quarta-feira, 5 de junho de 2013

A Sogra


 Em lembrança a Nelson Rodrigues



Sílvia e Cláudio estavam em plena lua de mel. Haviam casado há pouco.
Moravam em um aconchegante apartamento de dois quartos.
Suas noites eram “calientes”.  Os dois tinham um fogo de quatro anos de namoro em que brincaram muito, mas, nunca foram as vias de fato, pois, Sílvia queria se casar virgem.  Com 32 anos e vindo de uma família conservadora de Minas Gerais, deixou tudo menos......
Faziam amor em todos os lugares possíveis no apartamento: por cima dos móveis, no chão, na varanda. No chuveiro? Nem se fala, conseguiram abalar o Box. No elevador? Quantas vezes.
E como faziam barulho. Urravam, gemiam, se batiam. Batiam-se? Sim às vezes.
Era sexo nas mais diversas posições e formas, sem pudor e limites.
Nos domingos pela manhã acordavam pelas nove, mas, só levantavam lá pela uma.  Mortos, trôpegos, mas, satisfeitos.
Estavam no sexto mês de casamento quando um infortúnio ocorreu.  O pai de Cláudio morreu e a mãe veio morar com ele.
Sílvia não se dava bem com Dona Esperança, desde que a conheceu.
Era daquelas mães para quem o filho era sempre um bebezinho. Dava e queria dele toda a atenção. Nunca conseguiu ficar na casa da sogra numa boa. Ela sempre se intrometia entre os dois. Fazia-se de vítima com suas enxaquecas, dores ou o que fosse.
Sílvia sempre quis viver o mais longe possível da sogra. Só que a sua esperança que isso ocorresse por toda vida, foi por água abaixo.
Lá veio ela ocupar o quarto do futuro bebê.

Começou o dia a dia de convivência. Era Claudinho pra cá, Claudinho pra lá.
- A mamãe está com dores no ombro, faz massagem Claudinho.
- Claudinho, não sei como você come essa comida engordurada da tua mulher?
- A mamãe está vendo televisão. Claudinho, pega meu travesseiro no quarto.
- Claudinho, Claudinho, Claudinho.....
O pior de tudo não foi isso. Perderam a intimidade na casa. Só tinham espaço no quarto. Mas quando eles queriam ir para cama mais cedo ela dizia:
-Claudinho fica mais um pouco com a mamãe. Não quero ficar sozinha. Deita aqui no meu colo.
Silvia ia emburrada para cama e o Claudinho demorava para ir.
E na hora do rola rola, do bem bom ?
Começavam os gemidos, o balançar da cama, os palavrões...
Dona Esperança batia na parede:
- Claudinho vocês estão brigando?
Outras vezes:
- Vocês não me deixam dormir.
- Seus indecentes.
- Olha o respeito.
- Olha o barulho.
No dia seguinte ela ficava resmungando que não conseguiu dormir, que era uma pouca vergonha.
Trocaram a cama tradicional por uma cama box para reduzir o barulho. Abafavam os murmúrios com os travesseiros. Davam uma rapidinha para a velha não reclamar.
Domingo de manhã era o inferno. Às oito horas ela levantava, ia para cozinha. Fazia o café da manhã, mas batia tudo.
As nove chamava o filho, para ir à feira, como fazia com o falecido marido. Era um saco!
Dona Esperança tomava um remédio para o coração. Tinha que ser sagrado. Todo dia.
- A senhora não pode deixar de tomar nenhum dia. A senhora pode morrer – dizia o médico.
A velha se aproveitava disso.
-Claudinho não esqueça o remédio da mamãe. Você sabe que eu posso morrer. Eu esqueço. Era sempre teu pai que me lembrava.
E não é que a desgraçada sempre esquecia e o Claudinho tinha que lembrar e ir atrás.
- Mamãe o remédio.
- Daqui a pouco.
- Mamãe lembra o remédio.
-Antes de dormir eu tomo.
A velha fazia charme. E o filho tinha que ficar atrás cobrando.
Sílvia morria de raiva.
Não vamos tecer os comentários que a sogra fazia da nora para o filho, muitas vezes na sua frente.
Os dois começaram a brigar.
- Arruma um lugar para tua mãe fora daqui. Não aguento mais. – Dizia Silvia.
- Não dá. Mamãe não consegue viver sozinha. Não lembra nem dos remédios.
- Põem em um asilo.
- Não. No asilo, não. Prefiro ver mamãe morta.
As discussões se tornaram constante e o sexo inconstante, apesar do Cláudio sempre estar a fim. Era doido por sexo.
Ela também queria, mas o clima não dava.  A velha brochava até tarado.
Um dia no calor da discussão Silvia lhe disse:
- Nada mais de sexo até que sua mãe saia de casa.
- Mamãe só sai de casa morta.
- Então só faremos sexo depois dela morta.
Claudinho a procurava. Todos os dias. A todo o momento que estavam sós.
- Não só depois que sua mãe sair desta casa.
- Ela só sai morta.
Ele a abraça, a acariciava. Ela se esquivava. Queria entrar no chuveiro quando estava tomando banho, mas, ela fechava a porta.
No elevador:
- Não. Só quando tua mãe sair da nossa casa.
Nada mais de rola, rola. De nheco nheco, fuc e fuc. Nada mais de urros, gemidos, palavrões, tapas e outras “cositas” mais.
Claudinho foi mofando.
Um dia, sem mais nem menos, a velha estrebuchou, morreu.
Claudinho chorou feito uma criança. Sílvia contemplou tudo com algum alívio.
No meio do velório, de madrugada, Claudinho pediu a Sílvia irem para casa trocarem de roupa, pois estavam com a mesma desde manhã.
Mal entraram no apartamento, ele a agarrou. A beijou, enfiou a língua em sua boca. Rasgou sua blusa. Estourou o sutien. Arrancou a saia.
Ela ao mesmo tempo lhe tirava a roupa.
Fizeram sexo na sala. Em cima da mesa da cozinha. Na varanda.
- E os vizinhos?
- Que se fodam.
No chão do quarto, na cama, no sofá.
Urraram, chingaram, pularam, gemeram, bateram....
Apareceram no velório, lá pelas tantas, e cheio de olheiras.

Após a morte da velha a paz, o amor e o SEXO voltaram aquela casa.
Estavam em lua de mel novamente.
Certo dia de arrumações Silvia encontrou o vidro de remédio da sogra. Aquele que ela não podia passar um dia sem tomar e que Carlinhos tinha a todo o momento cobrar que tomasse.
Observou a data do aviamento e lembrou o dia em que a sogra morrera. Devia estar pela metade. Estava cheio!
Vários pensamentos passaram pela mente e repentinamente um sorriso aflorou em seus lábios.

Um comentário:

  1. O que não se faz pelo prazer carnal, até a mãe vai parar a sete palmos.
    Mais um ótimo conto, aguardo os próximos.

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