quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O Feio

Ele era feio.
Olhava-se no espelho e lembrava da mãe:
- Você tem olhos lindo, belas sobrancelhas, uma bela boca.
Sabia disso, só que o conjunto não agradava.
Desde pequeno fora perseguido pela sua feiúra.
Tinha uma grande vantagem. Era inteligente.
Começou a se valer disso para ser aceito pelo grupo.
Era bom nas matérias.  Problemas com matemática:
- Chama o Pedro.
História, química, português:
- Chama o Pedro.
Gostava de ler.  Tinha poesias na ponta da língua. Acontecimentos.
Ajudava os amigos com as redações.
No grupo era o Nerd, mas se fazia aceito.
Na faculdade, o grupo manteve-se, mais ou menos o mesmo.
As meninas lindas ficavam com os garotões. 
Elas o tomavam como confidente. Sempre tinha um conselho, uma palavra, uma frase, um poema.
Por dentro morria. Apaixonou-se inúmeras vezes, mas, matava o amor lentamente dentro de si.
Era inibido com as mulheres para expressar os seus sentimentos.
Os garotões ficavam, pegavam. Falavam dos beijos, dos abraços, do sexo, do gozo.
Ele nada nem um beijo roubado. Sexo? Pago.
Sempre tinha uma piada para contar, um fato novo para relatar e assim, garantir seu espaço no grupo.
Em um dos dias, uma das garotas, contou que esteve em sua terapeuta, mas ficou muito puta, pois, ela dava mais razões ao seu namorado, nos problemas que apresentava, do que a ela.
- Apesar de mulher ela é machista. Acredito que seja sapata.
Pedro pensou:
- Talvez valha a pena procurá-la. Quem sabe uma mulher com visão machista poderia me ajudar com as mulheres.
Lá foi.
- Pode entrar, esta é a Dra. Júlia.
Ficou branco, lívido, perdeu a fala. Era um mulherão. Linda, olhos radiantes, um sorriso cativante, um falar firme, mas agradável.
- Pois não, em que posso lhe ajudar ?
- Você é muito bonita e jovem. Gaguejou.
- Obrigado pelo elogio, mas vejo pela tua ficha que tenho alguns anos a mais que você. Diga o que lhe traz aqui?
Com dificuldade e muita inibição contou da suas dificuldades de relacionamento com as pessoas.
Só após várias consultas conseguiu falar do seu trauma. Das dificuldades com as mulheres, principalmente, as bonitas.
Ela lhe disse:
- A maioria das mulheres quer ser tratadas como uma dama. Gostam de gentilezas, atenções.   Não querem em volta de si somente homens que tenham beleza, mas, nada de válido dentro de si.
Pode notar, em torno delas só tem bajuladores de sua beleza ou envaidecidos com a própria.  Acreditam que somente isso basta.
Muitas mulheres vão para a cama pelo sexo. Mas, se derretem quando encontram um homem romântico, que as faz pensar que aquela é a noite dos seus sonhos. Que lhes permite imaginar estar com o homem das suas vidas.
Você é um cara culto, sensível. Curte o belo.
Desenvolva uma conversa agradável, interessante.
Experimente. Vá a uma festa e veja onde estão as mulheres mais bonitas. Note as que não estão com os namorados. Que se mostram entediadas com a conversa ou mantém um sorriso de mera participação, mas, não de interesse.
Não desista na primeira. Você vai encontrar o tom e a forma adequada.
Novas sessões se seguiram.
Falava das furadas, dos foras.
- Não desista.
Contava que incentivava os amigos para irem a museus, peças, filmes.
Tentava desenvolver conversas interessantes para que alguma mulher do grupo interessa-se por ele. Mas nada.
A terapeuta se empolgava com seus interesses culturais mas, lhe disse:
- Não adianta. O pessoal do teu grupo, que te conhece há tanto tempo, não consegue te ver diferente. Procure novos grupos, novos lugares.
Assim o fez. Começou a ter sucesso. Passou a sair com um novo pessoal, onde se interessavam pelo que falava, por suas idéias.
Passou a sair com uma, com outra. Era o cara legal que tinha boa conversa e bons programas.
A terapeuta se empolgou com seu sucesso. Ficava encantada com seus programas, seus interesses. Chegavam a discutir livros, filmes, peças, as exposições que visitava e levava as garotas.
- Vou assistir Gypsy na próxima semana. Contou.
- Nossa é uma peça que estou com vontade de assistir.
- Ora é uma boa. Vamos assistir juntos ?
- Tudo bem.
Passou a ser conhecido, por onde andava, como o pegador.
Seus antigos amigos se admiravam como conseguia as mulheres que conseguia.
No novo grupo, mulheres suspiravam com suas palavras, seus versos, suas idéias, seus galanteios e cuidados.
De repente, ficou um tempo desaparecido. Um perguntava ao outro se o tinham visto.
- Falei com ele por telefone. Disse que começou um novo trabalho e tem viajado.
Passaram-se uns três meses, quando alguém apareceu com a grande notícia. Tinha encontrado o Pedro e estava noivo.
Era uma mulher mais velha que ele e que viria aquela noite, para conhecer a turma.
No grupo novo algumas suspiraram de tristeza. O pessoal comentou:
- Ele é boa gente, merece.
A turma velha começou a rir.
- Deve ser uma baranga. Uma coroa. Qual a mulher que vai querer casar com um cara feio como ele? Deve ser uma mocréia.  
Eis que chega o Pedro. Alguns comentários. Todos param para observar. Vem acompanhado de um mulherão.
Acena para os velhos amigos e se senta com os novos, onde a apresenta.
Os dois eram só beijos, sorrisos, dançar colado, brilho nos olhos, sussurrar de palavras.
Comentam:
- Caramba, o cara é mesmo pegador! Que gata!
Uma das meninas vem com a grande descoberta.
- Dizem que era a antiga terapeuta dele.

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