quarta-feira, 22 de junho de 2011

Encontro

Olha-se no espelho grande do quarto. Acha-se bonita. Vestido rodado cinza, com renda na gola, nos punhos e na bainha. Camisa branca. Sapato alto, não muito, pois a idade não permite. Meias levemente escuras. Está com 71 anos. O cabelo tingido está arrumado. No espelho do banheiro se olhou mais de uma vez. O batom vermelho que ele gosta. Ruge no rosto e um pouco de perfume. As unhas da mesma cor.
Despediu-se da filha e foi esperar o ônibus no ponto há cinco quadras da casa.
Desceu em frente ao Parque da Água Branca. São 12,15h. O encontro está marcado para as 12,30 h. no parque.
Lá está ele! Como sempre, chega antes. Belmiro, com seus 81 anos está magnífico com seu terno marrom claro, sua camisa roxa, com a gravata com um roxo mais forte. Seu sapato marrom impecável. Possui lindos cabelos e bigode brancos. Adora usar chapéu panamá. É magro, com uma pequena barriga ao contrário dela que é mais cheia com seios fartos.
Ele é chamado por todos de Doutor por ter sido protético e entender de pontes e dentaduras. Assunto bastante usual no meio dos amigos e do qual ele discorre com grande empolgação.
Dão um abraço e um beijo tímidos. Ele insiste num beijo mais quente
- Belmiro, não! Você sabe que eu tenho vergonha na frente dos outros. Na nossa idade não fica bem.
- Conceição, não temos mais idade pra vergonha.
Namoram há mais de um ano. Todos os sábado, sem encontram no parque, e vão ao baile da terceira idade, onde se conheceram.
Mãos dadas, passeiam pelo parque. Encontram um banco à sombra para conversar.
Desejam viver juntos, mas Conceição mora com a filha mais nova e cuida dos seus filhos, enquanto ela e o marido trabalham.
Belmiro é aposentado. Seu filho, a mulher e duas crianças moram na parte da frente de sua casa. Ele construiu um quarto, cozinha e banheiro nos fundos, onde mora.
Seu filho ganha muito pouco; a mulher doente dos pulmões não trabalha. Belmiro os ajuda com sua aposentadoria.
Com esta situação os dois não conseguem estruturar suas vidas para morarem juntos.
Vivem se encontrando aos sábados no baile do parque.  De vez em quando, aos domingos e feriados.  Conceição tem dificuldade com o dinheiro para a condução. Tem que pedir a filha. Belmiro várias vezes lhe deu algum, a contragosto dela, para que pudessem se encontrar.
Tendo o canto dos pássaros como fundo, a sombra de uma árvore e pouco sem importando com os passantes, os dois conversam, de mãos dadas, dos acontecidos durante a semana inclusive as suas intimidades.  
- Conceição, quero viver o resto da minha vida contigo.
- Belmiro, eu falei pra minha filha de você.  Ela me chamou de louca. Disse que se alguém está interessado em mim, na minha idade, é porque não deve prestar.  Perguntou como ela faria com os filhos sem a minha ajuda.
- Eles só pensam neles. – respondeu Belmiro.  Eu também conversei com meu filho e ele veio com a estória que mais uma boca para comer seria ruim.  Tive que lhe chamar a atenção. Vivem na minha casa, ainda ajudo com minha aposentadoria.  Eu tenho como me sustentar e sustentar mais uma pessoa.  Quem não consegue é ele.
- Belmiro, não tenho coragem de deixar a minha filha.
Uma nuvem de tristeza baixou sobre os olhos dos dois.
Foram para o baile. Bailão do bão. Música ao vivo e variada: forró, xaxado, salsa, foxtrot, bolero, valsa e muito mais.
A Carminda estava com o marido, como sempre. E como sempre algumas mulheres vinham lhe pagar para poderem dançar com o Cantídio.
Belmiro e ela acham aquilo um absurdo, mas o pessoal diz que isso é normal nos bailes.
Belmiro, educadamente, de vez em quando pede licença para Conceição e tira alguma das amigas, principalmente as que dançam bem algum dos ritmos.
A conversa com os amigos versa em torno das dores, dos tratamentos, dos filhos, das dificuldades. As lembranças do passado é tema recorrente. As mulheres tratam de elogiar as roupas, que naturalmente em nada atendem a moda do momento. As mais saídas recebem comentários não muito elogiosos.
Passam a tarde. Quando podem, no início da noite, vão sozinhos ou com amigos a alguma pizzaria próxima. 
Mais tarde, a despedida se faz com um beijo mais caloroso, alguns afagos em seu corpo, que lhe reacende sensações antigas.
Conceição, quando vai no ônibus, uma grande dor toma o seu coração. Tem vontade de chorar.  A vida toda dedicada aos filhos e ao marido. Viriato, seu primeiro e único amor, até aquele momento.
Pensa nele e pede desculpas por ter encontrado alguém para gostar. Ele nunca será substituído. Lembra do seu calor na cama. Tiveram cinco filhos. Enquanto vivo trabalhou duro em obras, como jardineiro de cemitério ou segurança. O que aparecia.
Nos finais de semana bebia até cair como um gambá.  Várias vezes, teve que buscá-lo na rua, até os meninos ficarem maiores e eles irem. Quantos banhos, quantas sopas para curar a ressaca. Mas, era o homem da sua vida.
Uma vez lhe perguntaram se trocaria a vida de seus filhos pela dele, que já se fora. Respondeu rápido:
- Nooosa na hora!
Depois pensou:
- Virgem que sacrilégio. Mas é o que sinto.
Dele sempre teve amor. Dos filhos dor de cabeça.
E pensando no marido o peso aumenta no peito e uma lágrima corre pelo canto dos olhos. Sempre desejou viver e morrer sossegada ao lado de alguém que lhe queira bem. Agora tem essa possibilidade mas, a vida não lhe deixa.
Belmiro, por seu lado, na viagem de volta vai com os olhos fixos no vidro, mas, nada vendo. Seus pensamentos se perdem nas dores de não poder viver com a mulher que ama.
Lembra-se com saudade da sua Domitília, por quem tinha verdadeira paixão. Tem presente a grande dor de encontrá-la morta ao seu lado, na cama, em uma manhã.
Sente falta dos cuidados que tinha com ele – a comida que gostava, a roupa da forma que lhe agradava, os afagos.
Sentavam-se juntos vendo televisão. As conversas sobre os filhos e os amigos. Visita aos parentes e aos amigos.
Gostava de cuidar dela, ser seu arrimo.
Ela vivia dizendo:
- Se eu morrer, procure outra mulher. Você não foi feito para viver sozinho.
Como é verdade. Sente falta de uma companheira. É um solitário no meio da família do filho, que pouco lhe dá atenção.
Agora tem uma companheira mas, a vida não os permitem ficar juntos.
O que fazer ?


INFORMAÇÕES:

Parque da Água Branca (Dr. Fernando Costa) - fica na Av. Francisco Matarazzo, 455 - Água Branca - São Paulo
Local bem arborizado e apropriado para passeios com a família, principalmente, as crianças.
Possui aquário, museu geológico - com áreas para minerais e dinossauros, apiário, feira de produtos orgânicos (às terças e sábados), parquinho para brincar e apresentações culturais. Há local para piquenique.
O parque abriga o FUSSEP - Fundo de Solidariedade voltado para a terceira idade, onde são administrados cursos de aquarela, bordado, pintura, ikebana, coral, violão, teatro e muito mais.
Aos sábados à tarde acontece o Baile da Terceira Idade

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