terça-feira, 1 de março de 2011

Encontrei o Meu Verdadeiro Eu

Tenho a dizer aos meus familiares, amigos e a toda a sociedade, que finalmente encontrei o meu verdadeiro eu.  Descobri a razão da angustia que me amargurou a vida inteira.
Não posso deixar de manifestar meus sentimentos para preservar minha mulher e meus filhos. Tenho mais de trinta anos de casado, portanto, minha mulher entenderá as minhas razões.  Meus filhos possuem idade suficiente para discernir o que é a vida.
Sei que será um choque para todos a minha revelação, mas, não posso continuar com a dor que me aflige a alma.

Não, não.  Não é isso que vocês estão pensando.
Não vou sair do armário. Essa seara não é a minha, apesar, de não ter nada com a preferência dos outros.  Cada um dá o que é seu ou como diz minha mulher: cada um c’u seu.
A grande revelação a encontrei, quando lendo uma revista semanal, soube que por variações no eixo da terra, somada a ribimboca da parafuseta, etc e tal, houve uma mudança nos signos austrais.
Eu que era aquariano agora sou capricorniano.
Vivi minha vida toda debaixo da égide de Aquários.

Sempre tratei de moldar meu comportamento ao de um aquariano.
Estar à frente do seu tempo, ser livre, espontâneo.  Buscar a união de todos, ser racional, fraternal, visionário.                                                                                                  
Isto sempre me trouxe um grande peso, pois, não era assim como interiormente me sentia. Foi um grande alívio, um grande encontro comigo mesmo, pois, o capricorniano é sóbrio, silencioso, trabalha com seriedade. É um ser persistente, melancólico, como eu sou.
Tão logo li este artigo, procurei meu amigo Ubaldo, aquariano como eu, e fervoroso seguidor dos horóscopos. Não saí de casa sem ler o que diz o Quiroga em sua coluna no Estadão.  Todo início do ano compra as principais revistas com previsões para o ano – Claudia, Contigo, Nova.  Compra, também, várias revistas mensais a respeito.  É o meu guru para o assunto.
Quando lhe dei a informação, sua cara se transformou em uma grotesca careta. Olhos esbugalhados, boca retorcida e escancarada.  Pensei que estava tendo um troço.    Tive que chacoalhá-lo e chamar inúmeras vezes.                                                        Abobado, me disse que não era possível. O que seria de sua vida, pois,  havia perdido o seu referencial.
- Casei com minha mulher por ela pertencer ao signo que se compatibiliza com o meu.  Agora nem sei mais qual é o dela.  Será que casei com a mulher certa ou terão sido 25 anos de um casamento sem condição de dar certo?  O que faço com minhas Bodas de Prata?
E meus filhos quem são eles. Virgem, gêmeos, o que? O que serão quando crescerem?
- Ubaldo, eles tem mais de 20 anos. Estão formados. Pouco importa os signos.
Tratei de ir embora enquanto ele se estatelava em um sofá próximo, prostrado, murmurando palavras e uma série de palavrões, pois, não queria perder a alegria da minha nova personalidade.
Sai pensando: como é a vida. Quando algo de bom acontece a alguém, o quanto de ruim, o mesmo fato, pode ser para outro.

NB: Caso queira ler o artigo em questão: Veja - edição 2201 - Ano 44 - nr. 4 - 26.01.11

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