sexta-feira, 19 de julho de 2013

A Visita do Filho Pródigo

 


Sr. Antonio e Dona Valquíria moravam há 30 anos na mesma casa que possuíam na Vila Esperança. Eram conhecidos e conheciam todos os vizinhos.
Dona Valquíria tinha um orgulho danado do filho Toninho que havia se mudado para os “estaites” a trabalho em uma empresa de publicidade.
Nas conversas com os conhecidos falava constantemente dele. De como estava realizado e feliz morando em São Francisco.
Mostrava as fotos que enviava. Uma vista do apartamento onde se via um ladeirão e uma linda ponte ao fundo “Golden Bitch”. A visita a Disney. Fotos com o Mickey, Pateta e a Branca de Neve que desde pequeno adorava. Na praia, de bicicleta, com os amigos.
O Sr. Antonio, por sua parte, no bar, só colocava banca com o filho que trabalhava no exterior. Formara-se e logo após mudou para os Estados Unidos. Era um homem realizado nos “estaites”
Após três anos vinha visitá-los. Só falavam disso.
No sábado programado Dona Valquíria com seu melhor vestido e com o avental mais vistoso estava ansiosa.
Obrigou o Sr. Antonio, que só andava de bermuda e camiseta, a colocar uma bela camisa e uma calça comprida.
Na chegada beijos, abraços, comentários, afagos e presentes.
- Mãe, pai este é o Caíto. Também é brasileiro e nós moramos juntos.
- Que bom filho, com isso você pode dividir as despesas do apartamento - Comentou Dona Valquíria.
- Vocês trabalham juntos? – Perguntou o Sr. Antonio.
- Não pai, ele trabalha numa corretora de valores.
- Ah sei. Vocês são amigos e isso?
- É nós somos amigos. Muito  amigos.
-Que bom que você tem um brasileiro perto, não fica se sentindo tão só. – Retrucou Dona Valquíria.
- Caíto é seu nome.
- Sr. Antonio eu me chamo Carlos Arthur, mas todos me chamam de Caíto. Gosta do apelido?
- Ah, sim.
Dona Valquíria era só Toninho para todos os lados.
- Toninho eu fiz polenta com ragu como você gosta. Lá não deve ter.
-Toninho olha a televisão que nós compramos com o dinheiro que você mandou.
- Toninho tuas tias estão doidas para te ver. Eu só falo de você para elas.
Toninho, Toninho, Toninho...
- Ai Toninho, porque você não fica aqui em casa em vez de um hotel? Nos damos um jeito com o Caito. Ele pode dormir na sala.
- Mamãe, nos chegamos na quinta feira e vamos embora na terça.
- Só?
- É mamãe. Tanto eu como o Caíto temos que trabalhar. Eu queria que ele conhece-se vocês.  Quero mostrar a cidades, os museus, as festas. Estamos ficando próximo da Av. Paulista. É mais perto de tudo do que aqui da ZL.
- Tem razão Toninho. Agora vou pegar a sobremesa que você gosta, ambrosia.
- Oh mamãe. Eu já falei tanto desse doce pro Caíto que ele está doido para provar.
- Dona Valquíria vou lhe ajudar a tirar a mesa. – Manifestou Caíto.
- Não, nada disso. Você é visita. Antonio me ajude!
Na cozinha colocando os pratos na pia Sr. Antonio cutuca a mulher.
- Você não achou esse Caíto estranho, todo arrumadinho com uma pele estranha?
- Implicação tua Antonio.
- Os dois estão cheios de pulseira e usando anéis iguais.
- E daí? Você sabe que o Toninho sempre gostou dessas coisas. Vê se você é mais amistoso. Está muito quieto
Antes da sobremesa o Caíto teve que ver um rol de fotos do Toninho. Pequenininho, pelado, na primeira comunhão, no carnaval fantasiado de tirolês, com amigos quando jovem.
A cada foto uma manifestação de admiração de Caíto e um riso meio desconcertado do Toninho.
- Para mãe.
Comeram a sobremesa, café e o famoso licor de Jabuticaba da Tia Cocota.
Despedidas, beijos, abraços e algumas lágrimas.
- Vê se come meu filho, você está muito magro.

No dia seguinte, domingo, Dona Valquíria fez a tradicional macarronada a bolonhesa com porpeta.
Depois do almoço sentaram os dois no sofá na frente da TV.
Ele de óculos fazendo palavras cruzadas, dormindo e roncando de vez em quando. Largadão na sua bermuda e camiseta de português babada de molho.
Dona Valquíria fazendo tricô com um olho na televisão.
Chamada do Programa do Faustão:
“Dona Maria, a senhora que esta aí no sofá, com o maridão do lado, roncando, com a camisa toda babada de molho da macarronada (como adivinhou?). As coisas todas soltas dentro do pijama. Prepare-se que daqui a pouco vamos ter a Dança dos Famosos. Agora um flash direto de São Paulo com nossa repórter Lucy Silveira que esta acompanhando ao vivo a famosa Parada Gay”.
A imagem mostrava uma grande multidão colorida, repleta de bandeiras com arco-íris. Vários trios elétricos.
A imagem se aproximou de um dos trios.
Dona Valquíria viu o Toninho em cima de um deles vestido de Tirolês, como quando em criança, com um shortinho enfiado no rabo e com a bunda de fora. Rebolava para o público que o aplaudia. E ao lado Caíto com um corpete dourado e um penacho rosa choque na cabeça e dançando.
Dona Valquíria começou a gritar:
- Antonio, veja Antonio! Ai meu Deus! Antonio, Antonio, veja!
Sr. Antonio baixou as palavras cruzadas e olhou por cima dos óculos. Ficou boquiaberto. Deixou cair o cigarro que tinha entre os lábios no sofá.
- Antonio, meu Deus! Antonio veja isso!
Falava cada vez mais alto e chorava.
-Antonio, meu Deus! Antonio!

Um comentário:

  1. Acho que já ta começando a colocar as paranoias de Nelson Rodrigues nos personagens rs.

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