Debaixo da cobertura de um prédio, no avançado da noite, encostou sua carroça de duas rodas, onde guardava papelões, latinhas e o que mais de proveito encontrava nos lixos.
Tirou uma vassoura e varreu o espaço.
Colocou um papelão no chão e pegou na carroça um saco, uma pequena lata e uma colher.
Colocou na lata um pouco da comida que havia no saco.
Chamou a pequena cachorra que o acompanhava, cujo nome era Baleia, e lhe deu a latinha.
Sacou uma garrafa com água que despejou em outro recipiente, para o animal.
Sentou no papelão e começou a comer do saco e a beber da garrafa, enquanto conversava com Baleia.
Palavras indecifráveis, conversa desconexa.
O barulho do comer se misturava, com o dos carros, que passavam na rua molhada pela fina garoa.
Terminada a comida retirou da carroça dois finos cobertores, enfeitados de buracos, uma espuma, sobre a qual colocou um papelão e fez um travesseiro.
Deitou e encolheu-se todo, pois o frio era muito.
Chamou a cachorra, que se aconchegou junto ao peito, para melhor se aquecerem.
Abraçou-a e, balbuciando palavras dormiu.
De repente, a cachorra late para um passante.
Ele acorda num sobressalto com medo de lhe baterem, de roubarem a carroça.
Vê que não é nada e resmunga:
- Baleia, já te disse para não latir por nada.
Novamente, deita-se com o animal junto ao peito, tiritando, reclamando do susto e volta a dormir.
Enquanto isso, a cidade em volta, segue na sua insensibilidade e cegueira, deixando as suas feridas expostas e abandonadas.
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