domingo, 26 de dezembro de 2010

Final do Dia

    Chegou em casa depois de um dia de trabalho.
    Deitou-se na espreguiçadeira, no quintal, admirando o final do dia.  O sol se pondo, num alaranjado maravilhoso.
    Pássaros cantando e gorjeando em grande quantidade.  Sanhaços, pardais, joão de barros, tesourinhas, pica paus, rolinhas e outros mais.  Maritaca, em bandos, com seus gritos estridentes.  Andorinhas em suaves revoadas.
    Seu quintal era um oásis para passarada.  Tinha um grande abacateiro, um pé de pêra, uma mangueira e algumas pequenas árvores. 
    Para mais atrair os pássaros fizera um grande bebedouro, com água corrente e colocava constantemente sobras e cascas de frutas em recipientes apropriados.
    Para os beija-flores, bebedouros suspensos com mistura de água e açúcar, diariamente renovada.
    Ouvia ao longe um rádio tocando, a criançada na rua brincando, o latir de cachorros.  Sentia o aroma das mangas invadindo o seu olfato
    Fechou os olhos ouvindo aquela alegre sinfonia e começou a lembrar do seu tempo de menino.
    A molecada na rua brincando.  Taco, pula sela, mãe da rua, queimada, pular corda.
Paravam para jantar e voltavam.
    Os mais velhos com as cadeiras na calçada conversando. Contando os “causos”.
    Ouviam as estórias do Saci Perere, que vinha no meio de um redemoinho, e aprontava das suas.  A Mula sem Cabeça. Pelo menos uma ou duas pessoas juravam já a terem visto. 
    O Curupira, menino arteiro com os pés virados para trás, cabelos vermelhos cumpridos e que aparecia montado num porco do mato, confundindo e assustando os caçadores para proteger os animais.

    O “coisa ruim”, nas formas mais diferentes de homem e mulher, que ficava nas encruzilhadas, esperando os mais incautos, para fazer das suas tratativas em troca da alma de algum pobre mortal.   
    A certa hora as mães gritavam para os filhos irem para a cama, pois já era tarde.
    Como era difícil dormir com as estórias na cabeça.  Eu e meus irmãos dormíamos com as cabeças cobertas com os lençóis e a cada barulho dávamos um pulo na cama e perguntávamos se alguém tinha ouvido algo.  Até que o cansaço do corre-corre na rua nos dominava e dormíamos.
    Tempo bom.  Hoje ninguém fica mais na calçada conversando.
    - Beeem.
    É minha mulher me chamando.
    - Bem, tá na hora da novela.
    Lá vou eu para os tempos modernos, onde não tem mais saci, curupira e mula sem cabeça.
    O “coisa ruim” não fica mais nas encruzilhadas, mas, sim nas novelas da TV.

   

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