sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O Baile


A morena era linda.  Todo o dia, no mesmo horário, pegava o ônibus.
Ele ia do serviço para casa e ela para a escola. Descia três pontos antes.
Todo dia ele a admirava e ela mal o olhava.
No ônibus cheio tratava de ficar perto. Observava cada detalhe. O cabelo, a pele, os olhos. Guardava na mente para poder sonhar.
Às vezes no ponto se aproximava pensando em puxar conversa. Não tinha coragem.
Pelos amigos ficou sabendo seu nome, em que classe estudava, onde morava , com quem andava.  Parece que não tinha namorado.
Os amigos começavam a rir de tantas perguntas.
- Vai a luta, irmão !
Mas, e a coragem?
Em um final de semana, em um dos bailes do bairro, daqueles que aconteciam antigamente, na casa de alguém. Sala de visita apertadinha, com uma pequena vitrola tocando compactos. Repetindo a noite inteira Ray Conniff, Roberto Carlos, Johnny Rivers, os discos que cada um levava. Ela estava.
Seu coração se acelerou. Pensou, tem que ser hoje.
Para tomar coragem bebeu duas Cuba Libres, enquanto a observava conversando com as amigas ou às vezes dançando com alguém.
Lá foi. Sua voz quase não saiu quando a convidou para dançar.
Sentiu seu corpo próximo, a respiração, o toque de sua mão. A música era lenta. Aproximou seu rosto, sentiu sua pele.  Temeu que ela nota-se o suor escorrendo.
Queria falar. Não sabia o que. Sua boca secou.  Pensou que ia perder o compasso da música pelo descompasso acelerado do coração.
A música acabou, se separaram com leves sorrisos de despedida.
Os amigos se aproximaram.
 - E aí ?
Falou da pele, do corpo, do cabelo, do rosto.
- E aí ?
- Ai nada. Só dançamos.
- Tu é mesmo um babaca.
Alguns foram procurar novas parceiras para dançar, outros foram dar em cima das que estavam a fim. E ele ficou olhando-a.
Conversava com as amigas, ria.  Será que falavam dele ?
A noite continuava. Novas músicas, novos pares e ele ansioso para tirá-la para dançar, mas, sem coragem.  Quando se decidia, alguém se antecipava. A angústia lhe tomava a alma.
Resolveu sair para tomar ar, pois, o ambiente estava quente e seu coração mais ainda.
Olhava a noite, os namorados, os amassos, os beijos sorrateiros e mais se angustiava.
Eis que de repente, ela sai no terraço para se refrescar e para ao seu lado, sem o perceber.
Ele diz:
- Como está quente.
Ela o repara, sorri e diz que sim.
Nossa seus olhos são mais lindos do que eu imaginava! E sua boca!
Ela se encosta na murada deixando sua mão próxima a dele.
Em um movimento, incontido, ele trata de encostar sua mão a dela, que reage, colocando alguns dos dedos sob a dele.
Uma faísca corre seu corpo e num impulso lhe dá um leve beijo na face.
Ela sorri timidamente, se aproxima e se deixa abraçar.
Os discos voltaram a se repetir na vitrola da pequena sala em penumbra, onde alguns casais se alternavam. Mas pelo resto da noite, todas as músicas as dançaram juntos.

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