quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O Telefonema

Ela acordou, olhou o relógio. Nove horas, resolveu ficar um pouco mais na cama relembrando o telefonema da noite passada.
Levantou, pijamão de flanela, chinelão velho.
Bom dia Cáca. A sua boa e velha companheira. Uma alegre cachorra schnauzer, com quem passava o dia inteiro conversando.
Preparou o café numa pequena cafeteira enquanto contava do seu telefonema.
Colocou uma velha e folgada roupa, para que não lhe aperta-se e nem banho tomou. Já havia tomado um dia antes. Penteou o cabelo cheio de mechas brancas que demonstravam a necessidade de um cuidado maior.
Deu uma pequena arrumada na casa, lavou algumas peças de roupa, guardando os detalhes do que acontecia para que no telefonema daquela noite os pudesse comentar.
O almoço, uma quantidade de macarrão, com uma porção a ser guardada para a noite. O molho era de lata, que já estava pela metade. Não valia a pena preparar um de tomates frescos só para ela.
Sob a cristaleira algumas fotos antigas. Seus pais, avós.
Uma das fotos era de quando debutou aos quinze anos.
Cacá veja como eu era bonita, como eu estava linda. Foi uma noite maravilhosa, dancei com vários rapazes. Aliás, preciso lembrar melhor dos detalhes para contar no meu telefonema de hoje.
À tarde TV, principalmente com a novela que é reprisada.
Cacá essas novelas antigas é que são boas. Não tem esse agarra agarra de hoje, sexo a todo momento. Não havia nem gays e lésbicas! Alias esse é um assunto interessante para a conversa de hoje à noite. Relembrar o valor do amor puro, companheiro, solidário. Do querer afetuoso.
Cacá você não acha que eu tenho razão ?
E a cachorra como que concordando abanava o rabo.
Depois o folhear das revistas com os titis das novelas, os fuxicos dos artistas.
Um pouco mais de TV com os programas falando mal da vida dos outros.
E a noite. Ah, as novelas! Uma atrás da outra. Emoções, ódios, desejos, vinganças. Aquilo era vida, aquilo enchia o seu viver.
Quando uma novela terminava era como se um ente querido se fosse.
Todas as emoções lhe vinham à pele. Eram elas que embalavam a conversa telefônica noturna.
Após as novelas, uma vez por semana, a comédia que falava da família. Relembrava a sua. Ria, às vezes chorava, com os fatos que pareciam com os vividos.
Ai vinha o monótono jornal da noite.
Abria a janela do pequeno apartamento e observava a vida lá fora. Pela janela dos prédios via gente jantando. Conversando e rindo na sala. Crianças correndo no quarto e mãe entrando e ralhando.
Nesse momento a solidão tomava conta do seu coração. As lembranças das fotos na cristaleira eram parcas.
A grande noite de insônia iria começar. Era o momento do tão esperado telefonema.
Disca lenta e ansiosamente os números.
Uma voz melodiosa atende:
C.V.V. * boa noite !


* Centro de Valorização da Vida

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