quarta-feira, 1 de junho de 2011

Calafrios

O suor escorria do seu rosto. Suas mãos estavam úmidas. Seu coração disparado.
Vira um vulto de um menino em seu quarto.  Não era a primeira vez que passava por isso.
Não tinha coragem de gritar. Aguardou um tempo, se escondendo debaixo das cobertas e de repente correu em direção ao quarto dos pais, levando travesseiro e cobertor e deitando-se e dormindo na beira da porta, no corredor, onde a luz estava acesa.
No dia seguinte seus pais, novamente, conversaram com ela. Havia necessidade de se fazer algo.  Não podia viver daquela forma, pois, eram constantes visões que a atemorizavam.
Ela tinha dezessete anos e já havia estado em psiquiatra, mesa branca e outras tentativas, porém, as visões não desapareciam.  Tinha medo de ficar sozinha em casa. Só dormia com a luz acesa.
Em uma das noites, antes de dormir, foi tomar um copo de água na cozinha.  Ia temerosa pelo corredor quando ao passar pela sala viu um índio sentado no sofá.  Vestia um cocar, colares e uma bata branca. Correu apavorada para o quarto.
Na noite seguinte, pé ante pé, foi até a sala para verificar se o índio estava por lá. O coração acelerado. Sentia tremor no corpo. No final do corredor à direita era a sala, à esquerda a porta da cozinha. Aproximou-se. Estava sem coragem para olhar. Ouvia seu coração batendo. Olhou. Lá estava. Sentado, impávido, olhando fixo para a parede a sua frente.
Lentamente ele voltou o rosto e a olhou. Isto a aterrorizou. Depois, voltou a fixar o olhar na parede. Apavorada ela entrou na cozinha. Bebeu água, rezou, se acalmou, tomou coragem e saiu correndo. Ele não estava mais.
Acabou se acostumando. Passou a vê-lo noites seguida.
Procuraram o padre de sua paróquia. Rezou com ela, a abençoou e recomendou para não se comunicar com o índio, pois, não sabia se seria um espírito bom ou ruim. Informou que iria procurar um padre exorcista para lhes indicar.
Certa ocasião seus pais iriam passar a noite fora. Por medo foi dormir em casa de uma amiga.  Seu irmão mais novo, que achava aquilo tudo uma besteira, imaginação dela, resolveu ficar em casa.  Chamara seu amigo Roberto, que morava no mesmo prédio, para jogar game.
Por comodidade resolveu jogar na TV do quarto da irmã, onde poderia fazê-lo deitado.
Pipoca, refrigerante e se acomodou na cama da irmã, deixando a porta da frente do apartamento aberta, para o amigo entrar.
No vai e vem do jogo, acabou adormecendo. Nesse estado de dormência, nota ao seu lado a figura de um menino e um cão. Pensa que seja seu cão e seu amigo, e resmunga:
- Senta e joga, enquanto durmo um pouco.
Depois de um tempo, nota que o menino continua em pé, próximo dele.
- Já te falei para jogar.
De repente se dá conta que o cachorro não é o seu e a pessoa menor que seu amigo. De um pulo levanta da cama.  Está suando, apavorado. Não há ninguém no quarto.
Corre para a sala. Seu cão está deitado, a porta da frente continua aberta. Seu amigo não viera.
Tremendo liga pelo telefone da sala para seus pais e explica o que houve.
- Sai daí filho, vai para a casa do Roberto, que depois te pegamos.
No dia seguinte, sua mãe, resolve levantar todos os móveis do quarto da filha , dar uma boa limpeza, mudar a disposição e modificar a decoração.
Qual não foi a surpresa ao levantar o colchão. Havia cortes na parte de baixo, como se foram feitos por faca.  Aquilo deixou a todos abalados. 
- Vou jogar fora já e ligar para seu pai para que compre um novo.
Voltaram a procurar o padre. Acabou lhes recomendando um velho padre japonês que era exorcista. Foram conversar com ele.
O padre rezou com eles, os benzeu e pediu que viessem na missa do dia seguinte cedo, que seria celebrada por ele.
- Durante a cerimônia, sinta o que você sentir, não sai da igreja. Fique até o final. – disse a Paula o velho padre.
Aquela noite dormiu com os pais, temerosa do que pudesse acontecer. No dia seguinte durante a missa começou a suar frio e a se sentir mal, enjoada.  Mal conseguia manter-se sentada. Precisou se apoiar no pai.
Ao final da cerimônia foram conversar com o padre que indicou algumas rezas. Novamente os abençoou.
Ao voltarem para casa, a empregada diz a sua mãe:
- A senhora vai jogar fora o colchão que está no corredor? O lado de cima está muito bom. O do meu filho está muito ruim e não tenho como comprar um novo. A senhora não me daria o colchão? Meu marido trabalha aqui perto e pode vir no carro de um amigo, hoje à tarde, e levar.
Teve receio de dá-lo por causa da maldição, mas, acabou concordando.
Paula permaneceu um bom tempo sem as visões. Sentia-se calma e a esquecer o que ocorrera, até que em uma noite, assistindo a um vídeo com seu namorado, viu a figura de um menino em uniforme escolar lhe pedindo ajuda. Gritou assustada. Seu namorado nada vira.
Contou o fato a seus pais. Sua mãe acreditava que poderia ser seu irmão que morrera novo.
- Ore por ele. Deve esta precisando de ajuda.
Passou a fazê-lo, pensando em acalmar o espírito e a si própria.
- Dna. Lurdes, seu colchão foi um presentão. Meu filho agradece – disse Marilma, a empregada.
Novamente as coisas se acalmam. Passado pouco mais de duas semanas, o telefone toca. Era para Marilma.
Atende e ao ouvir as notícias seu rosto fica petrificado. As faces perdem a cor. Ele larga o telefone e deixasse cair em uma cadeira.
Paula e sua mãe correm para socorrê-la.
- O que foi?
- Meu filho morreu.
- Como?
- Ele nada muito bem, mas, morreu afogado em uma represa perto de casa.
Na cabeça de Paula e de sua mãe passou a idéia da maldição do colchão.
Pensaram:
- Não deveríamos ter dado. Deveríamos ter alertado da maldição.
As duas ficaram abaladas por um bom tempo e até hoje se lembram do fato.
Na conversa de Paula com a empregada sobre a morte do filho, esta lhe e mostra uma foto dele com uniforme escolar.
Paula emudece, sente um calafrio pelo corpo. Quase desmaia. A imagem do menino era a do garoto que vira em sua visão vestido um uniforme e pedido ajuda. 
Liga para seu pai:
- Pai o filho da Marilma morreu. Lembra da visão que tive de um menino em uniforme escolar?  Era o filho dela! Eu o reconheci em uma foto.  Vem cá, temos que ajudá-la. Era o pedido dele.
Seu pai acabou cuidando do enterro, pagando todas as despesas e a ajudando Marilma financeiramente.
Um bom tempo se passou e o seu namoro caminhou para casamento. As visões pararam.
Na véspera do matrimônio, Décio, um grande amigo de infância dela morreu de forma trágica. Fora assaltado quando chegava em casa e assassinado. Foi um grande trauma.
Paula passou a incluí-lo em suas orações.
Várias semanas após, passeando com seu cachorro pela rua, este se voltou e começou a latir. Olhou para trás não havia nada. Continuou a andar, mas o cachorro insistia em se volta e a latir. Ela o puxava, mas, não adiantava. Parou novamente, olhou para trás. Levou um choque. Era Décio, seu amigo, que fora morto na véspera do seu casamento. Ele lhe diz:
- Pode parar de orar por mim. Eu já estou bem.
Este fato foi importante em sua vida. Trouxe-lhe paz. Passou a ter certeza que suas orações tinham força para ajudar os que necessitavam. Não teve mais visões.
Esta estória é verídica. Foi-me contada pela própria Paula. Conheço a família e o padre seu amigo, que já morreu. Hoje Paula é espírita.
OBS.: Os nomes foram trocados para impossibilitar a identificação.

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