terça-feira, 24 de novembro de 2015

Sexta Feira da Paixão


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Estava no coro de onde podia observar toda a igreja.
As luzes, na sua maioria, estavam apagadas. As imagens nos altares cobertas com tecido roxo.
Desde a quinta feira houvera vigília. Até as nove horas da noite as mulheres, depois os homens.
Pais, filhos, amigos, todos apareciam.  Os que não se viam há muito tempo se reencontravam.  Outros marcavam para se verem.
A noite era passada a café, bolo e bolacha. Uma pinguinha escondida sempre havia.
Jogavam dominó, cartas e ping-pong.
Cada um escolhia o horário da sua vigília, por um período de uma hora, quando oravam e cantavam aos pés do altar. É um dos poucos dias que a maioria dos homens vai à igreja.
Naquele momento ele observa o movimento de preparação para a procissão do Senhor Morto.
Durante o dia inteiro houvera visitações para uma pequena vigília, orações, tocarem o corpo do Senhor e se benzerem.
Ele gostava  daquele clima de resguardo e oração. Adorava o burburinho.
As beatas do Sagrado Coração de Jesus com seus cânticos esganiçados e seus véus negros e fitas vermelhas
As Filhas de Maria com as mantilhas brancas e suas fitas da mesma cor.
Os Congregados Marianos com as suas azuis clara sobre os ternos e se cumprimentando quando se encontravam:
- Salve Maria.
Gostava do incenso, do soar da campainha no momento da consagração, do ajoelhar e levantar durante a missa, da participação.
Desde pequeno vivera na Igreja. No catecismo, coroinha, nas novenas, nos terços.
Aquele era o seu mundo.
Agora, seus pais queriam se mudar para uma cidade maior para que ele tivesse novas oportunidades, estudos. Não adiantaram suas argumentações. Iriam se mudar e pronto.
Será o fim de sua vida, de tudo que gosta. Da cidade, onde em cada canto há uma lembrança. Das pessoas que conhece há longa data, dos ex-alunos do catecismo, das beatas e dos Vicentinos, que sempre contaram com sua ajuda.
Esta Sexta Feira Santa é especial, será a sua Sexta Feira da Paixão. A última na cidade
As pessoas começam a se preparar para a saída do Senhor Morto e a procissão que se formará logo a seguir.
Subiu do coro pela velha escada de madeira até o campanário. Lá do alto, pendurado, descortina a cidade a sua volta e a saída da Igreja aos seus pés.
As casas mantendo as luzes apagadas, flores, colchas e velas nos balcões, janelas e portas.
O povo nas calçadas, com as velas acessas, aguardando a passagem da procissão para depois se incorporarem.
É maravilhoso, parece um colar de luzes.
No céu a lua cheia banha tudo com sua brancura. Poucas nuvens com seus contornos bem marcados pelo luar dando um toque nostálgico.
O calçamento das ruas parecem  compostos de placas de prata, assim como, o telhado dos casarios.
Naquele instante, um pássaro cruza o céu riscando ao meio a circunferência da lua.
Observa que a procissão começa a sair da Igreja.
A matraca a frente, como que pedindo passagem e silencio, em substituição aos sinos, que se manterão calados até o sábado de aleluia.
Logo a seguir a Verônica com o rosto do Senhor, marcado de espinhos e manchado de sangue, impresso no linho, utilizado para enxuga-lo, quando da subida ao Calvário e entoando de tempo em tempo o seu canto de lamentação.   
As crianças vestidas de anjinhos, os judeus com seus capuzes brancos cobrindo os rostos, mantos, tochas, lanças e o rufar dos tambores.
A imagem de Nossa Senhora ajoelhada rezando e com uma espada transpassada no coração, simbolizando a grande dor da mãe na morte do Filho. O seu andor carregado e acompanhado pelas Filhas de Maria.
Ao lado da porta da Igreja já postada e tocando a marcha fúnebre a banda da cidade. Toda de uniforme azul claro, galardões dourados nos ombros e quepe com o símbolo da lira. O maestro, o trompete, o bombardino, a tuba e o repique.
Os Congregados Marianos começam a interditar o pequeno trânsito das ruas.
O pároco e seus auxiliares, todos paramentados de roxo, principiam a  procissão
O corpo do Senhor começa a sair da igreja. Seu andor é carregado por homens, que se revezarão, e logo será protegido por um pálio roxo e dourado a ser sustentado pelos Vicentinos.
Em seu peito o coração fica pequeno pelo sentimento de perda de tudo aquilo. Uma grande dor toma seu corpo, assim como, uma sensação de asfixia.
De repente a dor cessa e se sente leve, voando. Observa e sente o burburinho, os cânticos e o odor do incenso e das velas.
Flutua. Será a emoção?
A lua pinta com sua brancura a paisagem.
Em seu voo ouve a matraca, o rufar dos tambores, a lamúria da Verônica, a banda.  Vê os anjinhos, as Filhas de Maria, os Judeus, as pessoas na calçada com as velas, a procissão.
Avista do alto cada recanto da sua cidade, os prados e montanhas.  O rio que  circunscreve a povoação parecendo uma cobra prateada dormitando ao luar.
Vê sua Igreja, linda com sua cruz e campanário no alto da cidade.
Nota que é ele quem risca a circunferência da lua ao meio.

Aquela é a sua Sexta Feira da Paixão.

No dia seguinte foi encontrado sem vida no campanário da Igreja. Braços abertos como num voo e um sorriso nos lábios.

Seu corpo foi velado no Sábado de Aleluia.

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