu, buscaram um banco para se sentarem. O tempo passou.
Quanto, não sei, pois, me perdi em minha conversa, mas ouvia de tempo em tempo
pequenos risos e observei olhares que se encontravam.
Comecei a
ficar preocupado. Esperava que o Bob pedisse o telefone dela para se
encontrarem novamente. Após um bom tempo, ela disse que precisava ir embora e
nada do Bob pedir o telefone. Quando ela se levantou, sua voz saiu embargada e
trêmula:
- Você me dá
o seu telefone para a gente se encontrar de novo, aqui no parque?
Ufa! Ela deu,
e se foi.
Ficamos os
dois sentados debaixo da árvore.
- Cadu,
senta aqui do meu lado!
Abraçou-me
forte trazendo minha cabeça para seu ombro.
Lambi seu rosto com alegria e senti uma
felicidade infinita.
- Você é o
melhor amigo, o melhor cachorro, graças a você encontrei alguém.
Fiquei
extremamente alegre, demonstrando com meus latidos, pois, nós dois, acredito,
encontramos um amor, além de recuperar um amigo que estava perdido na tristeza.
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