terça-feira, 28 de setembro de 2010

Déja-lo Maria, La Vida Le Vá Enseñar

Carlos era um daqueles conhecidos que se perdeu no tempo. Fomos amigos entre os 16 e 20 anos. Os encontros foram rareando, pelo namoro dele, cada vez mais sério, tanto que acabou se casando com a primeira namorada, além do trabalho e dos estudos.  Do meu lado, por razões similares.   Acabamos, finalmente, nos distanciando quando mudou de cidade.

“O mundo gira e a Lusitana roda”, propaganda antiga de uma empresa de mudanças.

Depois de muito tempo retomamos os contatos. Desta vez, num jantar em sua passagem por São Paulo, onde junto com Curitiba e Jundiaí divide sua vida, nos encontramos para colocar o papo em dia.

Carlos viajou a inúmeros países da América, Europa e Oriente, mas apesar da descendência portuguesa, tem um especial apreço pela cultura espanhola. É voraz consumidor de filmes, documentários, livros sobre a Espanha e sobre a infeliz guerra civil que assolou o país entre 1936 e 1939.

Nesse jantar, relembramos fatos vividos e conversamos sobre nossas famílias, principalmente, filhos. Os endereços mudam, mas os problemas são relativamente iguais. Muitas vezes, eles só aprendem dando cabeçadas, apesar dos conselhos.

Em sua casa, quando começam discussões , Carlos pergunta aos filhos qual é a frase a ser usada. Eles respondem:
- “Déja-lo Maria, la vida le vá a enseñar” (Deixe-o Maria, a vida o ensinará).

Surpreso, perguntei de onde tirou esta frase. Ele me disse:
- Ouvi seu pai dizer a sua mãe, inúmeras vezes quando você discutia com eles sobre os mais diversos assuntos. Aliás, observar um homem curtido pela idade e pela guerra, sem maior cultura, mas com sabedoria e com um comportamento agradável com as pessoas me fez admirá-lo.

Carlos confessou que meu pai incutiu nele um interesse pela Espanha, pela Guerra Civil.  Esse interesse mexeu com sua vontade de aprender e ampliou sua visão da vida. Isto o fez uma pessoa diferente.
Ouvindo aquilo fiquei emocionado e alegre pela influência que meu pai teve em sua vida.

Mais tarde, pensei.  Quantos gestos, palavras e atitudes nossas, influenciaram pessoas sem que ao menos nos déssemos conta e a quantidade de vezes que desperdiçamos com inutilidades ou nada agregando de bom.

Quantas oportunidades perdemos de melhorar o mundo, nem que fosse emanando pensamentos positivos, olhares agradáveis, sorrisos cativantes, gestos gentis?

Estudamos, nos formamos. Imaginamo-nos inteligentes, donos das palavras. Entretanto, teremos, em algum momento, tido o mesmo papel que meu pai teve na vida daquele garoto de pouco mais de 16 anos? Um homem sem formação cultural, um mero operário de obras. Tinha as mãos ásperas como uma lixa de dobrar ferro para formatar estruturas  a serem concretadas. Mas tinha um olhar calmo e comentários desenvolvidos pelos momentos de agruras que a vida lhe fez passar. Reiniciou sua vida do nada em um país estranho aos 51 anos.

Buscamos respostas, caminhos, conselhos nos livros, em palestras, nos estudos.  Acreditamos que elas estão nos grandes conhecimentos, quando podem estar ao nosso lado, nos gestos e nas pessoas mais simples.
Eu tive a graça de ter tido algumas delas que influenciaram a minha vida, mas será que tive a graça maior de ter exercido esse papel?




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