quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O Velho Anarquista


O velho anarquista, em Valencia, em frente a La Lonja de La Seda, uma obra gótica dos Sec. XV e XVI, patrimônio da humanidade, olhando para a Igreja de Los Santos Juanes, que fica em frente e foi construída em cima de uma mesquita do Sec. XIII, disse:
- Eu e a companheira, ficamos daqui vendo o povo colocar fogo nesta igreja, quando da Guerra Civil (tanto que até hoje a suas pinturas estão enegrecidas pela fumaça), queimando na praça seus santos, seus paramentos.
A Guerra Civil Espanhola, de 1936 a 1939, dizem ter sido a última guerra ideológica. Este é um assunto que exige uma análise longa.
Na época, o povo oprimido pelo império, pelos latifúndios, pelo pouco trabalho com baixíssimas condições, pela dificuldade de ter o seu pedaço de terra e produzir, tentou tomar o poder e se voltou contra tudo o que representava o passado e a opressão.
A Igreja era uma dessas figuras do poder. Foi atingida pelo turbilhão em função do pior que representava.
Queimaram templos, conventos. Mataram e perseguiram padres e freiras. O mais estranho é que no fundo o povo espanhol era crente.
A Igreja, na época, usufruía das riquezas e do poder e distribuía ao povo o consolo de um mundo melhor. Só que depois da morte. Vendo-os serem oprimidos e pouco fazendo.
No passar do tempo se distanciou do Cristo, na busca do poder temporal, e ditou as verdades que lhe convinha. Não era mais a representante das suas palavras e sim a sua proprietária.
Construiu templos faustosos para exaltar a Deus, mas, os construiu com muita dor e sangue.
Vidas se foram nas construções. Algumas por abnegação, outras por cobranças, outras por necessidade.
Muitos morreram para cobri-los de ouro, para os seus ostensórios, cruzes, andores. Para ornamentá-los de pinturas e das mais diversas riquezas.
Muito do corpo e sangue de Cristo, se misturou com o corpo e sangue dos que morreram para a criação e manutenção de sua grandeza e fausto.
Não bastava mais um simples pão e uma taça de barro, eram necessários patenas e cálices de ouro. Paramentos luxuosos.
Era essa igreja que os espanhóis queimavam na sua ânsia de um mundo melhor.
O velho anarquista dizia:
- La iglesia no era de Diós e si del diablo.
Quando se entra nas suntuosas Igrejas da Espanha, tem-se a sensação de se estar perto de Deus, pela suavidade dos seus ambientes, pela imponência dos seus altares, pelos vitrais, coros e colunas. Pela beleza distribuída por todos os lados. Mas, pode-se sentir a dor entranhada nas suas paredes, das vidas dos índios do novo mundo, quando da busca do ouro e da morte que rodou todos os continentes para o seu maior engrandecimento e riqueza.
As palavras do Filho, permaneceram, com uma força superior aos templos, igrejas, seitas, religiões que se criaram em seu nome. Ela não necessita de bens, mas sim, que vivam a sua essência.
Quem sabe o velho anarquista deveria ter dito que a Igreja não era do Diabo, mas, sim, tanto de Deus quanto do Diabo.

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