quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Alzheimer



Ele observa seus olhos. Estão fixos no vazio.
Ri e canta algo que está perdido no tempo.
De repente para e pergunta: Quem é você ?
Seu marido, meu amor. Lembra da nossa casa, nossos filhos ?
Os olhos se voltam para ele, mas de repente, se apagam escapando do presente e voltando para o passado.
É triste relembrar a mulher bonita, a mãe amorosa que tinha a grande alegria de agregar todos a sua volta. Agora uma simples presença física.
Toca-lhe o rosto, beija a testa e lhe acaricia as faces. Busca um sinal, por menor que seja, de reconhecimento.
Quem é você ? Meu pai me levava a todos os brinquedos. Andava de carrossel, roda gigante, bate-bate.
Começa a cantar cantigas de roda antigas.
Coloca o prato de comida a sua frente e os talheres a mão.
Ela observa sem entender do que se trata.
É a tua comida. Come !
Começa a comer.
De repente para e fica olhando para o prato.
O que é isto? É a tua comida.
Onde está o negócio de comer ?  Os talheres estão na tua mão.
Novamente começa a comer.
Está linda, tem a pela macia e os cabelos sedosos que sempre o encantaram.
Seu corpo mantém a forma.  É a mulher da sua vida com quem vive há anos e que foi cada vez mais se perdendo dentro de si, deixando de pertencer ao presente, tornando-se outra pessoa, perdida, confusa, às vezes agressiva.
Não conhece ninguém. Nem a ele. Só lhe permite que a ajude. Ele a leva para as necessidades a mais das vezes incontidas, lhe banha, troca.  A arruma como se fosse a uma boneca.
É um ser desconhecido com todas as formas e às vezes com o sorriso e o olhar de antes.
Ele sente como se estivesse velando dia a dia um corpo presente cuja alma se foi. Só resta a matéria.
Ela se perdendo do presente e ele do futuro.

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