segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Aposentadoria



A tão sonhada aposentadoria chegou.
Dormir até tarde, caminhada, dia ou outro academia, ler os jornais, livros, revistas, sudoku, palavras cruzadas.
Cochilada após o almoço, cinema com a mulher, passeios, aula de dança, museus, teatros.
Liberdade! Não ter horário, fazer o que quiser. Até um almoço alguns dias da semana com os amigos. Nada de preocupações.
Para começar 30 dias de férias na Europa. Viagem preparada, organizada, economizada durante anos. Foi maravilhoso!
Primeiros dias em casa. Roteiro como planejado.
De repente, começa:
- Bem, vem cá. Pega essa tigela que está na prateleira de cima, não alcanço.
Durante o sudoku.
- Amor, leva o lixo para fora.
Depois do cochilo pós o almoço:
- A tua filha pediu, já que você está com tempo, pegar o Paulinho e levar no dentista.
Na volta:
- Querida, vamos ao cinema hoje à noite?
- Ah não, estou cansada. Você não fez nada o dia inteiro.
Dia seguinte, levanto, tomo café, vou caminhar:
- Bem, na volta da caminhada, você não quer passar no mercado e pegar algumas coisas?
- Nossa! Como você demorou! Dá uma olhada no liquidificador que não quer funcionar.
O tempo passa, todo dia, toda hora, algo para fazer.
Compromissos, com neto, filha, mulher.
- Vou ao médico amanhã, me leva? Você sabe que não gosto de dirigir.
- Pega o vestido que deixei para arrumar.
- Pai, o Julinho está fazendo natação 2ª,4ª e 6ª feiras às 16,00 horas. Você não pode levar e trazer?
Passei a ter horários a serem cumpridos.
Quando me delongava:
- Nossa! Como você demorou. Estou precisando de você.
De repente, eu era o rei dos horários, das rotinas, dos compromissos.
Pensava, passei a vida inteira mandando agora sou mandado. Virei um motorista de luxo.
Aquilo começou a me amofinar, já não era o mesmo, não tinha alegria.
- Benzinho, você está doente?
Um dia falei para minha mulher:
- Vou ao médico. Não me sinto bem.
Sai e montei uma estratégia.
Procurei um amigo que tinha empresa de representações. Ficava a uns 30 minutos de casa. Não poderia ser perto.
- João teu escritório é grande e quero que você me alugue uma sala com ramal.  Eu também ajudo no salário da telefonista.
Retornei para casa.
- Amor o médico informou que estou com depressão pós aposentadoria e que o melhor é voltar a trabalhar, nem que seja um pouco. Na volta, já passei no João que vivia me oferecendo uma vaga de representante e aceitei.
Pela manhã levanto, não precisa ser muito cedo como antes que trabalhava. Vou caminhar ou a academia. Volto, me barbeio, me banho, tomo café e me despeço, normalmente alegando que estou atrasado ou tenho reunião.
Levo o jornal do dia.
No escritório comprei uma cadeira e uma poltrona confortáveis. Um armário para meus livros, revistas. Um aparelho com TV, rádio, CD player e tudo mais que exige a mídia moderna. Um bom computador. E um gravador.
Minha mulher me liga, a telefonista passa. De vez em quando ela responde:
- O Sr. Ronaldo está fora, em visita.
Ela me liga no celular. Deixo entrar o ruído do som, como se fosse do rádio do carro e ligo o gravador, onde tenho ruídos de motores, buzinas.
- Oi amor estou no transito. O que você quer?
Agora leio, faço sudoku, almoço com os amigos, passeio, happy hours.  Até comecei a jogar tênis à tarde. Faz parte da recomendação médica.
- Amor, o problema do tênis é que tenho muita dificuldade de arrumar tempo, mas, estou me esforçando
Chego em casa.
- Foi um dia daqueles, estou cansado.
- Oi benzinho, eu tinha pensado em irmos ao cinema, mas você chegou cansado. Então deixa.
- Não amor. Vamos a cinema.  Aliás, quando você tiver uma programação me liga, pois o médico me disse que não devo viver só trabalhando, preciso me divertir um pouco

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