03/08/2026

O MELHOR AMIGO

 



Meu nome de registro é Carlos Eduardo, mas todos me chamam de Cadu.

Sou o melhor amigo do Bob, dito, mais de uma vez por ele. Inclusive, no momento, dividimos o apartamento.

Quando passamos a morar juntos, ele vivia um grande momento de felicidade. Namorava com sua grande paixão, a Edith, que conhecera no cursinho preparatório para o vestibular, e que conseguira, finalmente, conquistar no segundo semestre da faculdade, quando se reencontraram.

Ele cursava Economia e ela, Letras. Foi quase um ano e meio de amor tórrido. Encontravam-se todos os dias. Saíam constantemente. Viajavam.

Muitos dias passei só no apartamento e muitas noites tive que me limitar ao meu espaço, pois os dois se trancavam no quarto por muito tempo. De vez em quando, os acompanhava em alguns passeios, pelo bairro e pelos parques próximos.

Apesar dele me considerar o seu melhor amigo, ela não gostava de mim. Acabei ficando muitas vezes de escanteio.

Repentinamente começaram as rusgas. Ela implicava com suas decisões, quando saíam, e constantemente queria estar com o seu grupo da faculdade. Bob não gostava, pois, nitidamente havia um colega que dava em cima dela. Algumas vezes, tiveram que segurá-lo para não ir para cima do dito cujo.

Este era outro fator de discórdia.  Ela alegava que era ciúme e enquanto ele dizendo que não era, e sim uma certeza das intenções do sujeito. Acabaram desmanchando e adivinhe com quem ela ficou logo a seguir?

Aquilo foi um balde de água fria. Na primeira noite saímos juntos, parou em um bar e encheu a cara, a ponto de não saber o caminho de casa. Precisei levá-lo.

Não queria sair. Evitava os amigos. Faltou inúmeras vezes a aula.  Em seus olhos só havia dor. Era muito triste ver meu amigo naquele estado. Com ele pude ver o efeito de um amor perdido. Por mais que eu fizesse, não conseguia distraí-lo e alegrá-lo.

Depois de um tempo, começou, aos poucos, a sair pelo bairro e pelo grande parque ecológico que havia próximo de casa.

Nas caminhadas, sempre que eu avistava uma garota que parecia se encaixar em seu perfil, com alguma companhia que não fosse o namorado, eu me aproximava e iniciava a conversa com o acompanhante.

Olhos entristecidos, por vezes marejados de lágrimas, porte abatido e palavras mal pronunciadas: era assim como se comportava. Naquele estado não sairia da depressão, não encontraria alguém para se animar. Chegava em casa, se jogava no sofá e ligava a televisão, mal assistindo o que passava. Eu estava ficando desesperado.

Olha, que eu parei para conversar inúmeras vezes. Passei a não mais olhar o tipo da menina. Alta, baixa, gorda, magra, negra, branca, japonesa, sorridente ou cara fechada. O que encontrava pelo caminho.

Durante um veranico, desses que se apresentam no meio do inverno, em que as pessoas estão cansadas dos cobertores, casacos, de não sair de casa, todos se lançam às ruas, aos bares e aos shoppings. Observa-se no parque casais, crianças, bebês, aniversários acontecendo, caminhadas, ginásticas, corridas, jogos, pais correndo atrás dos filhos nos seus patinetes ou bicicletas.

A natureza retribui com paineiras vermelhas, acácias com seu amarelo ouro, ipês, capivaras pelas águas, garças, marrecos, a deliciosa sinfonia de pássaros e o sol. Delicioso sol.

Em um momento desses, estávamos em nossa costumeira caminhada, quando vi duas graciosas meninas, uma delas atraiu o minha atenção de imediato, com seu andar delicado. Não resisti e fui em direção a ela. Bob me acompanhou, mas, ao me aproximar, observei que sua companheira era uma garota um pouco mais baixa que o Bob, cabelos loiros soltos que resplandeciam ao sol, olhos castanhos e um sorriso pendurado em um rosto esplendoroso.

Eu fui no intuito de conversar com quem me atraiu, mas ao me aproximar, notei que o rosto do Bob se transformou. O sorriso que há muito desaparecera de seu rosto, retornou. Seus olhos brilharam. Ao mesmo tempo em que conversava com sua acompanhante, Bob conversava com ela. Vim a saber, através da Céu, sua acompanhante, que se chamava Renata.

Incrível, a conversa se estendeu, buscaram um banco para se sentarem. O tempo passou. Quanto, não sei, pois, me perdi em minha conversa, mas ouvia de tempo em tempo pequenos risos e observei olhares que se encontravam.

Comecei a ficar preocupado. Esperava que o Bob pedisse o telefone dela para se encontrarem novamente. Após um bom tempo, ela disse que precisava ir embora e nada do Bob pedir o telefone. Quando ela se levantou, sua voz saiu embargada e trêmula:

- Você me dá o seu telefone para a gente se encontrar de novo, aqui no parque?

Ufa! Ela deu, e se foi.

Ficamos os dois sentados debaixo da árvore.

- Cadu, senta aqui do meu lado!

Abraçou-me forte trazendo minha cabeça para seu ombro.

 Lambi seu rosto com alegria e senti uma felicidade infinita.

- Você é o melhor amigo, o melhor cachorro, graças a você encontrei alguém.

Fiquei extremamente alegre, demonstrando com meus latidos, pois, nós dois, acredito, encontramos um amor, além de recuperar um amigo que estava perdido na tristeza.

 

 

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